terça-feira, 31 de outubro de 2017

O empoderamento feminino de A casa das Sete Mulheres

Comecemos esta discussão acerca da classificação. Faz-se necessário enquadrar este livro em um romance histórico? Biografia? Ficção histórica? Qual a melhor categorização?

A ficha catalográfica da presente edição aponta-o como Ficção Brasileira. E só. Não contentes, com isso, faz-se oportuno informar, embora seja desnecessário, que o livro inspira-se na Revolução Farroupilha, para compor o quadro de personagens que apresentam como plano de fundo a História que mudou a vida de muita gente que morava nos pampas do Sul. O presente romance foi escrito por uma genuína gaúcha, a Letícia Wierzchowski e teve repercussão imediata, sendo adaptada com sucesso para a TV em 2003 e com direitos autorais vendidos para diversos países do mundo.

Tem uma frase do romance que simboliza bem esse aglomerado de acontecimentos que levaram a mortes de vidas e sonhos:

"Do mesmo sonho que se vivia, também se podia morrer" (pág. 11)

O romance A casa das sete mulheres começa a narrar desde 1835, o ano novo no qual Manuela, a narradora da história, inicia a escrever seu diário que teremos conhecimento na íntegra. No festejar das comemorações do ano que estava por vir, 1835, Manuela, a jovem de sensibilidade aguçada, vê nos céus uma estrela de fogo, que ela interpreta como sangue e morte nas terras gaúchas. No contexto nacional, a monarquia era governada pelo infante Dom Pedro II, que incapaz de governar todo o país, não demonstrou interesse nem importância para a região sul. Com o aumento de impostos e os inúmeros descontentamentos, não demora até que a ecloda a Revolução Farroupilha, anunciada pelos tradicionais rádios da época à família de Bento.
Bento Gonçalves decide, então, proteger as mulheres de sua família numa Estância da Barra, à beira do Rio Camaquã até que a guerra passe. Junto às mulheres, Bento também isola os quatro filhos pequenos da família.
São pelos cadernos de Manuela que saberemos os sentimentos e acontecimentos que motivaram toda a família de Bento Gonçalves da Silva (líder do exército Farroupilha da província). Temos a perspectiva de Manuela porque ela se envolve com o famoso personagem histórico italiano Giuseppe Garibaldi, romance que de fato ocorreu e foi importante para o desenvolvimento da história que se conta.
            No entanto, o tempo passa e a guerra não finda. E vamos acompanhar o ritmo da guerra pelos cadernos de Emanuela, assim como vemos a vida sua e das outras seis mulheres tomarem rumos diferentes para sempre. Essas sete mulheres das quais o título se refere são Ana Joaquina, Maria Manuela (irmãs de Bento Gonçalves, sendo a primeira a dona da estância e a última, viúva de Anselmo); Caetana (esposa de Bento); Perpétua (filha de Caetana e Bento) e as primas Rosário, Mariana e Manuela (filhas de Maria Manuela).
            Além dessas mulheres, há ainda a irmã do general, Antônia, que vizinha à Estância da Barra, está sempre presente nos acontecimentos que se passa na casa de Bento Gonçalves. Ambas as irmãs de Bento sofrem por esperar seus maridos, filhos e parentes que estavam na guerra e fizeram esforços para que as mulheres da casa tivessem um pouco de sanidade mental.
É do ponto de Manuela, a sensível jovem, que teremos mais posse de informações acerca dos acontecimentos que se arrastam mais do que deveria, deixando a família aflita e angustiada com a demora dos que foram à guerra e dos que ficaram esperando. Depois da partida dos homens para a guerra (que dura 10 anos), drama não falta às mulheres que ficaram reclusas na recôndita fazenda. Na ânsia de vê-los de volta, as mulheres se valem de frequentes novenas, orações, preces que elevam aos céus em busca de salvação para os seus que naquele momento estão em derramamento de sangue pela pátria gaúcha.
As atitudes de Caetana, a matriarca da família, a general que mostra como suas preocupações refletiam sempre o bem-estar da família, mantendo a sanidade mesmo nos dias mais aflitos. Caetana agia como conselheira, esposa, mãe, amiga e irmã de todos, fiel ao esposo Bento Gonçalves, devota-lhe um amor exemplar mesmo em meio aos abalos da guerra e distante do marido durante anos. Já Maria Manuela, irmã de Bento, é reservada e completamente amarga.
