terça-feira, 5 de junho de 2012

[Contos Urbanos] No escritório (Parte 1)

Atenção.
Para melhor compreensão deste conto, leia Prelúdio dessa história está aqui.

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No escritório

Ao chegar em casa com o volumoso livro que acabara de comprar, seu Benedito afastou de cima da mesa alguns papeis, colocou a publicação antiquíssima cuidadosamente entre panos e escreveu alguma coisa numa caderneta.
Ligou para o jornal local e ditou o aviso que redigira.

“Procura-se um jovem leitor que disponha de tempo para dedicar horas à leitura do livro Crime e Castigo para um senhor idoso e debilitado. Por favor, os interessados procurem o senhor Benedito na rua Donalsdon, número 835”

Tão rápido o aviso foi posto no jornal local, como tão rápido foi a chegada do primeiro candidato ao posto de leitor. Era inédito naquela pacata cidade alguém ser pago para ler. Mas como veremos, não era por prazer que o jovem leria para o ancião...

- Bom dia, Sr. Benedito. Chamo-me Arthur. Vi o aviso no jornal que o senhor...
- Oh. Você é o primeiro rapaz que aparece. Está mesmo com muita vontade de ler, hein?
- haha. Sim. A propósito, onde está o livro? Quando quer começar a escutar a história do Raskólnikov? Onde acha melhor, aqui na sala, no escritório...
- Calma, meu jovem. Calma. Ainda preciso fazer com você um teste. Preciso saber qual o seu ritmo de leitura, a sua tonalidade. O que acha?
- Ah, sim. É conveniente. Vamos lá, então.

No escritório, enquanto fazia o teste, Arhur realizava uma análise atenta do seu interior, olhou atentamente a escadaria, os móveis antigos, a escrivaninha e as estantes preenchidas por edições e coleções de livros velhos que ocupavam boa parte do cômodo. Em seu pensamento, Arthur calculava quanto o velhinho já gastara em livros e fazia também os seus planos, caso fosse ocontratado.

- Bem, como estou apressado para conhecer a história e você não tem problemas ao ler, será você mesmo o contratado.
- Fico feliz por ter me selecionado mesmo sem conhecer os futuros candidatos.
- Gostei de sua disposição, meu jovem.

Não estaria o Sr. Benedito sendo muito precipitado em contratar o primeiro interessado? Por que não esperar mais algum tempo para analisar os perdidos candidatos ao cargo de leitor de Crime e castigo? Seu Benedito viu em Arthur algo que poderia ajudá-lo a cumprir seu objetivo. E era por isso que ele contratou tão rapidamente o jovem de apenas 22 anos.

- Então, até amanhã, Ar... Arthemi...
- Arthur!
- Ah, sim. É Arthur! Bem. Espero-lhe amanhã às 8:00 para tomarmos café e começarmos a leitura.
- Será um prazer. Até amanhã, seu Benedito.

Nesta mesma manhã, corria pela cidadela boatos do inédito aviso posto no jornal. Houve aqueles que acharam curioso alguém contratar uma pessoa para ler um livro. Outros já acharam a iniciativa positiva e já pensavam também em negociar com alguém para fazer companhia junto a um parente já esquecido ou ainda para aqueles que na solidão precisam estar junto de uma pessoa. E o livro, era claro, a melhor companhia.

- Que absurdo! Um jovem como Arthur receber um dinheirão do velhote somente para ler um livro?! Logo ele, que nunca quis nada na vida, nem na escola. Como seu Benedito ousou assalariar aquele malandro? – Dizia um passante na rua para seu acompanhante.
- Decerto ele não conhece a índole do rapaz, ora. – Respondia o outro.
- Pois alguém tem que avisá-lo a tempo. Arthur tem artimanhas. Não é a toa que ele foi o primeiro a responder o aviso do jornal. – Continuava o passante.
- Deixe disso! Pode ser que Arthur realmente esteja querendo compensar suas malandragens com um pouco de bondade lendo para o seu Benedito.
- Se Benedito Richeliou fosse pobre, eu acreditaria. Mas sabendo de sua riqueza e dos atos praticados por aquele rapaz, eu não tenho tanta certeza disso.

Em poucas horas, a cidade estava em burburinhos com o acontecido. Cidade pequena, povinho levado a comentar sobre a vida alheia até que alguém ligou para a mansão Richeliou e lembrou seu Bendito sobre o comportamento do rapaz.

- Não se preocupe. Eu agradeço pelo seu interesse em me avisar ou me prevenir. Mas eu sei o que estou fazendo. Acredito que a leitura pode transformar as pessoas. Vamos dar uma chance pra ele. – Respondeu seu Benedito, que após desligar o telefone, sentou-se na poltrona, pôs-se a massagear o livro e refletir sobre seus planos...

Aos 68 anos, Benedito tinha a esperteza do mundo e tinha consciência dos seus atos, pois ele, assim como Arthur, também tinha planos. Planos que poderiam definir o futuro dos dois, mas um deles de forma trágica.


(Não perca na  próxima crônica urbana: "No escritório - Parte 2" )

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