segunda-feira, 8 de agosto de 2016

De quando a narrativa deixa-nos órfãos


Quando uma história começa com alguma mudança de residência eu já sei o que poderá acontecer. O último exemplo disso foi com Distância de resgate. Afinal toda mudança demanda alterações na própria vida.




A narrativa de O fim da história (The end of the story, tradução de Julían Fuks, 1.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2016, 210 páginas, R$ 44,90) começa quando o personagem principal muda-se para um pequeno vilarejo, onde irá lecionar em uma universidade.  Concomitante a isto ela vai exercer a função de tradutora e continuar seu projeto de escrever o seu romance.

Entremeando o processo de escrita, os meandros da memória e o seu trabalho, vai surgindo uma narrativa no início um pouco confusa, mas coerente que capta a atenção do leitor nas linhas poéticas de uma escritora vencedora de prêmios e traça bem uma linha poética em sua narrativa.

A vida da narradora passa por mudanças quando ela se vê envolvida com um jovem de vida excêntrica e caótica. O sentimento que surge entre os dois logo abala a protagonista, no sentido de confundí-la, de deixá-la ansiosa a procura de algo que ela a priori não julga conhecer bem. Pois ao adentrarmos mais na narrativa acompanhamos como a personagem, mesmo depois de casada, ainda possui uma espécie de fixação pelo jovem.

São as lacunas da memória da protagonista narradora que dão um tom dramático, carregado e denso à história poderosa criada por Lydia Davis. 
Nos rostos da multidão de pessoas que a personagem cruza no dia-a-dia, ela vê o jovem e tenta encontrá-lo a fim de reviver, relembrar o que foi ou não vivido.

É aqui onde os meandros da memória confundem o leitor. Afinal, a memória possui também um poder ficcional. As reminiscências da personagem vão reconstruindo a história e refazendo-a.

Com capítulos curtos, Lydia Davis conduz bem o romance, herotiza momentos do exercício da memória, captura o leitor nas primeiras páginas e nos surpreende com um final que pode frustrar ou satisfazer as expectativas.

Na narrativa de Lydia Davis é quase impossível não nos comovermos, sentirmos uma espécie de empatia pela orfandade na qual a personagem vive à procura de um relacionamento frustrado e idílico, ao mesmo tempo.

O fim da história  destaca-se, sobretudo, por sua fragmentação, pela capacidade de envolver o leitor num drama em que a realidade se mistura com a ficção dentro da ficção e transforma a vida num evento metalinguístico. É ainda, principalmente pela busca por alguém, que nos angustia, enquanto estamos no papel de leitor. Se dos personagens sabemos pouco, muito pouco, ao fim, ficamos sabendo menos ainda das certezas vislumbradas pela narradora.

Delírio, amor, fragmentação, angústia e memória são os elementos que fazem de O fim da história uma narrativa incrível, atual e densa.


Editado pela José Olympio, a capa (in)discreta representa bem a inquietação da narrativa. A tradução de Julián Fuks, autor do excelente A Resistência, aproxima-nos de Davis. Aos leitores que gostam de um drama com fragmentação, história de amores onde a memória é um elemento principal, o livro O fim da história tá super indicado.





SOBRE A AUTORA:

Lydia Davis é escritora e tradutora norte-americana, conhecida por seus contos breves e repletos de humor. Muitos de seus contos contos consistem em micro-narrativas com apenas uma ou duas frases e são difíceis de serem classificados, sendo considerados poemas ou uma algo entre poesia e contos. Ao todo, Davis já produziu dez coletâneas de contos incluindo The Thirteenth Woman and Other Stories (1976), Break It Down (1986) e apenas um romance: The End of the Story (1995). Como tradutora, destacou-se por suas traduções de autores como Marcel Proust e Gustave Flaubert, vencendo diversos prêmios, inclusive o French-American Foundation Translation Prize de 2003.

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