A cada batalha, as correspondências entre os membros da família contam os números de mortos, as mortes de outros amigos, mostrando o drama de mulheres que se veem impossibilitadas de realizar algo: são agonizantes noites na Estância, orações infinitas e romances impossíveis. É a partir de então que constatamos que as perdas e os dramas não são apenas relacionados à guerra. Uma guerra que, tristemente, arrancou a vida de gente inocente e abalou a fé de outro tantos, uma vez que as vigílias de oração em prol do cessar da guerra eram constantes. É, sobretudo, a saudade dos familiares que sofrem os que ficam, uma vez que as notícias que chegam até elas são escassas e a preocupação não para. À medida que o tempo passa, a fé diminui e o fim da guerra se parece cada vez mais distante.
Mas é um romance que também mostra como as mulheres são empoderadas e podem interferir no rumo das coisas. Caetana, mulher de Bento, é um exemplo de matriarca que sabe diligentemente gerir a casa das sete mulheres. Apesar de narrar os dez anos da Revolução Farroupilha, a mais longa guerra civil do continente, vemos tudo pelo ponto de vista feminino. E isso importa porque diferente de outros romances, nos quais se tem a visão preponderante masculina, aqui é a ótica e os dramas das parentas de Bento Gonçalves que irá prevalecer.
Entre as mulheres da casa, Manuela é uma das mais cativantes. Desde cedo, ela foi prometida aos 15 anos ao filho de Bento Gonçalves, o seu primo Joaquim. No entanto, ela se apaixona perdidamente por Giuseppe Garibaldi. O italiano, como se sabe, divide seu amor com Anitta Garibaldi. Embora a personagem Anita apareça pouco na narrativa, ela ganha destaque pela bravura, valentia e ousadia em seguir seu companheiro na batalha. Garibaldi era um italiano andante e acostumado com batalhas. Veio ao Rio Grande do Sul objetivando motivar as batalhas, seja na construção de navegações, seja nas próprias batalhas. Numa dessas paragens, Garibaldi vai até a Estância de seu amigo, Bento. É nessas visitas que a bela Manuela se apaixona por ele. Ao partir, ela promete espera-lo. O sofrimento de Manuela é o mais empático, pois seu amor por Garibaldi se vê ameaçado quando este encontra sua amada Anita.
As outras meninas, Manuela, Mariana e Rosário, assim como Perpétua, desde jovens, tiveram que amadurecer muito rápido, diante das mudanças. Ambas abdicaram de festas, distanciadas de serem cortejadas, foram isoladas, sofrendo e aprendendo a lidar com as perdas. Sem dúvida, os encontros e amor de Rosário e Steban é algo que sai um pouco do drama da guerra e ajuda a intercalar as narrativas de guerra com a perspectiva do romance.
Letícia Wierzchowski construiu personagens principais e terciários de modo muito bem e mesmo aqueles que não são tão importantes para a trama, como soldados, por exemplo, ganham “almas” de personagem efetivos.
A escritora ainda escreveu mais dois livros contando a saga da família de Bento Gonçalves, transformando A casa das sete mulheres numa trilogia que segue com Um farol no pampa e Travessia, nos quais ambos se propõem a contar os desdobramentos de outros personagens, como a história de amor de Garibaldi e Anita, por exemplo. Enfim, o romance, como um todo, mostra o domínio de ações advindos de atitudes das mulheres, pois são elas as protagonistas desse livro de 461 páginas que nos imerge em guerras, conflitos familiares, amores e muita dor.
A nova edição de A casa das sete mulheres segue o mesmo padrão dos demais títulos. Tem ilustrações de Chico Baldini, que lindamente, combina com as capas. A única coisa que sinto falta nessas edições é de um prefácio crítico, pois ainda que a autora traga algumas informações no prólogo, edições como estas, certamente, ficariam mais ricas com algum prefácio. Todos os livros da série estão foram editados pela Bertrand Brasil, que fez um excelente trabalho de edição e revisão.



SOBRE A AUTORA:

Leticia Wierzchowski nasceu em Porto Alegre, RS, em1972, e estreou na literatura em 1998 com o romance O anjo e o resto de nós. A autora é considerada uma das maiores revelações da literatura nacional do início do século XXI. Uma das raras escritoras a perceber e a traduzir, em palavras, a personalidade, o sentido e o poder de ação de personagens e cenários brasileiros. Em 2003 o romance A casa das sete mulheres foi adaptado pela Rede Globo em uma série de 50 capítulos. Desde então, a produção televisiva já foi veiculada em quase 30 países, e a obra de Leticia ganhou caminhos internacionais. Ela tem livros editados na Espanha, Portugal, Grécia, Itália e Sérvia-Montenegro.

