quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Crônicas como uma proposta para entender os Homens

Como bom cronista mineiro, Ivan Angelo revela com humor as peculiaridades de uma mente masculina
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Incluído na lista dos 60 finalistas do Prêmio Portugal Telecom, o livro Certos Homens (Arquipélago Editorial, Coleção Arte da Crônica, 208 páginas, R$ 35,00) traz textos que beiram ao lirismo em prosa e, como é peculiar da crônica, o humor em muitas delas sob um olhar perspicaz de um típico mineiro que é Ivan Angelo.
Meu primeiro contato com a obra do escritor foi numa palestra que tive com o Professor e Escritor Cinéas Santos. Fiquei Deslumbrado com a subjetividade de sua obra. Na Universidade fiz uma análise crítica de 5 laudas do conto "Menina", o que me deixou mais apaixonado pela obra do mineiro vivíssimo aos 75 anos, no momento em que escrevo esta resenha. Ivan Angelo, mineiro, sagrou-se jornalista e em seguida como ficcionista ainda na década de 60 com os livros “Homem sofrendo no quarto”, de 1959, e “Duas faces”, de 1961, de contos. Seus romances mais conhecido são "A festa", de 1975 e "A casa de vidro", de 1979. Ganhador do prêmio Jabuti por mais de uma vez, o escritor foi consagrado pelo Ministério da Cultura entre os autores das 125 obras mais importantes das letras brasileiras. 

Mas enfim, vamos à obra!
O livro possui 50 crônicas, todas compiladas pelo escritor e publicadas em jornais ou revistas durante a última década. São textos que liberam lirismo e principalmente humor, como lhe é característico. Ivan Angelo capta as minúcias de um cotidiano que, muitas vezes, nem notamos.
É assim com "O lixo é nosso", onde o escrito destrincha uma série de críticas à sociedade consumista do nosso tempo e que o motorista do carro do lixo está apenas executando o seu dever, mas somos nós é que sujamos as ruas.
Como não rir da "Conversinha sobre monstros" ou "Conversinha sobre o pum" que o avô mantém com o curioso neto? Explicação complexa de assuntos simples (conveniência social) para um ser tão pueril como uma criança.
Ou ainda como não assegurar o bom humor em "Recados da China", onde a empregada atrapalhada só dá avisos errados aos patrões. Assim, um recado dado ao telefone "Ligar para o Eugênio do Santander" vira "Ligar para o gênio do André".

Às vezes Ivan Angelo trata de assuntos tão pertinentes do nosso dia a dia que nos leva à interrogação: "Como não pensamos nisso antes?" É dessa forma com "A fila que não anda", fato que todo mundo odeia esperar em filas de Banco.
Além de descrever os tipos humanos, como ele faz em "Pernas de Homem", "Dia dos Desnamorados", "Amantes", "Virei metrossexual", ele também descreve cenas cotidianas, tais como a mudança de endereço na crônica "Novo Endereço". E que a verdade seja dita, mudança é complicado e é um saco!
São casos bem-humorados, assim como a crônica "Até você, leitor" onde o cronista observa a existência de datas esdrúxulas em nosso calendário.
Muitas dessas crônicas possui um lirismo contido, mas um olhar sentimental sobre o comportamento humanos. É assim com "Amores distantes". Quem não manteve um relacionamento à distância? Ivan Angelo faz referência ao amor de Tomás Antônio Gonzaga e Marília, um amor tão propício aos nossos dias que, vistos pela ótica do escritor, nos incita à reflexão. Coisas agradáveis e desagradáveis permeiam as crônicas, afinal estamos também sujeitos às circunstâncias de um mundo moderno. "Asmáticos se entendem" trata de assaltos, assunto corrente dos noticiários. "De quantos celulares você precisa?" é um insulto para repensarmos nossas maneiras de consumo. E por aí vai outros temas semelhantes.

A coletânea de crônicas foi organizada de tal forma que mais parece uma conversa interativa do escritor com o leitor. Percebemos que um texto leva a outro. "Gosto de bolsos", por exemplo, puxa o seguinte "Perna de Homem" e é assim com os demais. A própria literatura vira tema metalinguístico em "Já ouvi isso antes", onde o autor desenrola pensamentos à respeito da originalidade de escritos. Mesmo quando o autor resolve escrever sobre temas simples, como é o caso de "Gosto de bolsos", onde ele discute a não existência de bolsos em roupas femininas, ele mantém o humor e o jeito peculiar de escrever uma boa crônica, gênero tão nosso que chega a ser brasileiro.

Visto que a crônica tem uma certa instantaneidade, em uma entrevista ao Suplemento Pernambucano, comentando sobre o gênero, argumentou: "O segredo da crônica é que ela é uma relação pessoal, íntima, entre o narrador e o leitor. O cronista se dirige a uma pessoa que ele acredita ter a mesma sensibilidade que ele." E de fato, os textos são na verdade quase uns hipertextos, assuntos que nos conectam e nos impele a pensarmos e interrogarmos mais.

O livro cumpre o que a orelha do livro anuncia: “Quase tudo o que cabe numa crônica está nesse livro”. Cumpre o papel de nos impressionar pelo saudosismo do cronista e de compor com respeito o mundo concreto que vivemos. Amor, família, duelo de gerações, empregos e excêntricos comportamentos são somente alguns dos muitos temas tratados tão bem em 208 páginas. 

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