sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

[Resenha] Quando Lisboa tremeu - Domingos Amaral

Título: Quando Lisboa tremeu
Autor: Domingos Amaral
Editora: Casa da Palavra
ISBN: 9788577342075
Ano de lançamento no Brasil: 2011
Número de Páginas: 478
Onde encontrar: Casa da Palavra / Submarino / Livraria Saraiva / Livraria Cultura

Engana-se quem pensa que Portugal não exporta autores de alto escalão ou que não pese culturalmente na literatura contemporânea. O livro “Quando Lisboa tremeu” do autor Domingos Amaral, contraria isto e comprova ainda a existência de bons autores naquele país.

Certamente todos se lembram do terremoto que atingiu o Japão em 2011 e que assolou o país. Ou ainda quem não lembra do terremoto que atingiu o Haiti em 2010? Pois imaginem uma cidade sendo atingida por um tremor de terra com magnitude 9 na escala Richter, seguida de uma maré de mais de 20 metros invadindo as ruas e para agravar mais ainda, grandes incêndios...

Durante todo o tempo que li “Quando Lisboa tremeu” eu comparava, embora de forma atenuada, aos desastres naturais acontecidos recentemente nos países acima citados. A verdade é que o terremoto que atingiu Lisboa em 1755 foi muito mais grave, e é considerado um dos sismos mais mortíferos da História. De fato aconteceu um terremoto na pequena Lisboa daquele ano, mais precisamente no dia 1º de novembro, data em que a Igreja Católica celebra a festa de todos os santos. Irônico, não? Pois segundo os relatos, a maioria de todas as igrejas foram destruídas, enquanto lugares profanos foram poupados pela natureza e pela suscetibilidade daqueles dias...

A estória, que é contada pelo pirata Santamaría, narra os acontecimentos que mudaram a vida de 4 pessoas para sempre naquele dia trágico. E todo o livro gira em torno destes: o pirata Santamaria, a freira Irmã Margarida, um comerciante inglês – Hugh Gold e um menino de 12 anos. Embora cada um destes personagens, que foram muito bem desenvolvidos, tenham propósitos pessoais após o abalo, seus destinos estão entrelaçados de uma forma muito inesperada.
O pirata que usa o pseudônimo Santamaría, baseado no nome do seu barco que viria a ser pirateado pelo árabes, está preso antes do tremor de terra, e encontra-se numa briga com o seu rival espanhol.
A freira, presa por ser apontada pela Inquisição como possuída do demônio, encontra-se na cela com uma corda no pescoço prestes a cometer suicídio.
O comerciante inglês, que é importante destacar aqui, é um homem devasso, namorador e covarde, está em seu quarto analisando seu atual casamento e pensando em uma maneira de livrar-se da esposa.
O menino está na Igreja acompanhado da mãe para a missa esperando a sua irmã gêmea que ficou em casa com o padrasto que assedia mulheres, inclusive a própria garota.

Depois disso, tudo o que acontece, vai levar as quatro personagens a cruzarem um mesmo destino em meio à catástrofe. Pessoas, que aparentemente, não tem nada em comum, descobrem com o tempo que o passado pode resguardar segredos de ambos e que o futuro pode ser incerto para todos.

O livro é dividido em 4 partes fazendo uma clara referência aos elementos da natureza: Terra – Água – Fogo –Ar. Em cada uma delas, o autor descreve fatos que realmente aconteceram naquele dia: pilhagens, assassinatos, tentativas de assalto ao tesouro real, abuso de mulheres e moças indefesas, fugas de presos...

"Aqueles foram dias terríveis, dias em que perdemos os nossos gestos e pensamentos mais bondosos; dias em que o imperativo da sobrevivência e a presença constante do sofrimento e da morte nos alteravam, nos faziam praticar atos desagradáveis e até injustos ou criminosos, dias em que as regras se suspenderam e vieram à tona as vontades mais primitivas de cada um, o seu lado irracional (...)" (Pág. 104)

O autor brinca com os fatos, mistura muito bem os personagens históricos com os da ficção, pois no livro também pode-se encontrar o Sebastião José de Carvalho e Melo, o futuro marquês de Pombal e responsável pela reconstrução da cidade, o rei Dom José e outros personagens importantes da história portuguesa.

Narrado de forma peculiar e muito engraçada pelo pirata, os acontecimentos adquirem um humor sutil em determinadas situações e pode-se explicitamente perceber as criticas mordazes do autor à Igreja Católica, que atribuía o terremoto aos pecados cometidos pela sociedade lisboeta e que agora transformara-se na nova Sodoma.

É um livro que retrata muito bem o cotidiano dos portugueses, sua cultura, geografia da cidade, sua religião e principalmente o terror acontecido em 1755. Um romance de final inusitado, surpreendente e triste, claro. É também uma história de heroísmo para aqueles que conseguiram sobreviver a meio a tantas desgraças.
Estudantes da História e apreciadores de um excelente romance, eis uma obra que irá com certeza deixar você sem fôlego, pois os 49 capítulos não cansam, não enrolam. É muita ação,romance, cenas calientes e muita tragédia. Ponto para o autor que mesclou ficção e realidade muito bem! Ponto para a Editora Casa da Palavra que mudou a capa para uma mais agradável à versão portuguesa! E ponto para o leitor, que também ganha uma narrativa cheia de aventuras e dramas humanos.

SOBRE O AUTOR:
Domingos Freitas do Amaral, nascido em Portugal, formou-se em Economia pela Universidade Católica Portuguesa e fez mestrado em Relações Internacionais na Universidade de Columbia, em Nova York. Seguiu a carreira jornalística, trabalhando no jornal O Independente, e hoje é diretor da revista portuguesa GQ. É autor de cinco romances de sucesso pela Casa das Letras, em Portugal: Amor à primeira vista (1998), O fanático do sushi (2000), Os cavaleiros de São João Baptista (2004), Enquanto Salazar dormia (2006) e Já ninguém morre de amor (2008).

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