domingo, 12 de agosto de 2012

On the road? Não! Aqui é Fé na Estrada!

Pegando carona com o sucesso do filme Pé na estrada, do diretor brasileiro Walter Salles, resolvi ler um livro que faz uma paráfrase à obra beat.

No final da década de 40 e início dos anos 50, Jack Kerouac resolveu sair de casa, reunir uns amigos e fazer uma viagem cheia de aventuras pela nossa querida América, dando origem à famosa rota 66. A viagem originou o livro On the road, que depois de ser rejeitado por algumas editoras por seu conteúdo, alcançou um sucesso imediato, tornando-se um clássico beat. Não só isso, o livro tornou-se a Bíblia da geração Beat e Kerouac alcançou o panteão dos deuses escritores e morreu como um ícone da contracultura.

Dodô Azevedo, jornalista e escritor brasileiro, leu o livro com 16 anos e, desde então, resolveu fazer a mesma viagem do escritor beat, uma viagem com "J". No entanto, os atentados aos EUA no 11 de setembro adiaram seu projeto. Sua viagem, assim como a de Kerouac originaria um livro. O autor só conseguiu viajar em 2003 - aos 31 anos, com sua amiga e fotógrafa Luíza Leite.
FÉ NA ESTRADA
Dodô Azevedo
Casa da Palavra
R$ 39,90 (304 págs.)
Foi aí que surgiu Fé na estrada - seguindo os passos de Jack Kerouac (Editora Casa da Palavra, 304 páginas, R$ 39,90). A publicação ganhou repercussão dentro e fora do país levando a atriz americana Olivia Wilde  - a "Thirteen" de "House", a  perguntar aos seus 47 mil seguidores no Twitter: "Como nós, americanos, não tivemos essa ideia antes?". 
Não é para menos! O livro é um ideia original e ousada de um jovem jornalista que adora viajar, porém odeia os Estados Unidos, detesta mosquitos e não suporta acampar. Se isso não fosse o bastante, Dodô Azevedo fala um inglês "macarrônico", o que torna mais hilária suas aventuras durante a viagem.

A ideia de refazer a rota de Kerouac feita ha 60 anos é buscar um outro olhar sobre esta América tão "cafona", como o próprio autor define. Não só isso, mas também procurar a influência dos beatniks no século XXI. Mas é como um jeca tatu que o escritor chega aquele país, sem saber de nada: onde fica casa tal, praça tal, etc. No início, sequer um mapa o louco comprou. 
É com malandragem, lirismo, aventuras hiláaaaaaaaarias que Dodô Azevedo vai nos retratando (em todos os sentidos, pois o livro é composto de belíssimas imagens feitas pela Luíza) a América em tempos tão diferentes daqueles de Kerouac. O próprio Dodô, por ser negro e com a tez próxima a de árabes e indianos é confundido com terrorista e é  detido por um policial em Nevada que confundiu as palavras "hitchhiking" (pegando carona) com "hijacking" (sequestrando aviões). 

Sem querer contar tudo, a dupla passou por situações extremas e constrangedoras, mas ao mesmo tempo engraçadas: tiveram que roubar comida uma vez por outra, Dodô "magnetizou" seu órgão sexual (pra mim uma dos episódios mais engraçados) e viagens alucinógenas tomando o chá de peyote, usado há séculos pelos índios navajos em seus rituais e experimentado por Kerouac e seus amigos beatniks. Outras aventuras engraçadas é quando Dodô dá de cara com um filhote de urso. Ou no Arizona, quando foram surpreendidos por uma tempestade de areia e em Las Vegas Dodô confundiu as infinitas luzes da cidade com um ataque nuclear. No fim da viagem, depois de cruzarem 14 estados no "tubarão" (alcunha dada ao carro) acampando, brigando, fazendo as pazes, a dupla volta para casa. Ele com blocos de  anotações avulsas; ela, com quase três mil fotos.
São tantos acontecimentos* beirando à ficção, que levam o leitor a questionar: "Aconteceu tudo isso mesmo?". Sim! É o próprio Dodô que responde: "Eu viajei com o propósito de escrever um livro chato e teórico a respeito da América do século 21. Não imaginava que acabaria vivendo uma aventura", conta o autor.
E aqui cabe um alerta, não se trata de um livro de ficção, de fatos inventados ou imaginados! O livro é de viagem, trazendo analogias à obra de Kerouac. Portanto, recomenda-se, de antemão, que você tenha no mínimo um mero conhecimento sobre o clássico On the road, já que Dodô faz uma narrativa livre de estereótipos, libertária e nos moldes da contracultura.

O escritor Dodô Azevedo
O escritor brasileiro Dodô faz o que nenhuma outra pessoa teve ideia: redescobrir um país, procurar a alma 'beat' e constata que o espírito da beat generation se encontra mais vivo na mente dos estrangeiros do que entre os próprios americanos.

Tal qual o livro de Kerouac, o de Dodô Azevedo pode também chegar às telonas, pois produtores americanos, belgas e brasileiros estão interessados na história. Porém, o escritor ousa ir ainda mais longe - "Meu sonho é lançar o livro também em Vook, nova modalidade de livro eletrônico, que contém vídeo, acessa a internet, busca novos conteúdos, etc. Nos EUA, um produtor chamado Michael Atalla, está traduzindo o livro para publicação em inglês também." conta ele.
O livro, disputadíssimo entre duas editoras, foi publicado pela Casa da Palavra e tem um prefácio emocionante do cineasta brasileiro Walter Salles que assim definiu a obra: "O livro é um relato vivo e urgente da América contemporânea, um país feito de pulsões contraditórias, que Dodô “ama e odeia” ao mesmo tempo... Essa viagem inconformista, bem-humorada, deixa o gosto inusitado de uma aventura vivida a pleno, sem concessões...”. Além disso, o livro possui um ótimo trabalho de diagramação, sobretudo na capa, onde esta transforma-se num mapa, quando retirada a sobrecapa do livro.

É a estrada que rege o futuro e as incertezas da dupla. O importante, nos ensina ele, é ter Fé na estrada. E pelo visto, essa estrada de Dodô Azevedo é longa, muito longa. Basta ver seus projetos para comprovar.
Se On the road moveu toda uma geração instigando e incitando as pessoas a viajar, Fé na estrada, idem!

*Leia aqui no site do jornal O Globo o capítulo 9.

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