CURIOSIDADES:

  • O livro Garibaldi e Manoela:uma história de amor conta mais, de forma resumida, a história de amor do casal protagonista.
  • Na minissérie da TV Globo, Manuela foi interpretada lindamente por Camila Morgado.
  • Abertura da minissérie inspirada no livro pode ser vista aqui.
  • Aqui você confere uma entrevista com a autora .

FONTES E REFERÊNCIAS:

·         Editora Record        Skoob /         Editora Intrínseca 

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Ternura e violência tinturam o romance histórico Um conto de duas cidades, de Chalres Dickens





 “Aquele foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos; aquela foi a idade da sabedoria, foi a idade da insensatez, foi a época da crença, foi a época da descrença, foi a estação da Luz, a estação das Trevas...”. 


É assim que Dickens imprime em Um conto de duas cidades (Tradução de Débora Landsberg. 3 ed. São Paulo: Estação Liberdade, 2016) constantemente o uso de expressões como “tempos”, “época”, “idade” e “estação” para reforçar o caráter histórico da obra, pois além de apresentar um período no qual os oprimidos eram forçados a viver em condições precárias, também mostra a ternura e violência das facetas humanas representadas nas personagens que ora são ícones de uma época, ora são idealizações universais de cidadania e lealdade.
Lançada em 1859, não muito tempo passado a Revolução da França, a obra é inspirada no livro História da Revolução Francesa, do historiador Thomas Carlyle, publicado em 1837. Daí, então, inúmeras personagens (que não são poucas, uma vez que Dickens faz desfilar diante do leitor uma enorme quantidade delas) transitarem entre espaços londrinos e parisienses, fazendo-nos reformular “nossa geografia psicológica”, como bem diz Virginia Wool ao comentar a obra-prima do autor, David Copperfield. Um conto de duas cidades é, portanto, uma obra diferente das demais escritas pelo autor, que cultivara até então um gênero de aventuras e romances regados a muito humor. Não que este último não exista nesta obra, mas percebemo-lo de como sutil, como um elemento desnecessário para um drama denso e pesado que é a história de Dr. Manette e sua filha, contada desde os tempos finais de uma revolução americana até o terror implantado na França pós-revolução.


            Em 476 páginas, a obra divide-se em três partes que comungam entre si, conectando os espaços, os acontecimentos históricos das duas cidades (por isso o título do livro) e a relação das personagens que, à maneira de um puzzle, estão imbrincadas nos mesmos conflitos.
Dr Manette e Lucie com Charles Darnay
A aventura começa quando Lorry e Lucie, a filha que não acreditava ter o pai ainda vivo, vai buscá-lo numa espécie de refúgio da casa da família Defarge, membros que lideraram a Revolução e viviam no subúrbio e revolucionário Saint Antoine. Dr. Alexandre Manette, preso injustamente na Bastilha por 18 anos, virara sapateiro e carregará por muito tempo o trauma da prisão. A partir dessa “volta à vida”, muitos conflitos surgem. Do lado inglês, a família de Manette tenta se reestabelecer do trauma da prisão do patriarca e os amigos Charles Darnay e Sidney Carton disputam o amor de Lucie; Do lado francês, as Jacquerie e seus sentimentos de vingança derrubam tronos e castelos dos aristocratas. Com a eminente revolução, crescem os casos de julgamento e morte por traição, tanto em terras londrinas, quanto em Paris. Por motivos de lealdade, logo após o casamento, o marido de Lucie, Charles Darnay, é convocado por meio de uma carta a voltar à Paris. Lá, ele é preso, condenado por traição à pátria, obrigando toda a família de Manette a voltar mais uma vez à França para resgatá-lo, suportando julgamentos e conflitos pessoais que envolvem até sósias.
No entanto, Dickens não concentra sua narrativa em pessoas reais ou históricas. Nomes como Luiz XVI, Robespierre, Marat ou Danton jamais são citadas, nem referenciadas. A Guillotine é a única personagem histórica que ganha vida ao levar à morte os condenados. Na obra, o autor opta por tratar esses conflitos individuais e familiares, deixando a revolução como pano de fundo para o desenvolvimento da trama. Dickens narra as prisões, julgamentos, condenações, violência, miséria e tortura, eventos corriqueiros que aconteciam concomitante à Revolução, que pregava por “Igualdade, Liberdade e Fraternidade”, ou “Morte”, como ele acrescenta.
Outros acontecimentos históricos são usados como artifícios para justificar atos de personagens, como a data do decreto que torna criminoso os emigrantes na França, motivo pelo qual justamente Darnay é preso; ou ainda as insurreições advindas de bairros que nas tavernas planejavam as mortes e rebeliões.
            Um conto de duas cidades é leitura incontornável para quem pretende perceber os desdobramentos históricos tratados em uma narrativa cheia de voltas e revoltas. Mas não somente por isso, mas, sobretudo, para olhar o ponto de vista dos oprimidos, dos revoltados, das minorias e populares que, em meio à miséria, buscaram na insurreição uma forma de mudar o rumo da História.


