quinta-feira, 28 de abril de 2016

Espere a primavera, Bandini - John Fante


 A espera por dias melhores, leia-se, pela primavera, pode durar bem mais que três estações e algumas complicações familiares. Quando o melhor da primavera não são flores, mas a ausência de frio, Os Bandini vivenciam aquilo que os laços de família têm em comum. 
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Com uma dedicatória à sua mãe e a seu pai, o autor mostra que a base de sua gratidão é a família, um núcleo social que é a gênese do romance do qual estamos falando. Não é a toda que no Prefácio o autor afirma que "todas as pessoas em minha vida de escritor, todos os meus personagens encontram-se neste trabalho inicial. Nada de mim está lá mais, apenas a memória".

Espere a Primavera, Bandini (Wait until spring, Bandini, Tradução de Roberto Muggiati, Editora José Olympio 206 páginas, 2015, R$19,20 - 37,50)  é o primeiro de quatro da saga de Arturo Bandini, o alter ego do autor americano John Fante, cuja história do romance gira em torno do conflito familiar de um adolescente e do sonho americano. É Arturo Bandini quem nos narra toda a história. Ele, que sonha em ter uma casa só para ele onde possa banhar em uma banheira e não mais com tina e caneca, não gosta de seu nome e preferiria ser chamado de John. (daí as semelhanças com a própria vida do autor John Fante). Arturo Bandini (o heroi do romance fanteano "Pergunte ao pó) se mostra uma criança complexa e complexada.

O inverno é áspero e traz uma caótica vida para a família de Svevo Bandini, que vive no Colorado. É com este gélido inverno que a história começa.

A história se inicia quando Svevo Bandini, o patriarca da família de origem italiana, recebe a notícia de que sua sogra (com quem ele não tem boas relações) vem visitar a filha Maria, esposa de Bandini. A família, que é composta pelo casal Maria (católica fervorosa que vive debulhando rosários), Svevo Bandini (beberrão, jogador e fumante de charutos) e os rebentos Arturo (que gosta de impressionar sua amiga Rosa e por ela nutre uma espécie de paixão), Federico (que sonha em ganhar um barquinho de presente de natal) e August  (que deseja ser padre e possui uma admiração pela batina sacerdotal) está cheia de dívidas e sabe que dificilmente as pagará. Nem mesmo carvão como provimento eles possuem para se aquecer no inverno. No campo de beisebol não há treinos, o gelo e a neve impedem o prosseguimento dos serviço de Svevo, as roupas de frio não esquentam o suficiente, tudo está difícil e a espera pela primavera é mais que uma esperança.

Num inverno difícil, a pobre família vê-se abandonada à sorte de um destino, pois Svevo Bandini está sem emprego. A exceção são alguns "bicos" como pedreiro. Mas ainda assim não é o suficiente para amainar a fome de 4 pessoas. No inverno, trabalho é mais escasso, as vezes um conserto numa chaminé ou outros serviços medianos. Svevo é meio malandro. Aliás, as crianças o vêem de modo suspeito num carro de uma viúva ricaça para quem ele prestava serviços.

Então quando Svevo Bandini sabe que sua sogra está vindo visitá-los, ele simplesmente sai de casa para dar uma volta. Mas logo sabemos que ele não voltará, tão logo sua sogra volte, mas ficará em uma roda de jogos onde perderá o pouco que tem. Com isso, o menino  Arturo Bandini vive a consolar sua mãe e tenta minimizar as desorientações dos seus irmãos. Mas nem por isso hesita em roubar de sua mãe um dinheiro para que ele possa ir ao cinema ou impressionar Rosa. As crianças frequentam uma escola católica, onde sua professora freira, cujos olhos são de vidro, desperta um mundo de fantasias na cabeça de Arturo.

