sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

[Cartas Famosas] De Caio Fernando Abreu para seus Pais

O mês é fevereiro, mas a carta deste mês do mundo famoso da literatura é para os pais de um escritor brasileiro muito queridinho entre os brasileiros. Confira a carta "Aos Pais" do escritor Caio Fernando Abreu.

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“São Paulo, 12 de agosto de 1987.


Postal enviado aos Pais em 1973
Querida mãe, querido pai,

Não sei mais conviver com as pessoas. Tenho medo de uma casa cheia de pais e mães e irmãos e sobrinhos e cunhados e cunhadas. Tenho vivido tão só durante tantos – quase 40 – anos. Devo estar acostumado.

Dormir 24 horas foi a maneira mais delicada que encontrei de não perturbar o equilíbrio de vocês – que é muito delicado. E também de não perturbar o meu próprio equilíbrio – que é tão ou mais delicado.

Estou me transformando aos poucos num ser humano meio viciado em solidão. E que só sabe escrever. Não sei mais falar, abraçar, dar beijos, dizer coisas aparentemente simples como “eu gosto de você”. Gosto de mim. Acho que é o destino dos escritores. E tenho pensado que, mais do que qualquer outra coisa, sou um escritor. Uma pessoa que escreve sobre a vida – como quem olha de uma janela – mas não consegue vivê-la.


Foto: Paulo Giandalia/Folhapress
Amo vocês como quem escreve para uma ficção: sem conseguir dizer nem mostrar isso. O que sobra é o áspero do gesto, a secura da palavra. Por trás disso, há muito amor. Amor louco – todas as pessoas são loucas, inclusive nós; amor encabulado – nós, da fronteira com a Argentina, somos especialmente encabulados. Mas amor de verdade. Perdoem o silêncio, o sono, a rispidez, a solidão. Está ficando tarde, e eu tenho medo de ter desaprendido o jeito. É muito difícil ficar adulto.

Amo vocês, seu filho,

Caio”

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 Podemos perceber, como é natural do Caio, o uso do sentimentalismo, doçura e educação na escrita. Caio Fernando Abreu morreu em 25 de fevereiro de 1996, portanto hoje fazem 17 anos de sua morte. Nós, brasileiros, devemos elevar ao púlpito o nome de um escritor que, à maneira de Clarice Lispector, escreveu o que há de mais intrínseco do ser humano.


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