domingo, 31 de julho de 2016

O Pêndulo de Foucault: um romance labiríntico e hermético

Umberto Eco poderia em bem menos página contar a história de como três personagens resolvem por em prática um plano, mas aí o leitor perderia um leque de informações úteis para compreender melhor na história e nela adentrá-la.
Umberto Eco foi ficcionista e um grande intelectual preocupado com a função artística, bem como o "fazer literário". Dessa forma, muito daquilo teorizado por ele em obras como "Interpretação e Superinterpretação", "Obra aberta" ou ainda "Lector in fábula", ele aplica em O Pêndulo de Foucault  (Il Pendolo di Foucault, Trad. Ivo Barroso, 672 páginas, R$ 58,00)  as suas teorias.
O livro aqui analisado foi lançado em 1988, sendo quase imediatamente traduzido para várias línguas e alcançando um enorme sucesso e influenciando uma geração de outros escritores, uma vez que o livro enveredou por uma linha de romances denominada policial místico-religioso, na qual também foi cultivada por Conan Doyle, Agatha Christie, Raymond Chandler e, mais recentemente, o tão polêmico Dan Brown.

Segundo Fernanda Massi (2015, p.117), 

o romance policial místico-religiosa funda-se na ocultação/ vs./ revelação/ que se manifesta no nível fundamental do percurso gerativo do sentido. Essas duas categorias, / ocultação/ e/ revelação/, se relacionam tanto a um segredo místico-religioso protegido por uma sociedade fechada - geralmente uma instituição religiosa - quanto ao segredo sobre a identidade do criminoso.

É justamente fundamentado nesse pórtico literário que Eco vai desenvolver uma história que perpassa quase 700 páginas e inebria o leitor em aventura e muito, muito, mas muito mistério em torno de misticismo.
A começar pela estrutura do romance,  o qual possui referência à Cabala por estar divido nas 10 sephiroth dela. E é nesta divisão das sephirots que iremos discorrer esta resenha.
 Ao final teceremos alguns comentários sobre a edição, tradução e aspectos gerais.

1. KETER
É a primeira sephirot da árvore da vida e representa a manifestação do divino, o início, origem, algo como o Big Bang.
No início do livro temos o personagem Casaubon tenso e misterioso a observar os antiquários no Conservatoire de Paris.  Aqui acompanhamos as reflexões do personagem sobre a imobilidade do pêndulo de Foucault, construção onde o personagem está inserido e esperando algo aparecer, mas que ainda não sabemos.
Seguindo as pistas do seu amigo Jacopo Belbo, ficamos sabendo que os amigos encontram-se em apuros. A partir daqui temos os flash backs que vão nos contar como tudo foi parar ali, no Museu de Arts de Paris.

2. HOKMAH
A segunda sephirot, cujo significado remete à sapiência, sabedoria e

inicia com os flash backs.  Da década de 80 voltamos para maio de 1968, quando Casaubon, ainda um acadêmico, frequentava o famoso bar Pilade, onde jovens universitários e intelectuais de esquerda costumavam se divertir. Ali, Casaubon, que tinha o intuito de escrever sua tese acerca dos Templários, conhece Jacopo Belbo, do qual fica amigo e logo vira companheiro. 
O personagem Jacopo Belbo desempenha um papel muito importante na narrativa, uma vez que é por meio de seus filename (nome que ele dá aos arquivos deixados em seu computador pessoal, chamado carinhosamente de Ambulafia) que conhecemos histórias e outros dados importantes para compreendermos a narrativa.
Belbo faz parte da equipe de redatores da Editora Garamond. Ele é o intermédio para que Casaubon entre para a equipe composta ainda pelo personagem secundário (e diga-se de passagem, dispensável) Diotallevi. Os três iniciam uma pesquisa cheia de hipóteses que irá desaguar na criação de um plano. É aqui que começa o emaranhado de informações, histórias e mistérios que colocam o leitor num verdadeiro quebra-cabeças.

3. BINAH

A sephirot do entendimento. Nela dá-se de forma gradual o acesso de Casaubon ao ambulafia de Belbo.
Belbo é ao mesmo tempo um personagem engraçado e melancólico, mas muito sábio. Ele faz muitas referências e junto com a equipe da editora, ele aprimora as obras que chegam até eles. Nesta parte do romance ficamos sabendo da longa história dos templários e do graal, fontes de mistério que alimentam os personagens.

