terça-feira, 25 de setembro de 2012

Poesia Nossa de Cada Dia - O Navio Negreiro de Castro Alves

Iniciamos também neste mês uma série de postagens onde propomos fazer comentários a respeito de algumas poesias conhecidas do universo poético.
Inicio este novo projeto do blog Papos Literários comentando o CANTO V do poema "O Navio Negreiro" do poeta baiano Castro Alves.



Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus! 
Se é loucura... se é verdade 
Tanto horror perante os céus?! 
Ó mar, por que não apagas 
Co'a esponja de tuas vagas 
De teu manto este borrão?... 
Astros! noites! tempestades! 
Rolai das imensidades! 
Varrei os mares, tufão! 

Quem são estes desgraçados 
Que não encontram em vós 
Mais que o rir calmo da turba 
Que excita a fúria do algoz? 
Quem são? Se a estrela se cala, 
Se a vaga à pressa resvala 
Como um cúmplice fugaz, 
Perante a noite confusa... 
Dize-o tu, severa Musa, 
Musa libérrima, audaz!... 


São os filhos do deserto, 
Onde a terra esposa a luz. 
Onde vive em campo aberto 
A tribo dos homens nus... 
São os guerreiros ousados 
Que com os tigres mosqueados 
Combatem na solidão. 
Ontem simples, fortes, bravos. 
Hoje míseros escravos, 
Sem luz, sem ar, sem razão... 


São mulheres desgraçadas, 
Como Agar o foi também. 
Que sedentas, alquebradas, 
De longe... bem longe vêm... 
Trazendo com tíbios passos, 
Filhos e algemas nos braços, 
N'alma — lágrimas e fel... 
Como Agar sofrendo tanto, 
Que nem o leite de pranto 
Têm que dar para Ismael. 

Lá nas areias infindas, 
Das palmeiras no país, 
Nasceram crianças lindas, 
Viveram moças gentis... 
Passa um dia a caravana, 
Quando a virgem na cabana 
Cisma da noite nos véus ... 
...Adeus, ó choça do monte, 
...Adeus, palmeiras da fonte!... 
...Adeus, amores... Adeus!... 


Depois, o areal extenso... 
Depois, o oceano de pó. 
Depois no horizonte imenso 
Desertos... desertos só... 
E a fome, o cansaço, a sede... 
Ai! quanto infeliz que cede, 
E cai p'ra não mais s'erguer!... 
Vaga um lugar na cadeia, 
Mas o chacal sobre a areia 
Acha um corpo que roer. 


Ontem a Serra Leoa, 
A guerra, a caça ao leão, 
O sono dormido à toa 
Sob as tendas d'amplidão! 
Hoje... o porão negro, fundo, 
Infecto, apertado, imundo, 
Tendo a peste por jaguar... 
E o sono sempre cortado 
Pelo arranco de um finado, 
E o baque de um corpo ao mar... 


Ontem plena liberdade, 
A vontade por poder... 
Hoje... cúm'lo de maldade, 
Nem são livres p'ra morrer. . 
Prende-os a mesma corrente 
— Férrea, lúgubre serpente — 
Nas roscas da escravidão. 
E assim zombando da morte, 
Dança a lúgubre coorte 
Ao som do açoute... Irrisão!... 


Senhor Deus dos desgraçados! 
Dizei-me vós, Senhor Deus, 
Se eu deliro... ou se é verdade 
Tanto horror perante os céus?!... 
Ó mar, por que não apagas 
Co'a esponja de tuas vagas 
Do teu manto este borrão? 
Astros! noites! tempestades! 
Rolai das imensidades! 
Varrei os mares, tufão!...


Navio Negreiro - Rugendas
OBRA COMENTADA (Por Thiago Felício):

Na parte anterior (O CANTO IV)o poeta termina citando o nome da entidade demoníaca. Nesse quinto canto ele inicia com uma apóstrofe repetida na última estrofe desse canto, interpelando Deus para esclarecer a sua visão e confortar o seu espírito abalado com os devaneios ante o quadro visualizado: “Dizei-me vós Senhor Deus! Se é loucura... se é verdade”. Este questionamento ante a figura de Deus gera inconformismo em quem lê o poema, pois a mancha no mar citada pelo poeta é identificada por qualquer leitor sensível à causa da escravidão. Apesar de Castro Alves incluir elementos religiosos com frequência em seus poemas, como a constante imprecação “Meu Deus!”, aqui, ele mostra a figura de Deus e suas figuras titânicas como capazes de reverter a situação, porém não a realizando e por isso, não aceita a tragicidade.

