segunda-feira, 1 de agosto de 2016

O Destino da Vida é Poesia

Conhecidíssimo no mercado editorial por organizar as excelentes antologias "Os cem melhores contos brasileiros do século" e "Os cem melhores poemas brasileiros do século", Ítalo Moriconi reserva seu talento nesta mais nova edição de Destino: Poesia (Editora José Olympio, Org. Italo Moriconi, 2ª ed., 2016,160 páginas, R$ 39,90).
 Mas, ironicamente, a edição do livro traz dados dos autores, mas não traz nenhum dado sobre o organizador que aqui faz um trabalho de garimpeiro. Aqui ele fica em segundo plano.


Os poetas dessa antologia são Ana Cristina Cesar, Cacaso, Paulo Lemiski, Torquato Neto e Waly Salomão, ambos pertencentes a uma geração de poetas que propunham a liberdade poética. Pertencentes à geração mimeógrafo, ele foram incluídos na denominada poesia marginal.

Para Mattoso, 

A palavra marginal, sozinha, não explica muito. Veio emprestada das ciências sociais, onde era apenas um termo técnico para especificar o indivíduo que vive entre duas culturas em conflito, ou que tendo-se libertado de uma cultura, não se integrou de todo em outra, ficando à margem das duas. [...] Marginal é simplesmente o adjetivo para qualificar o trabalho de determinados artistas, também chamados independentes ou alternativos. (MATTOSO, 1982, p 7 – 8)

Parece-nos estranho o nome dado ao grupo, mas é o mais conveniente, visto que os poetas dessa geração cultivaram este espírito libertário, sem regras para a poesia. O próprio organizador, em sua apresentação ao livro, afirma que "esses poetas não produziram uma poesia de angústia ou sofrimento. Muito pelo contrário - o leitor poderá constatar em cada página desta antologia que a poesia surgida dos anos 1970 tem mais a ver com euforia e celebração, às vezes ironia, frequentemente desencanto".

O organizador menciona o substantivo angústia pelo fato de todos eles terem vivido muito pouco e terem tido uma vida breve, eu diria brevíssima.
Mas vamos lá à obra.

O livro está dividido em 5 partes, uma dedicada a cada autor , com dados biográficos e poemas de ambos.
Importante notar que o organizador teve acesso a manuscritos dos autores por meio de seus detentores, como o Instituto Moreira Sales, Casa Rui Barbosa e os acervos da família dos escritores.
A primeira parte compõe-se de poemas de Ana Cristina Cesar. Poeta desde sempre, aos 7 anos Ana C. já estava no Suplemento Literário da "Tribuna da Imprensa". Sua poesia é calcada nessa linguagem livre, sem uma preocupação demasiada que atrofia a linguagem poética. Ana Cristina C. morreu em 1983. Sua poesia tem atraído inúmeros estudos e, mais recentemente, foi tema principal da FLIP 2016.
A exemplo disso temos o seguinte poema:

Vacilo da vocação

Precisaria trabalhar – afundar –– 
como você – saudades loucas –
nesta arte – ininterrupta –
de pintar –

A poesia não – telegráfica – ocasional –
me deixa sola – solta –
à mercê do impossível 
–– do real.

A segunda parte do livro apresenta uma degustação do poeta mineiro-carioca Antônio Carlos de Brito, conhecido como Cacaso.
Aqui já podemos perceber mais nitidamente as características daquilo que se dá à poesia marginal. Preenchido por lirismo puro, Cacaso cultivou o verso curto, curtinho, linguagem coloquial e abordou de forma irônica em sua obra temas que remetiam aos anos de chumbo.
Cabe aqui observar que todos esses poetas da antologia viveram na década de 70 e foram, portanto, contemporâneos do contexto histórico daquela época. 

LAR DOCE LAR
Minha pátria é minha infância
Por isso vivo no exílio.


REFLEXO CONDICIONADO

pense rápido:
Produto Interno Bruto
           ou
brutal produto interno
            ?

Paulo Leminski inicia a terceira parte do livro. Este que foi um dos mais populares e conhecido poetas do Brasil. Claramente de vanguarda,  Leminski foi inquieto e valorizou o verso livre e modernizou-o. Seus poemas são curtos, mas nem por isso vazios de lirismo. Ao contrário, eles transbordam subjetividade e reflexão acerca de temas que nos são comuns, ou, como diz bem a geração, temas marginais. Enquanto poeta concretista, Leminski também foi um apaixonado pela poesia visual (poesia imagística) e calcou sua poesia influenciada em Pound e Bashô, por exemplo.