 Com a partida da sogra de Svevo, este simplesmente desaparece e não volta. Em meio a  muitas conjecturas da esposa e dos filhos, assistimos a esta cena dolorosa de abandono e pobreza. Maria enlouquece, vendo seus filhos sem ter o que comer e ouvindo rumores de que o seu marido possa estar vivendo com a  viúva rica. Esse fato merece um pouco mais de atenção. Quando as crianças vêem seu pai com Effie Hildgarde, Arturo, o mais velho, temendo a dor da mãe ao saber do fato, implora a August que não conte a ela. Mas o garoto teimoso e sem noção, mesmo depois de ter sido soqueado desafia o irmão. Essa luta entre os dois dura algumas páginas, onde o leitor acompanha o embate como se estivesse num ring branco de neve e muito gelado.
Essas histórias tristes, contadas já em diversos outros livros, são contados por Fante com um estilo cru, mas ao mesmo tempo poético,  que seria depois imitado por muitos escritores, como Charles Bukowski, cujo escritor beat confessa ter encontrado em Fante uma grande inspiração. Com esses acontecimentos comoventes, a família de Bandini vai ganhando um reflexo de saga universal, retratando os conflitos, problemas e laços familiares, cuja referência já dei acima. 

Com uma linguagem rústica, Fante imprime em "Espere a primavera, Bandini" uma obra na qual os dilemas de Arturo, bem como a sua relação com a garota Rosa ou com sua mãe, seus irmãos, o ressentimento e ao mesmo tempo reverência por seu pai e o preconceito contra os ítalo-americanos são mais nossos que poderíamos imaginar. É a atitude meio dúbia do pai que vai desempenhar um papel importante no desenvolvimento do personagem Arturo Bandini, que mais tarde iremos conhecê-lo como anti-herói em "Pergunte ao Pó". O menino que vive a dualidade certo/errado e bem/mal vai amadurecendo no decorrer da obra. É a sua espera e a sua pressa pela primavera que ele vai crescendo enquanto ser humano. É também a nossa espera por uma realidade mais feliz com um alívio de poder ver essa dúbia natureza humana na pele de personagens tão crus. 

Com um novo projeto gráfico para a obra desse clássico americano, a editora José Olympio dá a John Fante um lugar cult nas estantes. A tradução de Roberto  Muggiati está impecável, nada há de complicado nos terreno da tradução. Para os amantes de uma literatura beat, bem como os admiradores de Salinger ou Kerouac, a obra de John Fante encanta jovens de todo o mundo.

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Onde encontrar:

Sobre o autor:

Foi educado em Boulder e cursou na Universidade do Colorado. Logo mudou-se para a Califórnia. Começou a escrever em 1929, tendo seu primeiro conto publicado na revista The American Mercury em 1932. Seu primeiro romance, intitulado "Espere a Primavera, Bandini" foi publicado em 1938. No ano seguinte acontece o divisor de águas de sua carreira, "Pergunte ao Pó".
Escreveu ainda Rumo à Los Angeles, que mostra a fase mais madura de sua personagem, e alter ego, Arturo Bandini, um ítalo-americano amargo que cresce em plena recessão americana, e tenta levar a vida empregado como operário em fábricas. Bandini exemplifica a falta de perspectiva do pós-guerra e os efeitos da crise de 1929. Fante fez roteiros para Hollywood.
Em 1955 foi diagnosticado que sofria de diabetes, doença que o deixaria cego em 1978. Ainda assim ditou seu último livro, "Sonhos de Bunker Hill" para esposa, Joyce. Morreu aos 74 anos em 8 de maio de 1983 na Califórnia. Seu filho, Dan Fante, escreveu um romance sobre a morte do pai intitulado Chump Change, ainda inédito no Brasil.
A biografia de John Fante foi publicada por Stephen Cooper no ano de 2000.
Seu humor cáustico impressionou, entre outros, Charles Bukowski,uma vez que seu alter ego Henry Chinaski manifesta expressamente em Cartas na Rua (também em Pedaços de Um Caderno Manchado de Vinho, Mulheres), que seu autor preferido era John Fante. F-A-N-T-E, enfatiza.

FONTE:
Grupo Editorial Record / IMDB / Fulltv / Skoob / L&PM Pocket

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