sábado, 8 de julho de 2017

RESENHA - O SEGREDO DE HEAP HOUSE


Primeiro livro de uma trilogia, O Segredo de Heap House nos apresenta o clã Iremonger e a mansão na qual eles vivem, construída nos cúmulos (uma espécie de lixão). A história é escrita e ilustrada por Edward Carey e posso dizer que ele foi muito feliz ao construir sua narrativa. Por meio de uma descrição detalhada dos cenários e dos personagens, Carey cria uma atmosfera rica e fértil para o mistério e a surpresa.



Os Iremonger formam uma família peculiar, de ar melancólico (percebe-se também pelas ilustrações). São divididos em duas castas: os puros, compostos pelos membros que cumprem a tradição de casar entre si; e os mestiços, aqueles que escolhem cônjuges de outras famílias. Essa divisão afeta diretamente na vida de cada um pois as diferenças de tratamento são gritantes. Os puros garantem seu lugar na casa principal, vivendo no conforto,sendo servidos pelos mestiços que, por sua vez, vivem no subsolo e o luxo lhes é negado.
    Outra característica única da família é que cada Iremonger possui um objeto de nascença. Tal objeto pode ser qualquer coisa (qualquer coisa mesmo!) e a partir do momento em que é entregue à seu dono é estabelecida uma ligação forte e a pessoa que o recebe deve mantê-lo sempre próximo.
    Dois personagens narram a história. Clod, um Iremonger puro de 15 anos cujo objeto de nascença e um tampão de banheira universal. Um jovem sensível que tem a estranha habilidade de ouvir os objetos. Sim, ele escuta os objetos de família falarem seus respectivos nomes incansáveis vezes. Lucy Pennant é a órfã recém chegada para servir junto aos mestiços, mas que acaba mostrando-se dona de uma personalidade forte, marcante.




Embora comece sem grandes promessas O Segredo de Heap House traz ação e mistério. Podemos dizer que é uma literatura infanto-juvenil de mão cheia. Carey nos presenteou com uma idéia simples e personagens peculiares e cativantes. Recomendo!
Os demais livros da trilogia chamam-se Foulsham (2014) e Lungdon (2015). Torcemos para que sejam lançados por aqui também.

domingo, 11 de junho de 2017

[Lendo Teoria] Os excluídos da História - Michelle Perrot


Quando Michelle Perrot lançou o livro aqui ora comentado, muito demorou até que se fosse feita a tradução para o português do Brasil. A escritora que tem artigos dispersos por inúmeras revistas acadêmicas do mundo apresenta aqui em Os excluídos da História a oportunidade de vermos como os operários, mulheres e prisioneiros tem sido retratados na História.

        São 11 artigos, divididos em três partes dedicadas a cada coletividade que configura pessoas marcantes e ao mesmo tempo transgressores do seu lugar de enunciado, uma vez que operários, mulheres e prisioneiros era comumente vistos na história de um lugar e de uma posição passiva. É contra esta postura que Perrot argumenta e propõe uma análise e reflexão sensível a respeito de suas emancipações e problemas democráticos.
        Não é um livro de romance, de crônicas, poesia ou mesmo ficção. É um livro acadêmico, no qual os artigos aqui parecem se propor a ser uma espécie de composição histórica de suas classes, desde os tempos antigos.

A primeira parte, “OS OPERÁRIOS”, por exemplo, vai desde a posição e o lugar do operário nas máquinas francesas durante a primeira metade do século XX até o que a escritora denomina de “nascimento de um rito operário”, o qual a escritora conta a invenção do primeiro de maio (de 1980) e as reivindicações dos trabalhadores a partir de então.
É instigante saber como a pressão da comunidade desencadeou o processo de reconstrução dos valores e dos direitos dos trabalhadores. No artigo “O primeiro Primeiro de Maio na França de 1980” a acadêmica nos fala que “a escolha do primeiro de maio é mais enigmática e desde então tem sido intrigante. Essa data não corresponde inicialmente a nenhuma comemoração definida” (PERROT, p. 139). Mas apesar da interrogação, a escritora investiga e nos conta como surgiu este rito operário.
        Na primeira parte, Perrot ainda se detém a nos informar como era a vida do proletariado no início do século XIX, assim como também a vida da mulheres no chão das fábricas e a consequente relação existente entre operários e chefes, que, por sinal, nunca foi harmônica.
       
