sexta-feira, 9 de março de 2012

[Contos Urbanos] No Antiquário

No Antiquário

Saiu de casa com um propósito: naquele dia ele iria comprar o objeto que lhe fizera passar noites sonhando, afinal, passara meses imaginando a tal compra. Pegou sua bengala, pôs o chapéu e caminhou ansiosamente até a loja de objetos antigos da pequena cidade. Cumprimentou a moça do balcão e falou:
 - Vim comprar o...
- Ah, sei qual, é Sr. Benedito! O senhor vem toda semana aqui olhar e com certeza hoje vai levá-lo, não é?
- Sim. Mas antes gostaria de dar mais uma olhada nele.
-Claro. Vamos até ele.

No corredor, ele foi observando os inúmeros objetos antigos: luminárias, lustres, poltronas clássicas, baús, móveis Luis XVI, pinturas rococó, esculturas barrocas, papiros, louças chinesas, decorativos em porcelana, máquinas, telefones, e outros objetos que iam lhe deixando fascinado. Porque ele não desejava aqueles outros itens? Porque ansiava por algo tão pequeno? Chegaram até o seu sonho de consumo. Ele estava dentro de uma maletinha prateada, interiormente forrada com um veludo vermelho.
- Posso pegar?
- Claro, Sr. Benedito.
- Mas creio que antes devo purificar minhas mãos para pegar em um objeto tão, tão...
Ela gargalhou como se fosse uma pilhéria.
- Há uma pia aqui do lado. Lave suas mãos e enxugue-as com esta toalhinha.
- Oh, obrigado! Você é muito gentil.
Depois do ritual de limpeza das mãos, exclamou:
- Quanto eu sonhei com isso! Quanto!
E ficou longo tempo admirando. Em êxtase dirigiu-se para o espelho do lado, colocou-o na altura do ombro, depois sobre o peito e olhou apaixonadamente a imagem refletida.
- A capa é...
- É de autorrelevo em ouro, senhor.
- Quando ele foi produzido?
- Em 1866.
- Dia desses a senhorita me falou que foi uma edição especial limitada.
- Sim.
- E quantos donos ele teve?
- Segundo consta em nossos registros, ele só passou por 3 mãos. Era item de colecionador da tradicional família Münchausen e foi vendido para o dono deste antiquário.
Depois de muito massagear o objeto, falou.
- Agora devo acertar o preço.
A moça riu novamente, acompanhou-o até o caixa, que também era um modelo antigo, contabilizou o produto, recebeu o dinheiro, deu o troco e um grande sorriso e falou delicadamente:
- Tenha um bom dia Sr. Benedito e boa leitura!

O tal objeto era um denso volume do clássico Crime e Castigo...

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