terça-feira, 31 de maio de 2016

O estranho está sempre nos cercando e dele pouco pode-se esquivar

Na capa do novo livro de Samanta Schweblin, há um elogio de Mario Vargas Llosa colocando a autora como uma das "vozes mais promissoras da literatura contemporânea em língua espanhola".





O uso do adjetivo promissor não se faz a toa. A autora de Distância de Resgate (Distancia de rescate, Tradução de Ivone Benedetti, Editora Record, 2016, 144 páginas, R$34,90vai para o panteão de escritores de língua espanhola.
A autora já tinha estreado no Brasil com o brilhante Pássaros na boca (Benvirá, 2012), onde pequenos fatos cotidianos iam rumo à perturbações.  Em Distância de Resgate a autora vai além disso e apresenta a história sob a ótica de duas narrativas.

Com pouquíssimos personagens, o enredo já inicia com um diálogo de duas vozes que vamos aos poucos nos familiarizando e re(conhecendo).


Amanda, Nina (sua filha) e seu marido acabam de chegar ao novo povoado rural onde irão habitar. Nos primeiros dias, Amanda conhece Carla e seu filho David. Numa ensolarada tarde, depois de já fazer amizade com Carla, as duas estão conversando na beira de um lago quando Carla conta-lhe uma história estranha sobre seu filho. Seu marido é criador de cavalos e a eles dedica mais atenção que ao próprio filho. Suspeita-se que com o uso de agrotóxicos o filho David tenha contraído uma doença rara junto com um dos cavalos do seu pai, já que ambos beberam na água do lago. Mas afinal, qual a causa da doença? Agrotóxicos? Vermes? Um praga? E as crianças doentes e parasitárias? E a transposição de almas como forma de salvação?


A partir desse mote inicial, tudo fica estranho e o leitor, que já vinha acompanhando ao jogo de diálogos de um David totalmente estranho e frio, agora se vê diante um fato excêntrico.
Carla, dividida pela culpa, leva o filho numa curandeira da região na esperança de salvá-lo num ritual de transposição de almas (a alma do garoto seria dividida em duas). Assim, David não é mais o mesmo. Após o ritual, Carla não o reconhece mais como filho, já que não sabia como lidar com a sua estranheza.
Após saber da história, Amanda decide, então, ir embora da comunidade rural. Mas será que daria tempo fugir do perigo iminente? Será que a distância de resgate já teria sido ultrapassada?

Amanda, assustada, mantém sua filha sob forte proteção e, para isso, usa o conceito distância de resgate, que seria um fio condutor de ambas, mãe e filha. A mãe flexiona a corda à medida que lhe é seguro, de forma que sua filha não se distancie. Pois quando mais longe, mais difícil de resgatá-la. 

Com um David totalmente estranho daquele que conhecemos por meio da história de Carla, já que ele parece estar em um outro plano, Amanda dialoga e se pergunta acerca da estranheza dos fatos daquele lugar que parece inóspito. Numa sala de emergência que ficamos sabendo mais ou menos no meio da história, Amanda vai descrevendo e narrando a David as suas lembranças daqueles dias e visões. Interrompida na maioria da vezes por David, pois ele sempre alerta e norteia a narrativa para o que é importante, Amanda conta tudo: desde o momento da chegada no povoado até o surgimento dos vermes.

O livro não conta com nenhum capítulo. É um texto corrido, que flui, ainda com a estranheza das primeiras páginas. Com um final incrível, surreal e assustador, o leitor vê-se órfão de uma escritora que deixou o fim nas mãos da nossa imaginação. O que acontece com os personagens a partir daí talvez nunca saibamos, mas nossa fantasia pode imaginar um fim mais feliz para cada um deles.

A estreia da autora pela Editora Record traz um livro bem produzido esteticamente, com uma capa instigante, bonita, com papel soft-touch na capa e um papel ótimo para leitura no miolo do livro. O livro tá indicado para os fãs de Llosa, Juan Rulfo e afins. Samanta conquista leitores de todos os estilos

Sobre a autora:
Samanta Schweblin nasceu em Buenos Aires, em 1978. Formou-se em cinema pela Universidad de Buenos Aires. Em 2001, ganhou os prêmios Fondo Nacional de las Artes e Haroldo Conti, ambos na Argentina, por seu primeiro livro, "El Núcleo del Disturbio". Em 2008, foi a vez de "Pássaros na Boca" ser agraciado com o prêmio Casa de las Américas. Seus contos, traduzidos para o alemão, inglês, holandês, húngaro, italiano, francês, sueco e sérvio, apareceram em diversas publicações e antologias. Em 2010, Samanta foi apontada pela revista literária Granta como uma revelação entre os melhores escritores jovens de língua espanhola.

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