
Organizador: Braulio Tavares
Ilustrador: Romero Cavalcanti
Ano de Lançamento: 2011
Número de Páginas: 156
ISBN: 9788577342037
Quando uma
editora, ou melhor, um autor resolve selecionar ou listar algo, seja lá o que
for, corre-se o sério risco de excluir algum escritor renomado ou incluir um
sem prestígio. No entanto, não é o que acontece com a seleção de contos feita por Bráulio Tavares para o livro “Páginas do Futuro”, lançado recentemente pela Editora Casa da Palavra.
Primeiramente é
importante saber que o organizador, Bráulio Tavares, é uma autoridade no assunto
quando se fala em Ficção Científica (FC). O mesmo já ganhou o famoso premio “Caminho
da Ficção Científica” pelo livro “A espinha dorsal da memória”, de 1989.
Há no livro 12 contos de autores brasileiros. E aqui vale destacar em letras garrafais: OS
CONTOS FAZEM JUS AO NOME DO LIVRO E AO GÊNERO FICÇÃO CIENTÍFICA. Pois engana-se
quem pensa que o Brasil não possui autores, e bons, da FC. Tome-se por exemplo
a genialidade da conhecida dama da literatura nordestina, Rachel de Queiroz, a
primeira da seleção de contos. A escritora, que até então eu não sabia da existência
de ficção científica em sua obra, nos surpreende de cara com a história dramática
e engraçada de “Ma- Hôre”. O personagem, um homúnculo, entra em uma nave terráquea acidentalmente, fazendo do conto uma denúncia da estranheza do ser humano da Terra.
Rachel é uma das únicas duas mulheres que fazem
parte da seleção. Se o conto dela caminha numa narrativa rápida e lembra os
monstrinhos das histórias de A.E. Van Vogh, o da escritora Finísia Fidele é
lento, mas foi pra mim um dos melhores, pois o “Exercícios de silêncio” fala ao
coração do Homem moderno, que já em meio a inúmeras máquinas dificilmente consegue
um equilíbrio interior por meio do silêncio. E é disso que o conto trata: o
contato e o impacto de indivíduos de cultura, mentalidade e mundos diferentes. Na narrativa, o protagonista Theo, depois de ter a nave quebrada, aterriza num planeta diferente onde ao invés de tecnologia, a civilização low tech cultiva a meditação transcendental e é por meio desta que Theo irá consertar sua nave .
Outro
autor clássico e bem conhecido dos estudantes de literatura do nosso país é
Joaquim Manoel de Macedo, autor do famoso “A Moreninha”.
Mas bem diferente deste romance, o autor nos presenteia com o conto “O Fim do
mundo”, um dos contos mais antigos da FC brasileira (1857). A história tem um
ambiente bem semelhante com o que passamos em pleno 2012, onde falsas profecias
anunciam o fim dos tempos. De forma sarcástica e engraçada, Macedo, de forma
teatral, vai tecendo um futurismo com comentários acerca da vida dos leitores,
tornando o conto atual e conveniente.
O
conto “Veja seu futuro”, de Ataíde Tartari, é ilusionista. O narrador, que
inicialmente possui apenas 17 anos acredita cegamente na existência de uma máquina
que prevê o futuro. Já dar para você ter uma ideia da frustração do personagem...
Quem
rouba o espaço do livro é Rubem Fonseca! Um dos contos mais inteligentes da
seleção, o conto “O Quarto Selo” guarda em si características da Distopia e
High Tech, além de trazer uma forte aproximação com o romance policial. Ambientado
em um Rio de Janeiro cheio de policiais corruptos, esquadrões, ladrões, espiões,
o conto ainda traz uma trama bem sagaz, prendendo a atenção do leitor para uma
sociedade fictícia onde possui sigla para quase tudo.
Fábio
Fernandes é mais detalhista no conto “Uma breve história da maquinidade”, onde
em determinados trechos chega a ser enfadonho as suas descrições históricas. Mas
mesmo assim não deixa de ser atraente.
O
conto “Vanessa Von Chrisler” é intrigante! O escritor Fausto Fawcett nos brinda,
causa impacto e estranheza com a tirolesa visigótica Vanessa Von Chrisler, que
depois de muito tempo congelada desperta de seu antiquário e sai porrando tudo.
Acompanhamos também a sua relação sentimental com o seu dono: Bruno.
Outro
conto que causa estranheza e incômodo no leitor é “Do outro lado da janela”. O
que o autor André Carneiro faz é mais audacioso que o anterior, pois ele
transforma uma mancha da televisão na perturbação do seu telespectador.
"Déjà-Vu",
de Luiz Bras reverte o tempo, confunde o leitor e exige atenção. O tema central
é uma máquina do tempo e dessa forma o autor brinca com a estrutura narrativa. É
o único conto do livro que você pode ler de duas formas: do primeiro ao último
capítulo ou do último para o primeiro.
“O
copo de cristal”, de Jerônimo Monteiro, é o conto mais longo do livro e apesar
da simplicidade do tema, é complexa a situação do protagonista. O escritor faz
de um copo o elemento principal, pois ele serve como refletor e criador de
imagens como se fosse um telão que aguça a curiosidade do seu dono.
O
último conto do livro “15 minutos” de Ademir Assunção, parece cinematográfico:
diálogos curtos e concisão na escrita.
O livro “Páginas do Futuro” comprova a existência de bons autores nacionais da
Ficção Científica, que influenciados por autores renomados como Philip K. Dick,
Júlio Verne, Frank Miller ou Allan Moore, dão uma “roupagem” brasileira aos
seres e ambientes de suas histórias. Em “Páginas do Futuro” encontramos mundo
cybernéticos, alienígenas, naves espaciais, vida inteligente em outros
planetas, outras dimensões, distopia, High Tech e outros elementos que vão nos
prendendo a cada conto lido com as belas ilustrações de Romero Cavalcanti.
SOBRE O ORGANIZADOR: Bráulio Tavares nasceu em 1950.
É escritor, poeta,
compositor (tem cerca de 20 músicas em parceria com Lenine, por exemplo),
cronista e organizador de antologias. Entre elas, Páginas de Sombra (Contos
Fantásticos Brasileiros), Contos Fantásticos no Labirinto de Borges, Freud e O
Estranho (Contos Fantásticos do Inconsciente) e Contos Obscuros de Edgard Allan
Poe. É autor dos livros A Espinha Dorsal da Memória (1989), A Máquina Voadora
(1994), Mundo Fantasmo (1996) e ABC de Ariano Suassuna (2007), entre outros.
Escreve crônicas diárias para o Jornal da Paraíba, transcritas em seu blog
Mundo Fantasmo mundofantasmo.blogspot.com.