domingo, 8 de novembro de 2015

O tom ausente de azul - Jennie Erdal

Daria um bom filme?



Foi a primeira pergunta que eu fiz ao terminar o livro O tom ausente de azul (The Missing Shade Of Blue, Jennie Erdal, Tradução Pierre Menard, Bertrand Brasil, 2015, 377 páginas, R$ 45,00). E a resposta é que sim. Mas perderia muita coisa boa que só encontramos nas 377 páginas.

Algumas considerações preambulares são necessárias antes mesmo de eu adentrar na obra em si.

Primeiro, não é um romance totalmente de cunho filosófico, mas o que a obra nos proporciona em termos de fazer pensar, acompanhar a natureza humana numa aventura filosófica está MUITO acima de outros best sellers.

"Suponhamos, então, que uma pessoa usufruiu sua visão durante trinta anos e se familiarizou perfeitamente com cores de todos os tipos, com exceção, digamos, de uma particular tonalidade de azul, com a qual nunca teve a ventura de deparar. Suponhamos que todas as diferentes tonalidades dessa cor, com exceção daquela única, sejam dispostas diante dessa pessoa, descendo gradualmente da mais escura para a mais clara; é claro que ela perceberá um espaço vazio onde falta aquele tom, e perceberá que naquele lugar há, entre as cores contíguas, uma distância maior que em qualquer outro lugar. Pergunto agora se lhe seria possível suprir essa falta a partir de sua própria imaginação e trazer à sua mente a ideia daquela tonalidade particular, embora esta jamais lhe tenha sido transmitida pelos sentidos. " 
*David Hume, Investigações sobre o entendimento humano e sobre os princípios da moral



Partindo desse pressuposto Humiano, Erdal vai desenvolver uma aventura filosófica inspirada em Hume, mas cheio de referências a Sócrates, Tólstoi, Piaget e Freud, por exemplo. Mas além disso, é um livro que trata, exponencialmente da condição humana.


A história inicia quando o tradutor francês (protagonista do romance) Edgar Logan decide viajar para Edimburgo com o objetivo de estudar as produções filosóficas de David Hume. Em um evento da universidade na qual ele está participando da palestra, conhece o famoso professor Harry Sanderson e por meio dele, Edgar vai se inserir mais na sociedade e nos ambientes universitários, visto que antes desse encontro, Edgar levava uma vida praticamente solitária na cidade escocesa. 

Sem pretensões de se imiscuir na vida familiar, Edgar, que a partir de agora começa a ser tratado como Eddie, é convidado para jantar na casa Sanderson, onde conhece sua bela esposa, uma artista plástica que pinta lindos quadros. 
A partir desse jantar, Eddie fica sabendo da conturbada relação do casal e com o tempo, devido a intimidade que este adquire com os dois, ele vai se envolvendo sem seu relacionamento. Mas Eddie, ironicamente, é uma pessoa que prefere o anonimato, o silêncio. No entanto, ao adentrar na vida do casal, vai lhe acontecendo justamente o oposto.


A perspicácia de Eddie, junto aos seus conhecimentos filosóficos aguçam a sua curiosidade pela vida instigante e misteriosa do casal Sanderson. Essa perspicácia de Eddie vai dando ao livro um ar cada vez mais aproximado de um thriler filosófico. Percebemos que Eddie nutre por Carrie, a mulher de seu amigo Harry Sanderson, uma admiração que se aproxima de uma paixão que não nos fica muito claro, mas que não deixa de ser insinuada nas entrelinhas.
O subtítulo do livro traz estampada "Uma aventura filosófica". E eu tenho que admitir que fiquei até a página 138 esperando uma "aventura" filosófica de fato iniciar. Foi então que, revendo algumas páginas, a aventura filosófica se inicia desde que Eddie encontra-se com Harry.


Os dois que se tornam tão amigos com o tempo têm algumas divergências. Enquanto Harry é mais cético, Eddie tem mais confiança. Os diálogos que os dois amigos travam são de uma beleza literária de encher os olhos, pois é como se estivéssemos ouvindo duas pessoas que conhecemos conversando num café. Harry talvez seja o personagem mais humanizado por Erdal, visto que ele possui, para as suas argumentações filosóficas, fundamentos mais ácidos. Mas meu personagem preferido do livro ainda continua sendo o Eddie, pois seus comentários a respeito das circunstâncias que acontecem para os personagens nos convence. 


Em O tom ausente de azul A escocesa Jennie Erdal soube mostrar o melhor de cada personagem. Desenvolveu a história de modo a ter um fim coerente para ambos os actantes. Não à toa que os personagens se vêem questionando acerca de assuntos que também são pertinentes a nós, tais como amor, felicidade e vida. São personagens esféricos que mais revelam da nossa natureza humana do que artística.São personagens que vão nos surpreendendo a partir do encontro de Eddie com o casal. E daí em diante, as ações e palavras dos personagens dizem muito de nós.  Pois, como nos lembra Antônio Candido, um dos maiores críticos literários brasileiro, “A prova de uma personagem esférica é a sua capacidade de nos surpreender de maneira convincente. Se nunca surpreende, é plana. Se não convence, é plana com pretensão a esférica. Ela traz em si a imprevisibilidade da vida, — traz a vida dentro das páginas de um livro” (CANDIDO, 1964, p. 47).


Os personagens nos persuadem, nos convencem de suas ações. E não, não haveria final mais coerente do que a Erdal foi capaz de dar. Apenas ficamos com a sensação de que, de fato, há um tom ausente de azul na nossa breve e vã existência.

A capa conta com um design incrivelmente bem acabado. A fonte que a Bertrand Brasil usa em suas edições não nos cansa, pois são ótimas. A única ressalva que faço é que deveria ter uma nota maior acerca do Hume e sua reflexão acerca do tom azul.



Jennie Erdal trabalhou como editora , tradutora, e ghostwriter por muitos anos. Ela vive em St. Andrews , na Escócia. "O tom ausente de azul" é o primeiro livro da escritora Jennie Erdal publicado no país pela excelente editora Bertrand Brasil.


Fonte:

http://www.penguinrandomhouse.com/authors/59608/jennie-erdal
http://www.record.com.br/livro_sinopse.asp?id_livro=28606

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