terça-feira, 2 de maio de 2017

A biografia de Charlotte e impacto da crueldade


*Resenha elaborada pela colaboradora Juliene Lopes

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SINOPSE: Este romance retraça a vida da pintora Charlotte Salomon. Uma tragédia familiar pouco antes da Segunda Guerra Mundial marca a vida da pequena Charlotte, que já dava indícios da realizada artista que viria a se tornar. Obcecada pela arte e pela vida, a jovem, progressivamente excluída de todas as esferas sociais alemães com a ascensão do nazismo, tem que abandonar tudo para se refugiar na França. Exilada, ela inicia uma obra pictural autobiográfica de uma modernidade fascinante. Sabendo estar em perigo, entrega os desenhos ao seu médico, dizendo: ''É toda a minha vida". Padece em Auschwitz, aos 26 anos, grávida. Esse romance assombroso e redentor, pautado na vida da trágica figura real que lhe serve de protagonista, é o relato de uma busca. Da busca de um escritor obcecado por uma artista.



Quando eu era criança, costuma achar biografias sem graça. Me recordo de pensar "Qual a graça de ler o que já se sabe?" Como se o saber de antemão os eventos principais da vida de alguém tornasse a história previsível. Só com o passar dos anos ganhei a maturidade de entender que o que faz a vida de alguém é o percurso, os mínimos detalhes que guiam seus passos aos eventos principais.
E é isso que traz a beleza ao triste romance escrito por David Foenkinos. Pois a vida de Charlotte foi trágica desde antes de sua existência. Herdeira de uma linhagem de suicidas, ela parece ser a única que, apesar da melancolia, era ávida por viver. 
Perdeu a mãe para a depressão e para o suicídio muito cedo, aos seis anos de idade, portanto conheceu cedo a força da solidão. O pai, muito dedicado ao trabalho, não tinha muito tempo para ela, mas encontrou em Paula, sua segunda esposa, uma boa substituta para a mãe de Charlotte. 

A artista sempre foi muito reservada, tímida, introspectiva. Quase não tinha amigos, mas não pareceu infeliz por isso. Era aluna dedicada, brilhante na escola, mostrava aptidão para o desenho e quando adolescente determinou para si que se tornaria estudante da academia de Belas-Artes. Entretanto por ser judia (de nascença, mas sem religião na prática) e tratar-se de uma Alemanha nazista, houve resistência. Nada relacionado ao seu talento, posto que esse não foi contestado. Graças a insistência do professor Ludwig Bartning conseguiu sua admissão. Charlotte lidou com o preconceito, destacou-se e ganhou prêmio, porém foi proibida de recebê-lo. Outra aluna recebeu em seu lugar. Uma legítima ariana. Diante da humilhação, decidiu que nunca mais pisaria na academia.

Ficou um tempo reclusa em casa, encontrando conforto em seus desenhos. Apaixonou-se pelo professor de música da madastra, Alfred. Um homem incapaz de prometer um amor pleno e fértil. Ele mesmo era meio quebrado por dentro e portanto, nunca fez promessas. Com a intensidade da perseguição aos judeus, Charlotte foi obrigada a se exilar na França, e assim o fez. Uma vítima das circunstâncias, sempre sofrendo as consequências dos atos alheios: a solidão dada pelo suicídio da mãe; a proibição de expor seu talento por ter nascido judia; a insegurança de um amor mal correspondido; a fuga do ódio alheio. Mas apesar disso, ela sobreviveu e se perpetuou na arte.

Foi pega pelos nazistas três vezes. Na primeira, foi parar em um dos campos junto com seu pai. Ambos sobreviveram, foram soltos. Depois disso foi enviada para a França, onde estavam seus avós. Somente lá, após o suicídio da avó, foi descobrir que sua própria mãe também havia se matado. Ficou devastada, chorou todas as lágrimas que se esforçou para prender durante anos. Após uma visita ao médico da família (doutor Moridis) veio a catarse, nascia a semente da sua obra "Vida? Ou Teatro?" Decidiu colocar nas pinturas a história da sua vida. 

"E enfim, ela precisa o estado de espírito do seu personagem: 

Era preciso desaparecer da superfície humana por algum tempo.

E, para isso, aceitar todos os sacrifícios.

A fim de recriar as profundezas do seu ser, o seu próprio universo" (página 187) 


A linguagem e a forma poética da narrativa.
Foram dias dedicados exclusivamente ao trabalho. Mostrou ao mundo a própria figura e todos os outros personagens que partilharam a vida com ela. Quando concluiu colocou tudo em uma mala e confiou sua obra, toda sua vida, à Moridis. Foi pega uma segunda vez pelos nazistas, mas a solidariedade de um soldado a ajudou a fugir. Exilou-se mais uma vez dentro da própria França. Engatou um relacionamento com Alexander Nagler, engravidou, casou. Viviam como dois eremitas, escondendo-se do perigo. Mas após uma denúncia, ela foi pega pela última vez. Marido e mulher foram presos, separados e por fim Charlotte teve a maternidade negada ao morrer junto ao filho não nascido, em Auschwitz.

Parece tudo triste, trágico, mas apesar de tudo Charlotte inspira resiliência, força, vontade de viver. 

"Eu era todos os personagens na minha peça.

Aprendi a seguir por todos os caminhos.

E assim tornei-me eu mesma." (p.195)

Foenkinos escreve sua narrativa como poesia. É uma leitura dramática e reflexiva, com frases de impacto. Charlottte inspira empatia, ao olhar para ela, através das linhas e das palavras, só posso dizer que gostaria de ter sido sua amiga, aplacar um pouco sua solidão. Mas como ela própria ensina, existem as circunstâncias. Todos podem ser vítimas delas mas cabe a cada um a escolha de aprender com as situações e ressurgir com beleza e força delas, deixando assim de ser vítima delas. Charlotte foi assim.


SOBRE O AUTOR:
Nascido em Paris, em 1974, David Foenkinos é roteirista de cinema e autor de mais de uma dezena de livros, entre os quais os romances O potencial erótico de minha mulher e A delicadeza, que deu origem ao filme A delicadeza do amor, dirigido por ele e pelo irmão, Stéphane Foenkinos, e estrelado por Audrey Tautou. Saudada por público e crítica, sua obra é traduzida em mais de 20 países.  





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