quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Quando a poesia muda uma vida



O título do livro não era este. Era Ardente Paciência. Mas o filme baseado no livro ganhou tanta fama (foi indicado ao Oscar em 1996 e ganhou como trilha sonora) que o próprio autor se viu motivado a alterar o nome do livro pelo título homônimo do filme: O carteiro e o poeta. O que é comum ao autor, pois com Um pai de cinema aconteceu o mesmo. Com a força do filme de Selton Mello (O filme da minha vida), o escritor chileno Antonio Skármeta parece mesmo estar sempre influenciado pelo poder do cinema.
            Este livro de Skármeta conta a relação amigável entre o carteiro Mario Jiménez e o poeta Pablo Neruda. A história é curiosa: Mario tem pouca instrução e está desempregado. Sabendo do surgimento de uma vaga de carteiro nos Correios, resolve se candidatar, pois ele não suporta mais a ideia de ser apenas um pescador como o seu pai ou outros homens comuns da comunidade. Além disso, como Mario tem alergia a peixe, ele queria fugir dessa rotina. Isso é perceptível com o gosto pelo cinema, o qual vai com muita frequência, além de gostar de passear de bicicleta pela ilha.
            Ao ser contratado para entregar cartas ao único destinatário que recebe as correspondências, Mario vê a possibilidade de se aproximar do poeta que, devido a sua literatura, encontra-se exilado na ilha por razões políticas. Com esse contato, o carteiro se aproxima cada vez mais do poeta, comprando livros para ser autografados por ele, pedindo ajuda na interpretação de poemas e até explicações sobre como construir uma metáfora.
           
Mas o que mais vai unir os dois é o desejo de Mario de conquistar Beatrice, a moça por quem Mario é apaixonado. Esta ajuda de Pablo será muito importante para o humor da narrativa. Pablo Neruda incentiva Mario a vencer a timidez e a conquistar sua amada com poesia e muito lirismo. É a partir disso, das leituras, da poesia e da percepção política, que o simples carteiro sem quase nenhuma instrução vai se tornar uma figura política em meio ao momento difícil que enfrenta o Chile. Depois de muito ler, o carteiro não é mais o mesmo e seu engajamento oposicionista contra o governo será cada vez mais evidente após o fim do exílio do poeta.
            Neruda, que terminado o exílio, vai embora da ilha, deixa em Mario uma enorme influência intelectual. Já casado com Beatrice, Mario sabe que a poesia, a literatura é capaz de transformar o ser humano. Não é mais suficiente ficar calado diante das ações do governo. Não é mais capaz de ficar em silêncio diante do barulho da literatura.
            Poemas como este a seguir ajudam a mostrar a força poética e lirismo que o livro possui no decorrer da narrativa.

Desnuda és tão simples como um de tuas mãos,
lisa, terrestre, mínima, redonda, transparente,
tens linhas de lua, caminhos de maçãs,
desnuda és delgada como o trigo desnudo.
Desnuda és azul como a noite em Cuba,
Tens trepadeiras e estrelas nos cabelos.
Desnuda és enorme e amarela como o verão
Numa igreja de ouropel.

O livro, que tem apenas 174 páginas, conta com um pano de fundo histórico cheio de referências à ditadura de Pinochet: do exílio do poeta ao fim da amizade dos dois. Escrito com humor e uma linguagem bastante objetiva, o livro de Skármeta é uma bela homenagem ao poeta chileno. Se no começo do livro, Mario era um homem atabalhoado, no fim, ele já é um homem maduro. Se no início ele era incapaz de perceber a sensibilidade de uma metáfora, no fim ele já se entrega ao poderio da literatura.

SOBRE O AUTOR:

Antonio Skármeta nasceu em Antofagasta, no Chile. Estudou filosofia e literatura em seu país e em Nova York. Viveu muito tempo na Europa e nos Estados Unidos, onde trabalhou como roteirista, professor e diretor de cinema. Seus livros de contos e romances foram publicados em mais de 25 línguas, com destaque para O carteiro e o poeta, levado às telas dos cinemas e recebendo cinco indicações para o Oscar. Skármeta foi embaixador do Chile na Alemanha de 2000 a 2003 e hoje reside em seu país, dedicando-se exclusivamente à literatura. Foi embaixador do Chile na Alemanha de 2000 a 2003 e hoje vive em seu país, dedicando-se apenas à literatura.

