terça-feira, 18 de setembro de 2012

Tagore: Poesia lírica, mística e... Breve!

Editora Paulus,
Rabindranath Tagore,
Tradução de Ivo Storniolo, 480 páginas, R$ 22,00
 
É exatamente o que Rabindranath Tagore, primeiro não-europeu a conquistar, em 1913, o Nobel de Literatura, um dos maiores prêmios na área, traz nessa presente obra.

De antemão, é preciso saber que  Rabindranath Tagore foi um ser extremamente apaixonado do absoluto. Entretanto, como é natural acontecer, ele não encontrou o que buscava: o sentido e o mistério do Absoluto, mas compreendeu nos acontecimentos cotidianos e nos seres humanos o que procurava. Amigo pessoal de Mahatma Ghandi, o escritor cultivou em sua obra textos que se aproximam de seu ideal e de sua cultura. Sua preocupação em defender a independência da Índia, por exemplo, levou-o a escrever sobre temas sociais em seus textos.

Sua poesia é um misto dos adjetivos dados ao título desta postagem: lírica, mística e breve. É justamente essa a proposta do livro Poesia Mística - Lírica Breve (Editora Paulus, Rabindranath Tagore, Tradução de Ivo Storniolo, 480 páginas, R$ 22,00)
Neste livro, Tagore derrama sacralidade e temas vulneráveis da vida cotidiana. E assim ele vai revelando a incessante busca do ser humano por um ser superior.

De classificação um pouco difusa, o livro é uma composição de oito pequenas obras, ou melhor, textos poéticos, mas também  de escritos que transitam entre a prosa poética compondo assim a afamada "Lírica Breve".

Nele pode-se encontrar observações profundas a respeito de distintos momentos da vida. No livro há impregnadas reflexões de Tagore sobre os fundamentais estados psíquicos do ser humano, o que faz da obra um livro nem um pouco complexa, ao contrário, traz até o leitor divagações da nossa alma inquieta, porém, nem sempre exposta.

O livro oferece ao leitor uma mensagem sempre humanitária e universalista, típico de Tagore. Não é a toa que seu nome, ocidentalizado do nome em sânscrito, quer dizer "homem nobre". É difícil definir Tagore, tamanha a sua universalidade, mas ouso "roubar" aqui uma afirmação dada por Laura Santoro Ragaini, num ensaio sobre Tagore, onde a mesma declara: “Bisso Kobi, Poeta Universal, chamam-no na pátria. É o título que ainda hoje melhor lhe assenta”. E tá dito!

É com uma mensagem de "Paz e Amor", que durante as 480 páginas do livro percebemos a consistência de sua obra ao longo do tempo. Temas como família, relações humanas e conflitos sociais, mantém-se atuais ainda na Índia contemporânea, mas também cá, nestes lados ocidentais. O idealismo filosófico da obra, frente à consciência humanizada do escritor lega a nós, mortais leitores, o culto pela vida espontânea, livre e bela. Pois é notável que este é um dos princípios ativos que o autor, dotado de uma sensibilidade não trivial, mergulhou. Seu contato com o mundo exterior é inteligente. Com o interior humano, sensível. 
Após ler os poemas e demais textos, você não sai do livro sem refletir e sem fazer interrogações. Pois fica a marca tagoreana em nosso ser, na qual poucas poesias introspectivas conseguem. É consequência de uma poesia madura e nada mais.

Deixo aqui para apreciação um dos textos do livro. Pois pra quem gosta de poesia sacra, o livro é um prato cheio, ou melhor, uma ceia litúrgica completa!
E você pode "comê-lo" em qualquer lugar. O excelente trabalho gráfico do livro possibilita levá-lo no bolso para onde você for.   

"As nuvens de tempestade rondam no céu, as chuvas de junho se precipitam, 
e o vento úmido do leste corre pelo deserto para tocar sua música na flauta dos bambus.
 Então, de repente, e não se sabe de onde, surgem multidões de flores, 
dançando sobre a relva em louca alegria.
Mãe, acho que as flores vão a uma escola embaixo da terra. 
Elas têm suas aulas de portas fechadas e, se quiserem sair antes do tempo para brincar, 
a professora as põe em um canto, de castigo. 
Quando cai a chuva, porém, é dia de festa para as flores.
Os galhos se entrechocam na floresta, as folhas murmuram ao sabor do vento selvagem, 
as nuvens trovejantes batem palmas com suas mãos gigantes, 
e as flores-crianças saltam fora correndo, vestidas de amarelo, rosa e branco...
Mamãe, bem sabes que a casa delas é no céu, onde estão as estrelas.
Não percebeste a vontade que elas têm de ir para lá? 
Não sabes por que correm tanto? 
Pois eu sei para quem as flores levantam os braços: elas têm a mãe delas, assim como eu tenho a minha!"

Dignidade seja dada à obra Tagoreana. Salve! Salve!
Até a próxima.
Abraço

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