SOBRE O AUTOR:Nascido em 1812 nas cercanias de Portsmouth, Inglaterra, Charles Dickens foi o segundo filho de John Dickens e Elizabeth Dickens. John Dickens, funcionário da superintendência da Marinha, esteve diversas vezes às voltas com agudos problemas financeiros. Isso acabou por levá-lo ao cárcere em 1824, ano em que o pré-adolescente Charles passa a trabalhar em uma fábrica de graxa para ajudar a família. A partir de 1832 trabalha como repórter no Morning Chronicle. Nessa época passa a publicar crônicas bem-humoradas sob o pseudônimo “Boz”. Em 1836 assume o cargo de editor da Bentley’sMiscellany. Entre 1936 e 1937 é publicado seu primeiro romance de destaque, As aventuras do Sr. Pickwick. Entrega-se com vigor à produção literária e já em 1843 obteria um estrondoso sucesso com A Christmas Carol (Um Conto de Natal). Sua existência fremente, atribulada por casos de amor e adultério, contendas intelectuais e trabalho extenuante — além do trabalho literário e jornalístico, entregava-se com muita frequência, contra os conselhos médicos, a longas leituras públicas de suas obras — terminou por levá-lo a uma sequência de derrames cerebrais, que causariam sua morte, em julho de 1870. 

 
  Curiosidades e outras Informações:
 
  •  Um Conto de Duas Cidades foi publicado pela primeira vez em fascículos, no Al the Year Round, de 30 de abril a 26 de novembro de 1859, e em oito partes mensais de junho a dezembro do mesmo ano. O romance apareceu sob a forma de volume em novembro de 1859.
  • O personagem Sidney Carton é um dos maiores ícones da literatura inglesa; é a primeira vez que é usado o nome de batismo de Carton. O manuscrito do romance mostra que a primeira escolha de Dickens quanto a esse nome foi Dick (ele não se decidiu por Sydney senão por volta da metade do presente capítulo, e então voltou atrás em seu manuscrito e alterou o nome). A escolha de Dick quase certamente reflete o nome do personagem caracterizado por Dickens em The Frozen Deep, Richard Wardour, mas também teria enfatizado o paralelo entre Charles Darnay e Dick Carton, dando-lhes iniciais invertidas. O nome Sydney origina-se de um tal de Algernon Sy dney (1622-83), que foi julgado perante o juiz Jeffrey s, acusado de cumplicidade no complô de Ry e House, sendo julgado culpado e executado.
  • The French Revolution: A History, de Thomas Carlyle (1795-1881), livro que serviu de inspiração para Dickens,  foi publicado pela primeira vez em três volumes em 1837. Na época da redação de seu romance, Dickens tinha em sua biblioteca a edição de dois volumes da narrativa de Carly le, publicada por Chapman and Hall em 1857.
  • O manuscrito de Um Conto de Duas Cidades, preservado na Coleção Forster, no Museu Vitória e Alberto, revela que Dickens inicialmente pretendia que madame Defarge fosse uma “pequena mulher” absorvida em seu trabalho de costura. Ele apagou o parágrafo original e substituiu-o pela versão atual, na qual nós podemos vê-la tricotando. Essa mudança foi sem dúvida sugerida por uma lembrança das famosas tricoteuses, as patrióticas tricoteiras de Paris, que aparecem com destaque em The French Revolution, de Carlyle.
  • Muitos dos lugares descritos por Dickens ainda existe; 
  • A personagem "Vingança": o uso de conceitos políticos ou morais como nomes pessoais não era incomum durante a Revolução. O exemplo mais notório é o do outrora duque de Orleans, que escolheu o nome de Philippe Égalité (“Felipe Igualdade”).
  • O livro tem várias adaptações para o cinema, dentre elas  a de 1935, 1958 e 1980.