 
FONTES:
Imagens obtidas dos sites: Sede de InfinitoOutrasPalavras e Interrogação
O filme pode ser assistido aqui no YouTube. (Filme Completo).


quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Crônicas de uma sociedade líquida, por Umberto Eco (ou Pape Satàn Aleppe)


Autor profícuo de livros de ficção, como o monumental O pêndulo de Foucault, ou ainda O Nome da Rosa, Umberto Eco também empreendeu estudos teóricos a respeito da teoria da literatura, língua e semiótica. Colunista de vários jornais e revistas, Eco sentia-se confortável opinando sobre vários assuntos em sua coluna, na qual comentava sobre absolutamente tudo: de livromms a programas popularescos de televisão italiana. Fruto dessas crônicas, o livro Pape Satàn Aleppe reúne muitas delas e divide-se em partes: (citar as partes).
Este mais recente livro compila 178 crônicas, espalhadas em 14 capítulos. Embora pouco inéditas, já que a maioria foram escritas no período de 15 anos (2000-2015), enquanto escrevia para a coluna La Bustina de Minerva, do jornal italino Espresso, elas contém em si o espírito crítico e bem-humorado tão característico a Eco.
A expressão intrigante do título do livro de Eco é de Dante, outro italiano que escreveu uma obra importante para a literatura ocidental, mas especificamente 
A Divina Comédia. Dela, uma frase tornou-se mundialmente famosa: Pape Satàn Aleppe, dita quando Pluto ao entrar no Inferno e que até hoje intriga filólogos, linguistas e tradutores, na busca de um significado exato para tal expressão. Mas algumas edições críticas da obra apontam que ela pode significar “Pare, esta é a porta de Satanás!”, ou ainda “Oh, Satanás, ai de mim”. Assim, diante de confusão em torno do título, o próprio autor comenta:
“A citação é evidentemente dantesca (“Pape Satàn, pape Satàn aleppe, Iwnferno, VII, 1), mas como se sabe, embora uma profusão de comentaristas tenha tentado encontrar um sentido para o verso, a maior parte deles concluiu que não tem nenhum significado preciso. Em todo caso, pronunciadas por Plutão, estas palavras confundem as ideias e podem se prestar a qualquer diabrura. Achei, portanto, oportuno usá-las como título desta coletânea que, menos por culpa minha do que por culpa dos tempos, é desconexa, vai do galo ao asno — como diriam os franceses — e reflete a natureza líquida destes quinze anos. ”
O significado da frase, que intriga até quem estude Dante, provocou inúmeras interpretações. Mas o próprio Eco diz que a frase é "suficientemente 'líquida' para caracterizar a confusão de nosso tempo". É exatamente este caráter misterioso da frase que dá ao livro uma expressão curiosa: Qualquer sentido que se dê a este mundo cheio de tecnologia, alienação da mídia, comunicação incompreendida, parece conveniente à escolha do livro. Afinal, são tempos em que a sociedade “líquida”, no dizer do autor, passa por uma fase de incompreensão.

De todo modo, o imbróglio ao redor da frase gera teorias e discussões que estão longe de abarcar a complexidade da obra Dantesca, passando, pois, a significar um aglomerado de assuntos complexos de entender, discutir, consenso. Umberto Eco toma a expressão para intitular seu livro, que foi publicado aqui no Brasil postumamente, mas coloca como subtítulo “Crônicas de uma sociedade liquida”, que evidentemente traz uma ligação direta com a teoria do sociólogo polonês Zygmunt Bauman e suas ideias a respeito de modernidade liquida, sociedade líquida, amores líquidos, vida líquida e afins. Para Bauman, a sociedade líquida afeta a todos nós, ela vem junto com uma crise ideológica muito forte que enfraquece inclusive os valores individuais e coletivos.

No prefácio de Pape Satàn Aleppe, Umberto Eco esclarece sobre essa imprecisão dos pesquisadores em torno da frase. Já que não há consenso, que permaneça obscura e confusa, como a sociedade atual, tão moderna e tão líquida, como reflete Eco em suas crônicas que falam desde os mass mídia até Harry Potter, ou ainda, da crise da adolescência, mas também são crônicas que tratam proeminentemente da crise social que vivemos nos tempos líquidos nos quais vivemos, nas situações e conflitos. Os textos, sejam eles sobre filosofia, literatura, feminismo, política, ou racismo, redes sociais, twitter, caligrafia, 11 de setembro, nos levam até aquilo que o subtítulo do livro enfoca: são apenas CRÔNICAS de uma sociedade líquida.
Não é porque as crônicas foram escritas em um jornal italiano que elas retratem apenas o público daquele país. Não mesmo. Da era dos templários, situações políticas, crises ideológicas, redes sociais, obsessão política, relações americanas à programas da TV aberta, Eco parece não poupar nem mesmo a própria literatura que lê, quando por exemplo, fala dos livros lidos. São tempos líquidos, onde tudo rui, todo império rui, nada dura, nem mesmo as instituições. E é disso que o autor trata nas crônicas que nos convida a refletir sobre a vida real/virtual, pois se antes os néscios não eram tão evidentes, em tempos de network tudo se amplifica. Se Dante dizia Satàn pape Aleppe em A Divina Comédia. E continuamos a repetir ainda hoje: Satàn, pape Aleppe.

