domingo, 1 de maio de 2016

Pergunte ao pó - John Fante

*Resenha elaborada por  Juliene (Leitora e Colaboradora do blog Papos Literários)



No romance Pergunte ao Pó (Ask the dust, Tradução de Roberto Muggiati,  Editora José Olympio, 2015, 208 páginas, R$ 39,90), John Fante nos traz mais uma vez Arturo Bandini, um escritor ambicioso, descendente de italianos nascido no Colorado que vai tentar a sorte na cidades de Los Angeles da década de 1930. Bandini é um anti-herói. (o adolescente da triste família de "Espere a primavera, Bandini"). 

Aqui em Pergunte ao pó Bandini é um adulto arrogante, acredita ser o próximo gênio literário a ser descoberto. Sonha com o sucesso e crê que ele acontecerá a qualquer momento. Entretanto esse sucesso não chega e existe aqui a ironia do homem arrogante e sonhador em excesso e que vive na miséria.

Bandini mora num quarto de hotel 0 estrelas e nunca tem dinheiro suficiente para pagar o aluguel ou para comprar uma refeição decente. Por diversas vezes recorre à ajuda financeira da mãe, através de cartas que enaltecem seu talento prestes a ser reconhecido e o quão próximo ele está de escrever um próximo best-seller.

Por ser jovem e imaturo, nosso protagonista está a procura de inspiração para sua nova história. Ele representa bem o estereótipo do jovem de vinte e poucos anos cheio de sonhos mas perdido quanto ao caminho a ser seguido e as decisões a serem tomadas. É  a prova de que o sonho americano não é nada fácil de ser conquistado.

O ponto alto do livro é o relacionamento conturbado entre Bandini e a garçonete mexicana Camilla Lopez. Ambos ofendem-se mutualmente. Ela o despreza como escritor. Há um momento em que ele um conto seu que foi publicado e bem recebido pela crítica de uma revista (é seu único sucesso) ao café onde Camilla trabalha e ela simplesmente rasga as páginas, desdenhando o trabalho de Bandini. Ele não fica atrás e não se cansa de humilhá-la. 

Na Los Angeles daquela época mexicanos eram alvo de grande preconceito e apesar do amor que sente por Camilla, esse preconceito pela sua origem e condição social desfavorável sempre está presente no relacionamento dos dois. Aqui mais uma vez a ironia se revela, já que Bandini possui ascendência italiana e está longe de ser um bom-partido, seja em termos sociais e financeiros. É o sujo falando do mal lavado.

Os personagens de Fante são complexos e sobretudo humanos, com defeitos e qualidades naturais a qualquer um. É um livro simples com narrativa ágil. As palavras vão jorrando sem parar e a escrita do autor é cheia de honestidade.

Com um novo design gráfico para toda a obra de Fante, a editora José Olympio traz a obra com papel pólen, boa diagramação, além de uma introdução de Charles Bukowski, grande admirador de Fante e que narra o choque de um leitor com um escritor. Assim se refere Bukowski ao livro:


“Tomei o livro emprestado, levei-o ao meu quarto, subi à minha cama e o li, e sabia muito antes de terminar que aqui estava um homem que havia desenvolvido uma maneira peculiar de escrever. O livro era Pergunte ao pó e o autor era John Fante. Ele se tornaria uma influência no meu modo de escrever para a vida toda.” – Charles Bukowski.


Logo, para os fãs de literatura beat, Pergunte ao pó é leitura imprescindível.

Curiosidades:

  • Charles Bukowski (autor beat) confessa ter sido influenciado por John Fante e toda a sua obra.
  • Arturo Bandini é o alter-ego do autor John Fante.
  • A Editora Record disponibliza um trecho do livro aqui.
  • "Pergunte ao pó" (1939) é o segundo livro escrito pelo autor e também o segundo, dentre 4, a trazer Bandini como personagem.
  • O livro deu origem ao filme homônimo de 2005, com Colin Farrel no papel principal.


Sobre o autor:

Foi educado em Boulder e cursou na Universidade do Colorado. Logo mudou-se para a Califórnia. Começou a escrever em 1929, tendo seu primeiro conto publicado na revista The American Mercury em 1932. Seu primeiro romance, intitulado "Espere a Primavera, Bandini" foi publicado em 1938. No ano seguinte acontece o divisor de águas de sua carreira, "Pergunte ao Pó".
Escreveu ainda Rumo à Los Angeles, que mostra a fase mais madura de sua personagem, e alter ego, Arturo Bandini, um ítalo-americano amargo que cresce em plena recessão americana, e tenta levar a vida empregado como operário em fábricas. Bandini exemplifica a falta de perspectiva do pós-guerra e os efeitos da crise de 1929. Fante fez roteiros para Hollywood.

Em 1955 foi diagnosticado que sofria de diabetes, doença que o deixaria cego em 1978. Ainda assim ditou seu último livro, "Sonhos de Bunker Hill" para esposa, Joyce. Morreu aos 74 anos em 8 de maio de 1983 na Califórnia. Seu filho, Dan Fante, escreveu um romance sobre a morte do pai intitulado Chump Change, ainda inédito no Brasil

Onde encontrar o livro:
Editora Record / Livraria Cultura

Fonte:

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