A quinta parte é composta por nove estrofes (todas em décimas de redondilha maior, variando apenas na rima). Sendo esta a maior parte do poema, o eu lírico busca incessantemente a identidade do negro junto a uma mistura de revolta, de tristeza e indignação. É como afirma Costa e Silva “Não há palavra que não esteja carregada de dor e angústia...” (2009, p. 103). O espirito dúbio do poeta desperta ao interrogar “Se é loucura... se é verdade tanto horror perante os céus”.

Ele continua interrogando ao mar qual o motivo dele não apagar aquele borrão do quadro. E para isso, ele refere-se à esponja, elemento utilizado para retirar as impurezas de um ambiente, ao mesmo tempo em que poderia extinguir a mancha da escravidão nas agitadas águas do oceano atlântico. São às figuras da natureza a quem o poeta recorre: aos astros, as noites, as imensidades, às tempestades e aos tufões. Mas parece ser em vão suas preces, pois ele não alcança resposta para a diminuição da barbaridade.

Na segunda estrofe desta quinta parte o poeta inicia uma jornada para descobrir “quem são estes desgraçados”. Porém, há a omissão da estrela que se cala e da vaga que escorrega. Elas poderiam ajudar, mas permanecem cúmplices da maldade humana. A interrogação repetida “Quem são?” reforça novamente a retórica castroalvina tão marcante também para enfatizar o quanto o eu lírico deseja conhecer a origem dos sofredores.

A noite aqui é confusa, facilitando a execução de atos macabros. A dramaticidade contida no poema nesta confusa noite cede mais uma vez lugar a um narrador que irá contar a saga dos negros em um tom quase épico. É o que Neto (2007, p. 98) denomina de ‘epopeia dos vencidos’. Como em uma epopeia o poeta clama: “Dize ó tu, severa musa, musa libérrima, audaz!”. Esta musa a quem o poeta tanto clama, trata-se da própria poesia. Pois é esta que o poeta usa como libertação para expressar a sua intenção social. É ela que embriaga o poeta nos primeiros versos do poema quando ele insiste: “Esperai! Esperai! Deixai que eu beba esta selvagem, livre poesia..”

Da terceira a oitava estrofe, o poeta empreende a missão de decifrar a identidade destes infelizes do navio imundo. E inicia afirmando: “São os filhos do deserto”. O deserto deixa de ser o espaço iluminado para tornar-se um espaço sombrio, pois é na areia que o chacal acha um corpo pra roer. Se antes era um símbolo de liberdade e de luz, onde os homens nus viviam em campo aberto, agora dentro do brigue voador, tudo se restringe a miséria, sordidez e a um ambiente sem luz. Se no deserto eles eram fortes, valentes, sua situação no navio é de fraqueza e de impotência. Se antes eles tinham livre arbítrio, agora não tinham o direito nem pra escolher o modo de sofrer. E assim o poema prossegue cheio de contrastes onde a liberdade opõe se à prisão e sofrimento do navio, o passado contrasta com o presente, assim como o céu e mar, a noite e a luz, a vida africana e a vida no Brasil.

A narração continua demonstrando a saga da multidão dos infelizes arrastados de suas cabanas e levados pela caravana como uma vítima até seu algoz. A partir da sexta estrofe o poeta preocupa-se em descrever as mudanças ocorridas no espaço e com o tempo da saga dos negros escravos: a tranquilidade da vida de Serra Leoa é substituída pela vida torpe no porão fundo, infectado e estreito.

O quinto canto do poema termina sem nomear nenhum dos escravos, ele apenas compara as mulheres desgraçadas e seus filhos aos personagens bíblicos Agar e Ismael. E conclui com a mesma interpelação da primeira estrofe do canto, onde a imprecação a Deus enfatiza a sua inconformidade e roga novamente as forças da natureza para que varra aquela sujeira do mar.


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O poema que está contido no livro Os Escravos foi publicado por diversas editoras, mas destaco aqui a publicação da Editora Martin Claret que traz notas e outras observações a respeito dos poemas .

Logo, logo teremos outros poemas comentados aqui no blog.
Abraço

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