Algumas crônicas, em particular a “O prazer de delongar-se” parece ser uma resposta ou reação do escritor a algum comentário/entrevista realizado anteriormente por ele. A sociedade líquida que Eco quer retratar é uma sociedade que se preocupa excessivamente com redes sociais, individualista e sem referência.
Em suma, o livro é literalmente um banho de cultura e intelectualidade.  Eco tem uma excelente memória e não nos deixa esquecer por exemplo as diferenças de raças e conflitos mundiais, pois ambos são temas muito bem retratados. Suas críticas ao mal que a TV pode fazer ao ser humano são compostas de inúmeros fundamentos, inclusive ele exemplifica a falha e crise da comunicação, a era do rádio e o poder da imprensa, sua (des) ou informação ou ainda até alienação. É um livro que faz jus ao nome que o intitula.

SOBRE O AUTOR

Reconhecido como um dos mais importantes escritores e pensadores dos últimos tempos, Umberto Eco (1932-2016) foi filósofo, semiólogo, crítico literário e professor de semiologia na Universidade de Bolonha. Vítima de cancro, Eco faleceu na sua casa em Milão na noite de sexta-feira aos 84 anos. Era conhecido mundialmente pelo seu romance "O Nome da Rosa", que vendeu milhões de exemplares e foi traduzido a 43 idiomas. Umberto Eco nasceu em Alexandria, Itália, em 1932. É semiólogo, professor, escritor. Entre suas obras ensaísticas destacam-se: Kant e o ornitorrinco (1997), Sobre a literatura (2002). Entre suas coletâneas, ressaltam-se: Diário mínimo (1963), O segundo diário mínimo (1990), com uma primeira antologia de textos publicados na seção La Bustina di Minerva da revista L’Espresso, Cinco escritos morais (1997) e La Bustina di Minerva (2000). Em 1980 estreou na ficção com O nome da rosa (Prêmio Strega 1981), seguido por O pêndulo de Foucault (1988); A ilha do dia anterior (1994); Baudolino (2000) e A misteriosa chama da rainha Loana (2004). Também é autor de História da beleza (2004), História da feiura (2007) e Não contem com o fim do livro (2010).

FONTES:
Site da Editora: http://www.record.com.br/autor_sobre.asp?id_autor=541
The Paris Rewiew
Referências bibliográficas
ECO, Umberto. Pape Satàn Aleppe: crônicas de uma sociedade líquida. Editora Record. 2016

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Resistência do amor em tempos sombrios

Terceiro e último livro de uma trilogia que a escritora gaúcha iniciou com A casa das sete mulheres, o volume Travessia encerra a Trilogia Farroupilha com um personagem que, no dizer da autora, é comum a toda a história: Garibaldi, este carismático personagem que aparece no início do primeiro livro, quando principia um amor platônico com a meiga Manuela, a filha do Bento Gonçalves. Mas como já acompanhamos nos volumes anteriores, a família da moça não compactua com o romance, impedindo, pois, o contato de ambos.
Se no primeiro livro a escritora se atém a contar a história da família concomitante à Revolução Farroupilha, tendo como cenário a Estância da Barra, a casa na qual ficaram 7 mulheres da família de Bento Gonçalves, no segundo volume já temos como plano histórico a Guerra do Paraguai, além de mudar a perspectiva para o romance de Giuseppe e Anita, a mulher atemporal que provoca uma paixão no general e guerreiro italiano. Ana Maria de Jesus Ribeiro, ou Anita, sempre dava um jeito de acompanhar Garibaldi em suas empreitadas bélicas, mesmo diante dos perigos dessa vida.
O volume levou mais de 10 anos para ser concluído e motivou a autora a fazer uma pesquisa ampla sobre o período histórico a ser descrito. Em cada livro, podemos perceber que as histórias se passam em meio a uma batalha: Revolução Farroupilha, Guerra do Paraguai e as que foram vividas por Garibaldi e Anita. Assim, foram quase 16 anos de trabalho da escritora gaúcha, convivendo com os personagens criados e com as intensas lutas históricas do período da narrativa.

