sábado, 28 de julho de 2012

[Contos Urbanos] No escritório (Parte 2)

Atenção, para melhor compreensão deste conto, recomenda-se a leitura das 2 primeiras partes:  No Antiquário e No escritório.
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"Os indivíduos se dividem, segundo a lei da natureza, em duas categorias: a inferior (a dos vulgares), isto é, se me permite a expressão, a material, que unicamente é proveitosa para a procriação da espécie, e a dos indivíduos que possuem o dom ou a inteligência para dizerem no seu meio uma palavra nova. " (Dostoiévski)

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A rua estava polvorosa. Assistia a tudo com um olhar perscrutador. Quem morrera?
Durante a manhã, a rua  do Sr. Benedito foi invadida por policiais, legistas, familiares,  amigos e curiosos. Mas ninguém conseguira entrar na mansão de forma que ainda era um enigma saber quem havia sido assassinado.
Somente pelas 14:00 é que dois corpos eram transportados para dentro de uma ambulância. Dois corpos? Até onde se sabia só havia duas pessoas na casa: Sr. Benedito e seu fiel escudeiro, o mordomo Clau Versalhes. Como os dois foram mortos? Após serem levados, a multidão de gente que conhecia o velho e seu escudeiro já fazia especulações a respeito do relacionamento dúbio entre os dois.
- Foi um crime homofóbico. - dizia uma senhora. Desde que moro aqui nunca vi Benedito com uma mulher sequer. E depois que ele contratou Arthur para ler um tal livro pra ele, ficou mais recluso ainda, abandonado o hábito de ir à Biblioteca Municipal e até de ir à Igreja.
- Mas e o Claus? Onde fica nesta história? Isso tá me parecendo muito estranho. Se Benedito tinha ou não um relacionamento,  como se explica a permanência de Arthur na casa? - Falava outra vizinha.
- Talvez não seja nada disso, pessoal. Vocês tem uma imaginação e tanto.  - Defendeu um dos vizinhos. - Benedito Richeliou era rico, todo mundo sabe. Ele estava sujeito a assaltos, roubos e sequestros. Alguém pode ter entrado na casa e ter causado esta tragédia. E outra, ainda nem se sabe de quem são os corpos que foram para o necrotério. Portanto qualquer comentário de vocês será uma tolice.
- Nada tira da minha cabeça que aqueles dois corpos eram do velho Benedito e do seu mordomo devasso.
- Pois pra mim, um daqueles corpos pode não ser do Richeliou...
- Você está sabendo de alguma coisa Ethan?
- Não sei nada não, senhora. Apenas acho desnecessário estes comentários neste momento difícil para nós, vizinhos.

Afinal, de quem era os corpos que saíra da casa? Porque a polícia fazia tamanho mistério em não querer mostrar os corpos?  Para sabermos o que aconteceu, vamos ter que retornar àquela semana onde Arthur é contratado para ler o clássico Crime e Castigo.
No dia marcado, Arthur compareceu empolgado para começar a leitura do livro para aquele senhor que dizia já não poder enxergar as letras nitidamente. Todos os dias, os dois se ficavam por horas no escritório do Sr. Benedito.
No decorrer dos dias de leitura, o já ancião e experiente Benedito notou em Arthur a possibilidade de realizar um desejo antigo desde que chegara naquele cidade. Era com a leitura do livro que ele iria concretizar todos os seus planos.
A partir do dia em que Arthur entrou para aquela casa a rotina e o tratamento de Benedito para com o mordomo Claus mudou radicalmente. Quais os planos de Benedito? E os de Arthur, que aceitara aquele emprego com tamanha determinação.

Arthur, já cansado dos assédios do patrão, pensou: "Hoje eu mato este velho! Hoje é o dia! O dia em que Raskólnikov sai das folhas da ficção para a realidade!"
Benedito, saturado da placidez do jovem empregado, calculou: "Não aguento mais! Tem que ser hoje. Já se passaram 26 dias e nada do Arthur demonstrar interesse para o meu plano... Antes que ele descubra tudo para esta cidade, preciso eliminá-lo."
E assim, os dois tinham o mesmo plano: cometer um crime!
Na manhã em que se deu este ocorrido, Benedito acordou cedo e preparou o ambiente no escritório para o momento final. Arthur já arquitetara tudo. Mataria o velho no momento em que estivesse a sós com ele no escritório. Qual dos dois realizaria o plano?

Depois de um certo tempo,  notando a total falta de conversa que era costume no escritório, Claus olhou por um pequeno orifício da porta o que estava acontecendo dentro do recinto. Claus esbugalhou os olhos e viu Benedito deitado no chão do escritório e Arthur sobre seu pescoço. Minutos depois, depois de fazer um telefonema, o mordomo irrompeu a sala gritando: "Chamei a polícia, Arthur. Você vai ser preso!"
Vendo seu plano ir por água abaixo, Arthur soltou Benedito e saiu correndo em direção a porta quando 2 tiros lhe atingiram sob os gritos de Claus: "Benedito! Não faça isso!"
Arthur ainda pode olhar para trás e ver Benedito abraçando seu mordomo Claus e o barulho de mais tiros. Seus sentidos falhavam, mas ele tinha certeza do que estava acontecendo:  alguém estava sendo morto ali naquela saleta. 

Quase uma hora depois, quando a polícia chegou, ninguém conseguia entender o acontecimento. 
- Arthur morto? Quem diria! - Proferiu um policial.
- Cabo Rabel, veja só quem também está morto aqui.
- Oh, meu Deus! Não estou entendendo mais nada... - Disse o oficial.

Atrás da mesa do escritório estava morto o fiel mordomo do Sr. Benedito: Clau Versalhes. Depois de uma longa procura pelo ancião da casa, ficavam dúvidas para a polícia local descobrir: Qual a explicação para a  arma encontrada no bolso de Arthur? E o vidro de veneno no paletó de Claus? Porque Benedito matou os dois jovens? Como ele desapareceu? A polícia teria que dar uma resposta a todos estes questionamentos.
Benedito, que de bom só tinha o nome, soube vencer a luta com Arthur, que de artimanha só possuía o nome também. Nenhum dos dois concretizara o plano. Mas Benedito, em algum lugar bem perto de sua casa, ria de todos...

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Os contos anteriores que dão início a história do Sr. Benedito encontram-se aqui (primeiro capítulo) e aqui (segundo capítulo).
A continuação desta série de contos será divulgada em "No Necrotério".

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