 É na segunda parte, MULHERES, porém, que a escritora indaga e mostra suas inquietações, enquanto mulher, da condição e dos atávicos costumes culturais que circundam a figura da mulher não só no meio familiar, mas sobretudo, no social. São artigos sempre atuais, que questionam e propõem uma discussão sobre a mulher. Inicialmente ela propõe uma discussão sobre a questão do poder, que se aproxima, nitidamente daquilo que Foucault propõe em sua obra.

“No singular, “poder” tem uma conotação política e designa basicamente a figura central, cardeal do Estado, que comumente se supõe masculina. No plural, ele se estilhaça em fragmentos múltiplos, equivalente a “influências” difusas e periféricas, em que as mulheres tem sua grande parcela. Se elas não tem o poder, as mulheres tem, diz-se, poderes. “ (PERROT, p. 177)

        Perrot, portanto, não desenvolve em seus artigos uma visão somente das mulheres enquanto rainhas do lar, mas sim rainhas da noite, a mulher popular, rebelde, um risco para a masculinidade. Perrot narra, no capítulo 7, que a “exclusão feminina é ainda mais forte. Quantitativamente escasso, o texto feminino é estritamente especificado: livros de cozinha, manuais de pedagogia” são formas de controle e poder. É uma das partes mais encantadoras do livro quando ela nos apresenta de forma tão clara e concisa como a mulher transgrediu esses padrões até o momento impostos e passado a uma posição mais emancipadora. São questões que vão desde “o dono de casa”, posição masculina do espaço doméstico, até a questão administrativa do salário.
        A terceira e última parte do livro é apresentada reflexões acerca dos PRISIONEIROS e o sistema penitenciário, espaço construído e reproduzido para somente punir os detentos e delinquentes. Porém, ao tempo que Perrot expõe a situação dos prisioneiros no período do século XIX e das Belle Époque, da França, as coisas aparecem mais atuais do que nunca. Nada de muito novo há.

É um livro excelente não só para os pesquisadores de História, mas também para os cientistas sociais ou até mesmo graduandos de outras áreas que queiram ler mais a respeito da trajetória dos operários, das mulheres e dos prisioneiros.

Felizmente a Editora Paz e Terra reeditou a coletânea de artigos da obra que apresentou a acadêmica ao Brasil. Com introdução de Maria Stella Martins Bresciani, o livro é uma rica fonte de pesquisa neste tempo no qual a discussão sobre gênero, trabalhadores e seus direitos (vide a discussão acerca da reforma da CLT no Brasil) e os debates sobre o sistema carcerário nunca foram deixados de lado por serem tão atuais. São de fato os excluídos da História que ocupam aqui o lugar preponderante de discussão teórica politizada.


Sobre a autora:
Michelle Perrot, nascida em França em 1928 é professora emérita de História Contemporânea na Universidade Paris-VII e, a mais ilustre historiadora da vida das mulheres, sendo co-autora de uma monumental História das Mulheres no Ocidente, de parceria com Georges Duby – obra em cinco volumes, já editada em diversas línguas, incluindo o português.
O percurso de Michelle Perrot na trilha da História das Mulheres, segundo depoimentos de suas alunas, hoje professoras e pesquisadoras,2 parece ter começado em 1973, quando, doutora em História, docente na Paris VII - Denis Diderot, ministrou um curso chamado "As mulheres têm uma História?", no qual apresentava temas possíveis de pesquisa para os trabalhos de conclusão de curso dos/as estudantes. Esse curso e os trabalhos dele resultantes proporcionaram material para a publicação da coletânea Une histoire de femmes, est-elle possible?, publicado, na França, em 1984, pela Rivages. Tal percurso de pesquisa levaria Michelle Perrot a tornar-se conhecida internacionalmente, não somente por seus trabalhos, mas, também, pelas/os estudantes que orientou em suas teses de doutorado. Muitos desses trabalhos orientados tornaram-se livros, os quais contam, muitas vezes, com prefácios e apresentações escritos por ela, fazendo periodicamente um balanço das pesquisas na área.