Fontes:
Estação Liberdade / Edição da Editora Nova Cultural /  Site Charles Dickens

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

[Cartas Famosas] Para Scottie, de F. Scott Fitzgerald


Ainda no mês das crianças, não poderíamos esquecer de postar mais uma edição do Projeto Cartas Famosas. Desta vez, trazemos a carta do famoso escritor americano F. Scott Fitzgerald, autor de o clássico O Grande Gatsby ou ainda o conto O curioso caso de Benjamin Button. É uma carta linda, sublime e meiga. Talvez os conselhos que todos os filhos, crianças ou não, deveriam seguir. 


Carta para a Filha 

Scott Fitzgerald



Querida filha:

Preocupo-me muito com suas obrigações. Mostre-me alguma prova das suas leituras em francês. Estou satisfeito por você estar feliz, mas não acredito muito em felicidade. Tampouco acredito em tristeza. São coisas que vemos no teatro, no cinema ou nos livros; essas coisas não nos acontecem na vida real.

Tudo em que acredito na vida são as recompensas à virtude (de acordo com os talentos de cada um) e os castigos por deixar de cumprir com as obrigações, que custam o dobro. Se existisse na biblioteca da colônia de férias um livro assim, você iria pedir à Sra. Tyson que lhe mostrasse um soneto de Shakespeare onde aparece esse verso: Lírios apodrecidos têm cheiro pior do que o das ervas daninhas.

Sem pensamentos hoje, a vida parece o simples relato de um caso publicado no Saturday Evening Post. Penso em você, e sempre de forma agradável: mas se me chamar de "Pappy" outra vez, vou levar o Gato Branco para fora e dar-lhe uma boa surra, seis palmadas para cada vez que você for impertinente. Alguma reação quanto a isso? Vou preparar a lista de comportamento na colônia. Tolices, concluirei. 


Coisas que merecem atenção:
Cuide da coragem
Cuide da higiene
Cuide da eficiência
Cuide da equitação . . .


Coisas que não merecem atenção:

Não ligue para a opinião dos outros
Não ligue para bonecas
Não se preocupe com o passado
Não se preocupe com o futuro
Não se preocupe com o seu crescimento
Não se preocupe se alguém passar à sua frente
Não pense em triunfar
Não pense no fracasso, exceto se for por sua culpa
Não ligue para os mosquitos
Não ligue para as moscas
Não ligue para os insetos em geral
Não se preocupe com os pais
Não se preocupe com os meninos
Não se preocupe com as decepções
Não se preocupe com os prazeres
Não se preocupe com as satisfações
Coisas para pensar:
Qual é o meu objetivo verdadeiro?
Como me classifico em comparação às meninas da minha idade quanto a:
a) Meu desempenho na escola?
b) Compreender realmente as pessoas e ser capaz de me relacionar bem com
c) Estar fazendo do meu corpo um instrumento útil ou negligenciando este aspecto?



Com amor e carinho.

(RS)

__________________________


Sobre o autor da carta:


Francis Scott Key Fitzgerald (1896-1940) estreou na literatura em 1920 com o romance Este lado do paraíso e publicou, entre outros, O grande Gatsby (publicado pela Penguin/Companhia das Letras), Suave é a noite e All The Sad Young Men. Postumamente foram publicados o romance inacabado O último magnata e The Crack-up (1945), uma seleção de ensaios, notas e cartas editada por Edmund Wilson. Os problemas com o alcoolismo e a degeneração mental de Zelda, sua mulher, mais tarde o afastariam da literatura. Estava quase esquecido, trabalhando em Hollywood, quando sofreu um ataque cardíaco fatal em casa, em Los Angeles.



 
CURIOSIDADES:
  • A carta na língua original pode ser lida aqui.
 

FONTE:


  • BENNET, William. O livro das virtudes. Selecionados e adaptados da ed. americana por] Luiz Raul Machado. - Rio de Janeiro: Nova Fronteira,1995 (p. 163-164)
  • LP&M Editora Nova Fronteira

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