terça-feira, 13 de agosto de 2013

Um livro divisor de águas na literatura latino americana



Saiba o porquê de  "As pontes de Königsberg" ser um divisor de águas na literatura latino americana da última década
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Todo livro que é bom, deve ser grande, certo?

Errado!
Bastou 256 páginas para eu colocar As pontes de Königsberg (Editora Casa da Palavra, Tradução de Michelle Strzoda, 1ª Edição, 2012,  256 páginas, R$ 39,90) no rol dos melhores livros já lidos neste últimos tempos.

O mexicano David Toscana é considerado uma das mais poderosas vozes da nova literatura latino-americana, sendo traduzido para mais de dez línguas e tendo recebido diversos prêmios, entre eles o prêmio de narrativa de Casa de las Américas, pelo romance O Exército Iluminado. 

David Toscana pega o realismo ocorrido durante a Segunda Guerra Mundial, um enigma matemático a respeito das sete pontes da cidade prussiana de Königsberg e o sumiço de seis meninas da cidade e pronto, o sucesso está feito!
Não adianta estrebuchar! O livro é tocante. Choros e gemidos chegam até nossos ouvidos, cenas dramáticas são visualizadas por nós leitores que sentimos e vivemos o complicado universo criado por Toscana para o belíssimo livro.
Tudo começa quando seis meninas desaparecem durante um passeio escolar e segue com uma série de acontecimento secundários que servem de apoio à central: Uma professora decadente, Andrea, explica aos alunos um problema matemático, mais precisamente um diagrama e explana: " “São as pontes de Königsberg, disse Andrea, sete pontes. O objetivo consiste em percorrer todas, passando por cada uma tão somente uma vez."
O enigma matemático consiste no seguinte: acreditava-se que haveria uma forma de atravessar o município inteiro passando unicamente uma vez por cada uma das pontes. Mas a o enigma foi desvendado no século 18 por Leonhard Euler, dando origem à teoria matemática dos grafos.


Königsberg, fundada em 1255, foi o importante núcleo cultural prussiano até 1945, quando passou a chamar-se Kaliningrado, do império russo. 
O nome Königsberg significa “monte do rei”. A história do romance se passa em Monterrey. Porém, a estrutura do romance tem um paralelo entre as duas cidades. Em Königsberg nasceu o grande nome da filosofia moderna, Immanuel Kant, dono do racionalismo epistemológico. A transposição do tempo é feita por três amigos bêbados: Floro, Blasco e Polaco. Os três amigos com a professora Andrea são os responsáveis pelo desenrolar do enredo. Mas o contrário do que se pode imaginar, nenhum deles jamais pisou na cidade prussina.

É aí começa o vai-e-vem de tempo, de espaço e de personagens.
Temos dois narradores que se intercalam. O narrador em terceira pessoa acompanha um grupo integrado por Floro, Blasco e Polaco. O outro narrador, em primeira pessoa, é Gortari, que vai contar a história das meninas desaparecidas. Enquanto aquele narrador conta os fatos ocorridos entre 1944 à 1945 em Monterrey e Königsberg, já este narrador, que tem sua irmã entre as desaparecidas, ocupa-se de falar sobre ela e a Professora.
O que David Toscana faz é aparentemente simples, mas ele é meticuloso. Articula uma trama que ora nos confunde, ora nos alerta. A trama permeia e oscila ora entre as cidades, ora entre as narrações. Embora separados geograficamente, os locais e personagens se fundem, se mesclam mutuamente numa fantasia.

Partindo do sumiço das garotas e entrelaçando o enigma explicado pela austera professora, o carteiro equivocado, os bombardeios e as dramáticas paixões mortais como motor de propulsão e pano de fundo, Toscana escreve um livro com marcas líricas, mas sem abandonar o caráter moderno e realista da obra, na qual ele preenche as páginas com beleza, violência, humor e melancolia.

A justaposição das narrativas e dos cenários revela que estamos diante de um escritor que possui o domínio da escrita. O romance é costurado pelos comentários do narrador sobre a inferioridade da cidade mexicana em relação prussiana, mas que no final, tem uma surpresa. 


Toscana pertence ao alto escalão de autores contemporâneos que não escrevem conforme a narrativa convencional. Ele é tão consistente que, talvez, daqui a dezenas de anos a academia ou muitos leitores deem o real reconhecimento que ele merece.

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