O desfecho da trilogia tem 546 páginas que nos envolve por possuir muitas batalhas, intrigas políticas, fatos históricos, mas fugindo desse didatismo, a escritora também coloca romance de uma maneira incrível, sem pieguice, mas cada vez mais próximo do que podemos imaginar para os personagens históricos.
Se nos volumes anteriores a história era narrada por mulheres, neste terceiro volume uma das perspectivas narrativas é feita pelo próprio Giuseppe. Aqui, por exemplo, saberemos mais detalhes de sua história com a corajosa Anita, que pregava uma igualdade de gênero em tempos tão sombrios, lutou num tempo em que o espaço era predominantemente masculino e viril, uma mulher que em meados do século XIX já era um exemplo de empoderamento feminino, requerendo a sua posição enquanto mulher.
A precursora Anita já havia largado um casamento no qual se vira obrigada pela família a seguir, pois diante da fome existente, o casamento aos 14 anos acabou sendo uma saída. Vulnerável e corajosa, mas também conhecida por sua bravura, Anita iria ser determinante para alguns sucessos e insucessos da vida do homem por quem ela se apaixonara, afinal, seu fim se dará numa fuga ao lado do marido. Foi nas primeiras batalhas que o casal se conheceu, em Montevidéu, no Uruguai, quando Garibaldi lutou no Cerco de Rosas. A partir de então, nasce entre os dois um amor que irá dar forças a ambos seguirem na luta.
Encanta, pois, a maneira como o casal se conheceu. A Revolução Farroupilha já estava em seu quarto ano, em 1939. Já que o romance com Manuela não havia evoluído, Garibaldi dedicou-se à construção de barcos que serviriam para a travessia dos Farroupilhas rumo à conquista da República Juliana. Em um desses barcos ele vê Ana Maria de Jesus Ribeiro, a bela Anita, que na casa de seu tio esperava notícias do seu marido, partícipe da Guerra, mas ao lado dos imperialistas. Como ela não sabia notícias dele (se vivo ou morto), já que ele havia fugido junto com os demais soldados imperiais, ao ver o já conhecido herói Garibaldi a sua frente, Anita ficou deslumbrada, entregou seu coração, deixou a casa com o tio e resolveu acompanhar aquele que seria o verdadeiro homem de sua vida até sua morte, aos 27 anos.

Dividido entre fatos acontecidos (aqueles narrados) com os personagens e ao que é narrado no presente, ou seja, em fevereiro de 1850, período no qual Giuseppe Garibaldi já se encontra no exílio, em Tânger (cidade nortista de Marrocos). Mas a narrativa também contém a perspectiva de Anita, que um pouco diferente da visão de Garibaldi, dá à narrativa menos cansaço e mais emotividade. Sua voz narrativa se faz presente até depois de sua morte.
Em Tânger, longe da Itália que o renegou, Garibaldi, aos 44 anos, conta as dores sofridas no passado: o afastamento da família, o distanciamento dos filhos e o doloroso abandono de sua amada Anita às margens do mar Adriático. Assim, não é de espantar que algumas atitudes dos personagens nos deixem perplexos ou decepcionados mesmo, pois enquanto nos dois primeiros volumes da trilogia temos um Garibaldi mais romantizado, algumas de suas decisões aqui causam surpresa, apresentando as fraquezas e realçando as qualidades dos protagonistas.
Nesta nova narrativa da saga, somos informados, por exemplo, de que os anos mais felizes do casal foi o período em que estiveram em Laguna, tempo em que ela o acompanhou nas obrigações militares. Desta época, passando pela gravidez de Anita, as traições, bombardeios da Guerra do Paraguai, as lutas nas quais ela mesmo grávida participou, o exílio de Garibaldi e a morte de Anita ao tentar acompanhar Garibaldi, o livro não ameniza o drama, mas também não o torna enternecido exageradamente.
 
De forma geral, Travessia não é o melhor livro da trilogia, mas certamente fecha-a muito bem, com uma história comovente e surpreendente. Semelhante aos demais, tem guerras, romance, melancolia, morte, mas sobretudo vida e sentimento. A impressão que dá é que esta tenha sido a receita repetida nos três, mas neste as tintas foram mais fortes.
Com o novo design de capa, as novas edições dos três livros embelezam qualquer estante. Como já foi dito, a convite da própria escritora, o artista plástico Chico Baldini criou gravuras para a capa que definitivamente a tornaram mais vivas diante de tanta morte na narrativa.


CURIOSIDADES E OUTROS LINKS:

  • ·         Anita foi homenageada tanto no Brasil quanto na Itália. Seu nome está inscrito no Livro dos Heróis da Pátria, depositado no Panteão da Liberdade e da Democracia, em Brasília.
  • ·         Aqui no blog da Editora Record tem uma entrevista com a autora.

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