terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Enfim uma antologia digna do meu Pessoa


O poeta português recebe uma primorosa edição com os seus principais poemas

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Sempre que as pessoas me perguntavam ou pediam uma sugestão para começarem a ler a obra do Fernando Pessoa, eu ficava mais pra lá do que pra cá.
Tenho uma razão óbvia. Para não correr o risco de entregar nas mãos de um leitor principiante uma obra monumental, que é a obra do Pessoa, eu sempre hesito antes de indicar um livro dele para quem quer ingressar em sua extensa obra.
Às vezes eu indicava aquele tomo da Editora Nova Fronteira, outras eu apontava as edições da Martin Claret. Mas muitas vezes eu ficava com peso na consciência, pois tais publicações deixam falhas no leitor iniciante. 

Até que me cai nas mãos o livro Fernando Pessoa - Antologia Poética (Editora Casa da Palavra, Organização de Cleonice Berardinelli, 2012, 1ª Edição, 336 páginas, R$ 42,90).
Além de ser uma estudiosa especializada na obra do Pessoa, Cleonice, a organizadora da antologia, é rigorosa e perfeccionista. Ela foi atrás de originais, fez correções em poemas que são conhecidos por aí que são publicados erroneamente.
A pluralização do poeta português é destacada pela organizadora a começar pela forma como ela dividiu o livro. Primeiro encontramos os poemas do próprio e verdadeiro Pessoa. Em seguida,  dos seus principais heterônimos, Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis. Depois há alguns ensaios escolhidos pela Cleonice.

Toda vez que eu pego uma antologia de Fernando Pessoa, grande fã que sou dele, eu folheio o livro procurando imediatamente por dois poemas: "Tabacaria" e "Lisboa Revisitada".
Se o livro os tiver, eu indico. Caso não os tenha, eu repudio.
Pois Cleonice Berardinele não falhou comigo nem com tantos outros fãs leitores do Pessoa.

Na parte dedicada ao "Pessoa por ele mesmo", temos o famoso "Autopsicografia", "Hora Absurda" e "Gomes Leal".
Em "Poemas de Alberto Caeiro" não poderia faltar "O Guardador de Rebanhos", assim como "O Pastor Amoroso".
Já em "Odes de Ricardo Reis" temos as principais Odes, incluindo "O sono é bom pois despertamos dele" e "Só esta liberdade nos concedem...", dentre tantos outros.

E é mais precisamente em "Poemas de Álvaro de Campos" que eu me esbaldo, literalmente. É nesta parte que eu encontro o que considero o melhor heterônimo do "Pessoinha".
Impossível não sentir o lirismo exacerbado no enooorme "Tabacaria", onde versos intensos nos revelam a genialidade ao escrever versos tais como:


"Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro."


É também neste mesmo poema que ele confessa: 


"Vivi, estudei, amei e até cri, 
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu."

Ainda de Álvaro de Campos há "Lisbon Revisited", com seus versos que destilam repulsa: 

"Vão para o diabo sem mim.
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço"

(...)
Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!"


Depois da divisão temos alguns poemas que compõem a obra prima "Mensagem" concluindo com oito ensaios sobre o poeta.
A seleção engloba quase 20 anos de produção poética de Fernando Pessoa e promove o encontro entre encontro entre uma das maiores autoridades em literatura portuguesa no Brasil, a professora e escritora Cloenice Berardinelli, e um dos maiores poetas de nossa língua.
Quem sempre sai ganhado é o leitor, que tem nas mãos uma edição primorosa feita pela Casa da Palavra. Uma antologia, enfim,  digna de ser indicada.


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Sobre a Organizadora:
Cleonice Serôa da Motta Berardinelli nasceu no Rio de Janeiro, em 1916. Formada em Letras Neolatinas pela Universidade de São Paulo (USP), Cleonice é atualmente professora emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Pontifícia Universidade do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Uma das maiores autoridades em literatura portuguesa do Brasil e pioneira no estudo de Fernando Pessoa (sua dissertação sobre o poeta, defendida em 1959, foi a segunda do mundo), Cleonice destaca-se também por suas publicações sobre Luís de Camões e Gil Vicente. É autora, dentre outras obras, de: Estudos camonianos (1973); Obra em prosa: Fernando Pessoa (1974); Estudos de Literatura Portuguesa (1985); Álvaro de Campos – A passagem das horas (1988); Poemas de Álvaro de Campos (1990) eFernando Pessoa: outra vez te revejo... (2004). Em 2009, Cleonice Berardinelli foi eleita imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL).

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