sábado, 28 de abril de 2012

"A brevidade de uma vida transmutada em poucas páginas"


Puxe uma cadeira, sente-se e ouça as histórias costuradas de duas mulheres...
É nisso que se resume o livro "AS PRECES SÃO IMUTÁVEIS" (Sá Editora, Tradução de Marco Syrayama, 182 páginas,  R$ 33,00). A Segunda Guerra Mundial tem servido de fonte de inspiração para muitas músicas, cinema e literatura e é importante frisar bem aqui, inspiração com muito drama... E é esse um dos temas tratados no livro, onde o escritor Tuna Kiremitçi escreve de forma peculiar a vida sofrida de duas mulheres.
Após ver estampado em um jornal o anúncio "Procura-se alguém que saiba turco" a jovem estudante turca Pelin, decide atender o pedido da senhora octogenária Rosella Galante para conversar em turco, pois receosa de esquecer a língua, teme também esquecer a sua história. Então, a proposta de emprego da senhora é simples: conversar em turco... 
Assim, Pelin é introduzida na casa e na vida de Rosella Galante. Rosella é uma senhora que no período da Segunda Guerra Mundial refugiou-se em Istambul, sendo separada de seu marido. No tempo em que se dá o diálogo entre as duas, a senhora já está vivendo numa capital europeia. Todas as quinta-feira, a jovem desloca-se de seu apartamento (onde divide com uma chata companheira) para a  residência da velhinha, a fim de interagir em turco. Se no início do livro, a jovem é tímida, no decorrer das conversas é ela quem vai fazendo mais interrogações à experiente Rosella. Esta, vai contando a outra suas histórias, dramas, vicissitudes e contrariedades que a vida lhe impôs. Apesar do contraste das gerações, acompanhamos o desenvolver de uma amizade profunda e sincera entra as duas pessoas que compartilham fatos da vida e descobrem ter muitas semelhanças. 
As duas mulheres conversam sobre os variados assuntos: música (sobretudo rock), literatura, política, amor e sexo, claro.

À maneira de Penélope, personagem do clássico "A Odisséia", as duas personagens de "As preces são imutáveis" fazem de cada capítulo um retalho para compor toda a história de ambas, pois uma delas sempre deixa para o encontro seguinte o término da história. É dessa forma que o autor do livro prende a atenção do leitor.
Tuna Kiremitçi nos 20 capítulos não dá vazão a sequer uma descrição de lugar ou narrador onisciente ou qualquer outro tipo. Parece texto teatral ou mais precisamente uma peça com dois personagens. Há somente duas pessoas que falam: Rosella e Pelin. TODAS as outras personagens e falas destes são reproduzidas pelas duas interlocutoras. De forma quase teatral, o texto do escritor turco é sintético e sensível, desprovido de descrições ou narrações enfadonhas, como você pode perceber nesse trecho:

- A senhora está bem?
- Não sei.
- Deite-se no sofá, se quiser.                                   
- Sim, é melhor. Se você não se importar.
- Seu rosto está pálido. Devo chamar um médico?
- Ainda não.
- O que estamos esperando, senhora Rosella?
- Não precisa entrar em pânico... Talvez se eu me deitar um pouco... Tive uma semana difícil... Conheço os sintomas, mas é a
a primeira vez que eles atacam de uma vez, de uma forma tão organizada.
- Porque não avisou?
- Você não poderia ter feito nada se eu tivesse avisado... Você pode deter o tempo? Você pode achar um remédio para a velhice?
- Não, mas posso segurar suas mãos. Assim...
- Você é um verdadeiro anjo.
- Imagina.

As seções das duas é interrompida certo dia quando Rosella deixa uma carta à Pelin. É aqui onde eu achei que o final poderia ser melhor, achei-o inconcluso e aberto a diversas interpretações, pois eu esperava que o escritor Tuna Kiremitçi fosse mostrar a reconciliação da jovem Pelin com sua família ou descrever mais sobre o desenrolar da história familiar de Rosella.
Em "As preces são imutáveis" você acredita que não existe limite para o amor (como de fato não existe mesmo), o perdão ou qualquer outro sentimento bom e humano.
O livro, que foi traduzido diretamente do turco para o português por Marco Syrayama de Pinto é o primeiro da literatura turca moderna que estreia o selo editorial Gesto Literários da Sá Editora.
O que faz do livro "As preces são imutáveis" ser tão simpático e atraente é a forma como as belas histórias são contadas para nós, leitores. É quase impossível não resistir ao chamado de puxar a cadeira ou sentar-se no sofá da casa de Rosella para escutar as suas conversações com Pelin. Fácil é aceitar o convite. Difícil é esquecer as histórias...

SOBRE O AUTOR:
Publicou seus primeiros textos pela revista Varlk, quando ainda cursava o ensino secundário. Seu livro de poesia Ayabakanlar(Adoradores da lua), ganhador do Prêmio Yazar Nabi Nayir, foi publicado em 1994. Em 1997 dividiu o Prêmio Erguvan Balkan com o escritor bósnio Izzet Saraylic. Um segundo livro de poesias, Akademi (Academia), veio à luz em 1998. O primeiro romance, Git Kendini Çok Sevdirmeden (Parta antes que eu morra), de 2002, despertou grande entusiasmo e tornou-o uma estrela dos acontecimentos literários no Leste Europeu. Bu sate Bir Yalnizlik Var (Caminho da solidão) e Bazi saiirler Bazi sçarkilar (Alguns poemas, algumas canções) foram publicados em 2003. Publicou ainda Yolda Üç Kisi (Três na estrada) e As,K. Neyin Kisaltmasi?(O que é A.M.O.R.?), em 2005. Premiado pela produção de curtas, também assina colunas em revistas. Gravou um CD de ethnic rock, com o grupo Kumdan Kaleler (Castelos de areia) e um álbum solo (Denize Dogru / Olhando o mar) como compositor e solista. É casado e pai de um menino.


Leia aqui a entrevista que o autor deu à Folha.

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