 REFERÊNCIAS:

PERROT, Michelle. O excluídos da história: operários, mulheres e prisioneiros. Tradução de Denise Bottmann. 7ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2007

domingo, 4 de junho de 2017

ANITA: UMA VIDA PELOS OLHOS DE OUTRO





          SINOPSE: "Neste romance repleto de beleza literária e cores realistas, tão chocante quanto maravilhoso, tão particular quanto universal, Thales Guaracy olha Anita pelos olhos de Giuseppe Garibaldi, a única pessoa que testemunhou por completo a vida da revolucionária. E, assim, desvenda e nos apresenta, com estilo único, pessoal e emocionante,a mulher que se atira sozinha sobre o exército inimigo; que corta os cabelos do marido por ciúme e o ameça com um par de pistolas; que abandona os próprios filhos entre os desconhecidos para atravessar um país conflagrado, escondida sob as cartas de um carro de correio, até uma cidade sitiada. E que aprendeu que "as causas perdidas são as mais certas", tornando-se uma das mais extraordinárias personagens da história, considerada " a heroína de dois mundos", a precursora e símbolo do feminismo, representação de mulher forte e independente. Ovacionada nas ruas pelo povo, ou no teatro pela fina flor da sociedade italiana; de arma em punho, ou prisioneira de guerra, grávida, febril e exangue, mas ainda altiva, Anita Garibaldi é sempre Anita: mãe, amante, revolucionária. A mulher que levou às últimas consequências o sentido do amor, do heroísmo e da própria vida."



        Neste romance, o jornalista Thales Guaracy revela informações sobre o casal de revolucionários Giuseppe e Anita Garibaldi. Através das memórias do homem podemos pincelar um retrato de quem foi a mulher, seus anseios, suas vontades, sua personalidade e importância para o movimento revolucionário.
     Neste romance, o jornalista Thales Guaracy revela informações sobre o casal de revolucionários Giuseppe e Anita Garibaldi. Através das memórias do homem podemos pincelar um retrato de quem foi a mulher, seus anseios, suas vontades, sua personalidade e importância para o movimento revolucionário.
     Nascida Ana Maria de Jesus Ribeiro, Anita assumiu o nome diferente no momento em que conheceu Giuseppe. Ansiosa por liberdade e independência via no nome um marco para a nova vida, como se estivesse adormecida, a espera do verdadeiro nome para despertar. Anita seguiu Giuseppe desde o primeiro momento. Para ela não existia diferença entre homem e mulher, na vida e na guerra todos eram iguais. Embora tenha sido educada para a vida doméstica, Anita sempre demonstrou pouco apreço por isso. Enquanto esposa e mãe, era perfeitamente capaz e sabia cumprir ambas as funções. Entretanto só era plena quando estava no combate, não era pessoa que se contentava em ser coadjuvante na história. Dizia que "para ser feliz é preciso ter liberdade; para ter liberdade, é preciso lutar"(p.50)
    Enquanto companheira de Giuseppe, o que mais chama atenção e causa admiração no relacionamento de ambos é a cumplicidade do casal. No amor e na guerra se tratavam como iguais e tinham muito respeito e admiração pelo outro. Anita era sonhadora e tinha ideias de justiça tanto quanto ele. Na presença dela e por causa dela, ele ganhava confiança e crescia. Nos momentos difíceis, Anita conseguia dar ânimo às tropas. 

      Se você gosta de história, vai ter grata surpresa com este livro. Acompanhamos de perto Giuseppe nos conflitos dos quais participou: desde à Revolução Farroupilha à Guerra da Independência Italiana. Ponto positivo para Guaracy que, embora tenha proposto um romance para falar sobre Anita, nos mostra em sua narrativa as aventuras e desventuras de Giuseppe. Dessa forma o romance não é apenas sobre ela, mas sobre ele também, tratados ora em suas individualidades, ora como uma unidade, casal pleno e forte.



Sobre o autor: nascido em 1964 no bairro da Liberdade, em São Paulo, é escritor, jornalista e editor. Trabalhou como repórter em jornais como Gazeta Mercantil e O Estado de São Paulo, além da revista  Exame. Foi repórter especial e editor de assuntos nacionais na Veja, participou ativamente do período de transição da ditadura militar para o regime democrático, ganhando um prêmio Esso de jornalismo político em 1989, pelo trabalho de sua equipe na cobertura da primeira eleição direta para a presidência do Brasil em 30 anos. 

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