quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Poesia Nossa de Cada Dia - Pedra Só


Dando continuidade a um outro Projeto do Blog de comentar mensalmente uma obra poética, trago hoje comentários da poesia do autor José Inácio Vieira de Melo, alagoano radicado na Bahia. É poeta, jornalista e produtor cultural. Edita o blog Cavaleiro de Fogo.
Escolhi um poema do livro Pedra Só, sexto livro e sem dúvida o mais autobiográfico do autor para publicar e comentar aqui no Papos Literários.




CORDEIRO DE ABRIL


Eu sou filho de Abril,
um deus do calendário
que traz no semblante
trinta sóis a contemplar
meus quarenta rubis.

Nasci no seio de Abril,
por isso esta cor rubra,
esta atitude vermelha,
este desejo encarnado.

Circulo nos veios de Abril,
faço parte da claridade,a
da brisa que atravessa
o sertão das palavras.

Eu sou filho de Abril
e apascento as roseiras
no verdor das horas.

Sou o cordeiro e o signo
tangendo a si próprio
como quem tange
para bem longe
o pensamento.

O cordeiro de Abril,
que vivencia pecados
e inventa mundos
por onde passear
de tardezinha.


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OBRA COMENTADA: (por Thiago Felício)

No poema acima o poeta ora se faz pequeno frente aos elementos naturais, ora se faz ardente como o fogo, como um Deus. O eu lírico faz referência a personagens bíblicos e mescla com propriedade memórias particulares. Ele se faz o cordeiro de abril, mês onde no Nordeste é mês de chuva, mês em que pastores necessitam apascentar suas ovelhas. E essa é a metáfora do título.
O que se pode perceber nitidamente na obra de José Inácio Vieira de Melo é que ele faz uma busca telúrica ao seu passado no sertão da Bahia. Tanto é que o nome dado ao seu  sexto livro é o mesmo nome de uma Fazenda naquele estado. O livro, dividido em 27 partes minúsculas, mas com poemas épicos nordestinos, aproxima-se da vertente cristã, bem como da linguagem religiosa e própria do nordestino.
Caracteriza também sua obra a percepção daquilo que é do nordestino: a terra, os elementos da natureza, do meio ambiente. É um poeta introspectivo de maneira sutil traça nos versos a atemporalidade.
Destaco alguns poemas que se encontram no livro Pedra Só: "Outono", onde com fluidez e lirismo o poeta talha a paisagem da estação. "Escrituras", que possui um tom telúrico preenchido de versos brancos, "Tempo", um poema muito reflexivo, "Jokerman", poema dedicado a Bob Dylan, "Arqueiro", onde a metáfora transcende elevando o livro.
Destaco também o Canto XII do Poema que dá nome ao livro:

PEDRA SÓ



XII


Sertão, cartilha e dicionárioque recupera o fôlego do ser
e laça as águas do momento
que escorregavam da memória.
Sertão, coisa de espírito mesmo:
o nome incrustado no âmago.

No Sertão, o princípio do enigma,
o galope para dentro do redemoinho,
e na garupa alforjes de couro
bordados com a chama do amor.

O Sertão encourando os primeiros saberes...

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Note que é usual dele manusear a poesia como lembrança ou retratar quadros do pedaço da região nordestina. Mas não é só isso, em alguns poemas do livro, o escritor se aproxima da escola surrealista, criando um ambiente místico cheio de fantasias.
Tempo, ambientação nordestina, introspecção lírica, memórias. Talvez sejam estas as peculiaridades deste livro que caiu em minhas mãos como uma gota em tempo de seca.
Mas há que se fazer uma observação. Mais que uma poesia nordestina, é uma poesia íbero-americana, o que expande a visão de mundo. José Inácio Vieira Melo* tem poemas traduzidos para os seguintes idiomas: espanhol, francês, italiano, inglês e finlandês.
Estes e outros inúmeros poemas estão no livro Ped
ra Só (Editora Escrituras, 144 págs., R$ 25,00).

*Contato com o escritor: jivmpoeta@gmail.com
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No próximo post do Projeto "Poesia Nossa de cada Dia" trarei comentários sobre o famoso e clássico Rubáiyát, de omar kháyyám.
Abraço

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