quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Crônicas de uma sociedade líquida, por Umberto Eco (ou Pape Satàn Aleppe)


Autor profícuo de livros de ficção, como o monumental O pêndulo de Foucault, ou ainda O Nome da Rosa, Umberto Eco também empreendeu estudos teóricos a respeito da teoria da literatura, língua e semiótica. Colunista de vários jornais e revistas, Eco sentia-se confortável opinando sobre vários assuntos em sua coluna, na qual comentava sobre absolutamente tudo: de livromms a programas popularescos de televisão italiana. Fruto dessas crônicas, o livro Pape Satàn Aleppe reúne muitas delas e divide-se em partes: (citar as partes).
Este mais recente livro compila 178 crônicas, espalhadas em 14 capítulos. Embora pouco inéditas, já que a maioria foram escritas no período de 15 anos (2000-2015), enquanto escrevia para a coluna La Bustina de Minerva, do jornal italino Espresso, elas contém em si o espírito crítico e bem-humorado tão característico a Eco.
A expressão intrigante do título do livro de Eco é de Dante, outro italiano que escreveu uma obra importante para a literatura ocidental, mas especificamente 
A Divina Comédia. Dela, uma frase tornou-se mundialmente famosa: Pape Satàn Aleppe, dita quando Pluto ao entrar no Inferno e que até hoje intriga filólogos, linguistas e tradutores, na busca de um significado exato para tal expressão. Mas algumas edições críticas da obra apontam que ela pode significar “Pare, esta é a porta de Satanás!”, ou ainda “Oh, Satanás, ai de mim”. Assim, diante de confusão em torno do título, o próprio autor comenta:
“A citação é evidentemente dantesca (“Pape Satàn, pape Satàn aleppe, Iwnferno, VII, 1), mas como se sabe, embora uma profusão de comentaristas tenha tentado encontrar um sentido para o verso, a maior parte deles concluiu que não tem nenhum significado preciso. Em todo caso, pronunciadas por Plutão, estas palavras confundem as ideias e podem se prestar a qualquer diabrura. Achei, portanto, oportuno usá-las como título desta coletânea que, menos por culpa minha do que por culpa dos tempos, é desconexa, vai do galo ao asno — como diriam os franceses — e reflete a natureza líquida destes quinze anos. ”
O significado da frase, que intriga até quem estude Dante, provocou inúmeras interpretações. Mas o próprio Eco diz que a frase é "suficientemente 'líquida' para caracterizar a confusão de nosso tempo". É exatamente este caráter misterioso da frase que dá ao livro uma expressão curiosa: Qualquer sentido que se dê a este mundo cheio de tecnologia, alienação da mídia, comunicação incompreendida, parece conveniente à escolha do livro. Afinal, são tempos em que a sociedade “líquida”, no dizer do autor, passa por uma fase de incompreensão.

De todo modo, o imbróglio ao redor da frase gera teorias e discussões que estão longe de abarcar a complexidade da obra Dantesca, passando, pois, a significar um aglomerado de assuntos complexos de entender, discutir, consenso. Umberto Eco toma a expressão para intitular seu livro, que foi publicado aqui no Brasil postumamente, mas coloca como subtítulo “Crônicas de uma sociedade liquida”, que evidentemente traz uma ligação direta com a teoria do sociólogo polonês Zygmunt Bauman e suas ideias a respeito de modernidade liquida, sociedade líquida, amores líquidos, vida líquida e afins. Para Bauman, a sociedade líquida afeta a todos nós, ela vem junto com uma crise ideológica muito forte que enfraquece inclusive os valores individuais e coletivos.

No prefácio de Pape Satàn Aleppe, Umberto Eco esclarece sobre essa imprecisão dos pesquisadores em torno da frase. Já que não há consenso, que permaneça obscura e confusa, como a sociedade atual, tão moderna e tão líquida, como reflete Eco em suas crônicas que falam desde os mass mídia até Harry Potter, ou ainda, da crise da adolescência, mas também são crônicas que tratam proeminentemente da crise social que vivemos nos tempos líquidos nos quais vivemos, nas situações e conflitos. Os textos, sejam eles sobre filosofia, literatura, feminismo, política, ou racismo, redes sociais, twitter, caligrafia, 11 de setembro, nos levam até aquilo que o subtítulo do livro enfoca: são apenas CRÔNICAS de uma sociedade líquida.
Não é porque as crônicas foram escritas em um jornal italiano que elas retratem apenas o público daquele país. Não mesmo. Da era dos templários, situações políticas, crises ideológicas, redes sociais, obsessão política, relações americanas à programas da TV aberta, Eco parece não poupar nem mesmo a própria literatura que lê, quando por exemplo, fala dos livros lidos. São tempos líquidos, onde tudo rui, todo império rui, nada dura, nem mesmo as instituições. E é disso que o autor trata nas crônicas que nos convida a refletir sobre a vida real/virtual, pois se antes os néscios não eram tão evidentes, em tempos de network tudo se amplifica. Se Dante dizia Satàn pape Aleppe em A Divina Comédia. E continuamos a repetir ainda hoje: Satàn, pape Aleppe.

Algumas crônicas, em particular a “O prazer de delongar-se” parece ser uma resposta ou reação do escritor a algum comentário/entrevista realizado anteriormente por ele. A sociedade líquida que Eco quer retratar é uma sociedade que se preocupa excessivamente com redes sociais, individualista e sem referência.
Em suma, o livro é literalmente um banho de cultura e intelectualidade.  Eco tem uma excelente memória e não nos deixa esquecer por exemplo as diferenças de raças e conflitos mundiais, pois ambos são temas muito bem retratados. Suas críticas ao mal que a TV pode fazer ao ser humano são compostas de inúmeros fundamentos, inclusive ele exemplifica a falha e crise da comunicação, a era do rádio e o poder da imprensa, sua (des) ou informação ou ainda até alienação. É um livro que faz jus ao nome que o intitula.

SOBRE O AUTOR

Reconhecido como um dos mais importantes escritores e pensadores dos últimos tempos, Umberto Eco (1932-2016) foi filósofo, semiólogo, crítico literário e professor de semiologia na Universidade de Bolonha. Vítima de cancro, Eco faleceu na sua casa em Milão na noite de sexta-feira aos 84 anos. Era conhecido mundialmente pelo seu romance "O Nome da Rosa", que vendeu milhões de exemplares e foi traduzido a 43 idiomas. Umberto Eco nasceu em Alexandria, Itália, em 1932. É semiólogo, professor, escritor. Entre suas obras ensaísticas destacam-se: Kant e o ornitorrinco (1997), Sobre a literatura (2002). Entre suas coletâneas, ressaltam-se: Diário mínimo (1963), O segundo diário mínimo (1990), com uma primeira antologia de textos publicados na seção La Bustina di Minerva da revista L’Espresso, Cinco escritos morais (1997) e La Bustina di Minerva (2000). Em 1980 estreou na ficção com O nome da rosa (Prêmio Strega 1981), seguido por O pêndulo de Foucault (1988); A ilha do dia anterior (1994); Baudolino (2000) e A misteriosa chama da rainha Loana (2004). Também é autor de História da beleza (2004), História da feiura (2007) e Não contem com o fim do livro (2010).

FONTES:
Site da Editora: http://www.record.com.br/autor_sobre.asp?id_autor=541
The Paris Rewiew
Referências bibliográficas
ECO, Umberto. Pape Satàn Aleppe: crônicas de uma sociedade líquida. Editora Record. 2016

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