4. HESED

        A quarta parte do romance, simbolizada pela sephirot Hesed significa a misericórdia, que emana amor.
Quando os redatores e o dono da Editora acolhem Ardenti, que deseja publicar textos sobre os Templários, Casaubon vê a oportunidade de comungar seus objetivos. Ardenti então expõe ideias excêntricas que, inicialmente, não convence o trio, mas logo depois eles se rendem. E justamente quando os três começam a acreditar que o misterioso Ardenti desaparece. Com isso, eles intentam investigar e para tanto, criam “O Plano”, fio condutor do restante da história.
        Mas fugindo dos equívocos da Europa, Casaubon viaja para o Brasil por amor a Amparo, sua namorada e em terras brasileiras ele passa 10 anos. Fica na Europa o mistério do desaparecimento Ardenti. Em meio a rituais de umbanda, axés, agôgôs, xamanismo, pomba-gira, possessão e outros elementos da cultura afro-brasileira, Casaubn vê-se numa atmosfera surreal, numa mistura de cultura que o fazem ora imaginar um sonho, ora uma realidade.
        Por meio de amigos de Amparo, Casaubon conhece Aglié, outro senhorzinho um tanto misterioso, pois segundo ele, seria a própria reencarnação de Cagliostro. Depois de uma série de acontecimentos, de modo frustrante, Casaubon deixa Amparo e retorna para a Europa, onde havia deixado os mistérios.

5. GEBURAH

A Sephiroth do julgamento.
        Ao retornar para Milão, Casaubon inicia com seus amigos mais uma série de investigações cada vez mais exímias. Depois de 10 anos, ele percebe como as convicções políticas, a cultura e os frequentadores do Pilades mudaram.
        Curiosamente, enquanto os personagens intentam desenvolver o seu plano, por meio de pesquisas que sirvam para a publicação de um livro que contará a história dos metais, são feitas curiosas revelações por meio do editor da Garamond e do selo editorial Manuzio, de como são extorquidos os recursos de autores iniciantes. Para ele, o nome Autores à Própria Custa – APC são boas fontes de lucro para a editora. Aqui ficamos sabendo velhos poderes do mercado editorial.
        O plano criado pelos redatores e o editor, logo, seria publicado na coleção “Isis Revelada”, parte do objetivo da Manuzio de publicar livros com temas exotéricos e misteriosos, uma vez que são temas de grande vendagem.
        A companheira de Belbo, Lorenza Pellegrini desperta grande atenção por sua beleza, sedução e poder de convencimento. Casaubon, inclusive, quase deixa-se seduzir por esta musa. Mas logo envolve-se em relacionamento com Lia, o oposto de Lorenza. Lia é racional e não se envolve no plano do marido e seus amigos.

6. TIFERET

        Nesta parte representada pela sexta sephiroth que simboliza beleza, acompanhamos o desenrolar do Plano e as pesquisas infinitas dos redatores, bem como as inúmeras criações mirabolantes que surgem de suas cabeças a fim de comprovar suas ideias. São anagramas, gráficos, manuscritos originais e outros elementos que fazem parte disso.
        Aqui Eco aproveita para aprofundar a história dos templários pela velha Europa. Temas como maçonaria, jesuítas, bruxaria, Baphomet, Cabala, Rosa-Cruzes e outras ciências ocultas são comuns, assim como também os assassinos de personagens históricos. Os redatores conseguem, inclusive (pasmem) fazer alusões dessas seitas com o Holocausto promovido por Hitler. Com isso, os redatores querem mostrar como essas sociedades secretas dominaram o mundo por muito tempo.

7. NIZAH

        Nesta sephiroth que simboliza vitória acompanhamos as reflexões de Belbo deixadas em seus filenames. Acompanhamos também o desenrolar da trama criada pelos redatores que despertou raiva da Sociedade Secreta chamada TRES, que receando que o suposto segredo descoberto pelos redatores fossem revelados, tratam de se buscar esconder o mais breve possível.
        Aqui vemos como Diotallevi torna-se, com o tempo, meio recluso e vai distanciando-se da concretização do plano, já que adquiriu um câncer. Casaubon, com o seu espirito investigativo lê os arquivos de Belbo. Nesses arquivos Belbo deixou registrado aonde estava indo, pois com as recentes ligações misterioras, Belbo foi chamado (quase que de modo compulsório) para ir ao Conservatoire des Arts des Métiers, em Paris.
        Neste momento da narrativa, com ajuda de Lia, a companheira de Casaubon, ele da-se conta que os autores do Plano estão sendo perseguidos e que a criação do plano e suas histórias pode ter sido um grande embuste.
        Seguindo as pistas de Belbo, Casaubon vai até Paris. No Conservatoire ele fica à espera dos membros de uma sociedade secreta e, enquanto isso, observa e reflete acerca dos objetos e peças antigas do Museu.