Aviso aos náufragos

Esta página, por exemplo,
não nasceu para ser lida.
Nasceu para ser pálida, 

um mero plágio da Ilíada,
alguma coisa que cala,
folha que volta pro galho,
muito depois de caída.
Nasceu para ser praia,
quem sabe Andrômeda, Antártida
Himalaia, sílaba sentida,
nasceu para ser última
a que não nasceu ainda.
Palavras trazidas de longe
pelas águas do Nilo,
um dia, esta pagina, papiro,
vai ter que ser traduzida,
para o símbolo, para o sânscrito,
para todos os dialetos da Índia,
vai ter que dizer bom-dia
ao que só se diz ao pé do ouvido,
vai ter que ser a brusca pedra
onde alguém deixou cair o vidro.
Não e assim que é a vida?

Torquato Neto, que está nesta antologia, compôs junto com Gilberto Gil o clássico Marginália II. É um poeta que muito me atrai, não somente por sermos conterrâneos, mas pela atmosfera que sua poesia me passa. Anjo ambíguo, maldito e benfazejo nas palavras de Moriconi, Torquato influenciou o movimento Tropicalismo e dele fez parte como criador. O poeta contracultural deixou-nos uma poesia sensível, captadora de momentos íntimos.
Sua ligação com a música fez com que alguns de seus poemas fossem musicados, como o famoso "Go Back", pelos Titãs. O legado da MBP e do tropicalismo fizeram de Torquato Neto um ícone cultural do nosso tempo. Torquato escreveu por muito tempo a coluna Geleia Geral e fez também um poema homônimo. Um dos poemas mais conhecidos dele vai a seguir.

Cogito


eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível


eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora


eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim


eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.


Wali Salomão encerra a antologia. Anárquico, iconoclasta e fragmentário, Wali foi múltiplo. Fez parceria com Gil, Caetano e outros músicos. Adotou por algum tempo pseudônimo, sua poesia está profundamente ligada ao termo “desbunde”, próprio da época. Sua poesia foi transmutada no decorrer da passagem das idades do autor (ele morreu aos 59 anos, o mais longevo). Se ora a linguagem de sua poesia é crua como o da vanguarda contracultural, logo depois sua poesia faz referência aos versos livres modernista clássico. Em sua poesia vemos fortes ideologias e está mais viva do que nunca.

Hoje 

O que menos quero pro meu dia
polidez, boas maneiras.
Por certo,
um Professor de Etiquetas
não presenciou o ato em que fui concebido.
Quando nasci, nasci nu,
ignaro da colocação correta dos dois pontos,
do ponto e vírgula,
e, principalmente, das reticências.
(Como toda gente, aliás...)
Hoje só quero ritmo.
Ritmo no falado e no escrito.
Ritmo, veio-central da mina.
Ritmo, espinha-dorsal do corpo e da mente.
Ritmo na espiral da fala e do poema.
Não está prevista a emissão
de nenhuma “Ordem do dia”.
Está prescrito o protocolo da diplomacia.
AGITPROP – Agitação e propaganda:
Ritmo é o que mais quero pro meu dia-a-dia.
Ápice do ápice.

Alguém acha que ritmo jorra fácil,
pronto rebento do espontaneísmo?
Meu ritmo só é ritmo
quando temperado com ironia.
Respingos de modernidade tardia?
E os pingos d’água
dão saltos bruscos do cano da torneira
e
passam de um ritmo regular
para uma turbulência
aleatória.

Hoje..


Indicado para quem ama poesia, aos fãs de literatura beat, de poesia marginal, esta edição de Destino: Poesia precisa ser mais conhecido pelos estudantes de letras. A poesia marginal desempenhou um papel importante em nossa cultural. A José Olympio, que detém os direitos autorais dessa obra, imprimiu na capa um frenetismo peculiar do “desbunde”.
Com uma capa linda digna dos poetas da antologia, o mérito também deve ser dado ao seu organizador, Italo Moriconi. É um livro para ser lido em qualquer horário em local. A presença de dados biográficos de cada poeta, a apresentação feita pelo organizador e ainda as imagens dos manuscritos fazem deste livro um acontecimento.


Referências:
MATTOSO, Glauco. O que é poesia marginal. Brasiliense, 1982.
MORICONI, Italo. Destino: Poesia. 2 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2016


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