8. HOD

        A sephiroth do esplendor traz o ápice da narrativa. Belbo e sua querida Lorenza são forçados a participar de um ritual de sacrifício. Os antigos amigos, inclusive os desaparecidos há muito, aparecem na cerimonia como pertencentes à sociedade secreta que almeja eliminar os sábios que supostamente haviam revelado o segredo.
        Depois de assistir tudo escondido, Casaubon consegue fugir pelos esgotos de Paris. Porém, uma série de alucinações começam a lhe perseguir. Ele fica paranoico.

9. JESOD

        Na sephiroth do fundamento, Casaubon percebe que foi um grande equivoco criar um Plano com base em ideias, hipóteses mirabolantes e interpretações surreais de textos antigos. Fugindo da sociedade TRES, Casaubon refugia-se nos montes, na casa de Belbo e além de ler os outros filenames de Belbo, começa a escrever tudo a fim de que tudo fique registrado caso ele seja o próximo a ser capturado pela sociedade.

10. MALKUT

        A última sephiroth da arvore da vida simboliza o reino. E aqui o reino de Casaubon é a solidão e o exílio. Com um final poético e incrível Eco dá a entender que a imaginação pode tornar-se realidade. É triste acompanhar o fim de cada um, mas é o desenrolar de seus destinos que dá um caráter coerente à narrativa criada genialmente por Umberto Eco.

O curioso é que boa parte da narrativa corresponde a mistérios e curiosidades históricas que, de modo enciclopédico, ficamos a saber de fatos que despertam nosso entendimento.
Eco soube dosar muito bem Historia e ficção, tratando muito bem de referenciar os fatos. Prova disso são as inúmeras epigrafes que ilustram os capítulos.
        Foi difícil passar quase 2 meses lendo um livro e se apegar a personagens que cativam de tão reais. Um livro indicado para todos os fãs de Dan Brown e afins. Para estudantes de letras este livro é um gozo literário. Não a toa, o livro é considerado o “código da Vinci” dos intelectuais. Com uma ferrenha polêmica que envolve Dan Brow, Eco afirmou que o inventou.
        Eco brinca com o leitor, usa símbolos e nos presenteia com criações incríveis. Não é a toa que a sua influencia recorre a literatura até hoje. Foi-se os personagens e foi-se embora mais recentemente o seu criador. Ficou para nós uma obra magistralmente escrita, fonte de conhecimento e diversão por um bom tempo.
Com uma nova capa de encher os olhos e mais coerente com a narrativa, a Editora Record ainda brinda o leitor brasileiro com essa edição de capa soft touch. A única ressalva que faço é a ausência de um prefácio ou posfácio para esse clássico do Eco que por muito tempo ainda ecoa em nossa mente.



SOBRE O AUTOR: 
Umberto Eco nasceu em Alexandria, Itália, em 1932. É semiólogo, professor, escritor. Entre suas obras ensaísticas destacam-se: Kant e o ornitorrinco (1997), Sobre a literatura (2002). Entre suas coletâneas, ressaltam-se: Diário mínimo (1963), O segundo diário mínimo (1990), com uma primeira antologia de textos publicados na seção La Bustina di Minerva da revista L’Espresso, Cinco escritos morais (1997) e La Bustina di Minerva (2000). Em 1980 estreou na ficção com O nome da rosa(Prêmio Strega 1981), seguido por O pêndulo de Foucault (1988); A ilha do dia anterior (1994);Baudolino (2000) e A misteriosa chama da rainha Loana (2004). Também é autor de História da beleza (2004), História da feiura (2007) e Não contem com o fim do livro (2010).


Fontes:

Editora Record: http://www.record.com.br/livro_sinopse.asp?id_livro=24093
Skoob: https://www.skoob.com.br/livro/resenhas/2423/edicao:3198
Aum Magic: http://aumagic.blogspot.com.br/2014/03/cabala-mistica-arvore-da-vidasephirot.html

Referências:

Eco, Umberto. O pêndulo de Foucault. Tradução de Ivo Barroso. 16 ed. Rio de Janeiro: Record, 2016
MASSI, Fernanda. O romance policial místico-religioso. 1 ed. São Paulo: Ed. Unesp Digital, 2015, Acessado em 28 de julho de 2016, Disponível em file:///C:/Users/asuspc/Downloads/Romance%20policial%20m%C3%ADstico-religioso,%20O.pdf





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