sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Mais um romance de formação (com misticismo) que nos mostra como a vida é tempestade e calmaria






Demian foi mais um Romance de Formação (1) lido que enriqueceu minha visão de mundo. Considerado pela crítica como uma das obras mais bem acabadas do escritor alemão Herman Hesse, o livro é um divisor de água na sua bibliografia. Publicado em 1919 arrancou elogios de grandes nomes da literatura como Thomas Mann (2). Dez anos depois, o escritor levaria o Nobel de Literatura pelo conjunto de sua obra.



Convém antecipadamente antentar para a curiosa divisão do livro, onde os títulos fazem uma clara referência religiosa: Dois mundos, Caim, O ladrão, Beatrice, A ave sai do ovo, A luta de Jacó, Eva e, por fim, O princípio do fim, concluido com um Posfácio. E no decorre da história vamos descobrir que cada título vai referir-se a um fato ou alguma característica de algum personagem, com o sinal de Caim, por exemplo, que Emil Sinclair vai descobrir que o carrega.
No começo do romance achamos que Emil Sinclair é o personagem que irá determinar a direção de sua história. Nao é à toa que a segunda capa traz como subtítulo "História da Juventudade de Emil Sinclair". Antes do prólogo, há uma frase que irá ser dita pelo personagem principal num momento determinante da história:



"Queria apenas tentar viver aquilo que brotava de mim mesmo. Por que isso me era tão difícil?"

Romance narrado em primeira pessoa pelo personagem Emil Sinclair, que argumenta precisar retroceder na sua história para relatá-la, dissemina uma série de questões filosóficas totalmente influenciadas pelas ideias de C. G. Jung (3).


O ponto de partida para o drama de Sinclair, começa quando ingenuinamente ele conta uma mentira "do bem" para um grupinho de amigos que ele supunha ser aventureiro. O líder do grupo, Franz Kromer, arma então uma chantagem a Sinclair, o menino classe média, ingênuo e pueril. Esse primeiro drama na vida do personagem vai ser determinante para a construção das demais ações que desencadeiam na fase mística do homem Emil Sinclair.

Para o persoagem principal, o mundo tem dois lados, ou melhor, dois mundos: um de trevas e um de luz. O de luz, se revela dentro da sua casa com todos os seus prazeres. O das trevas, aquele além do portão da sua casa. Os pais de Sinclair muito se parecem com os pais superprotetores, como os nossos. É essa superproteção que os pais dão a Sinclair que vai propiciar a sua experimentação do "Outro mundo", além do mundo da luz.

Num momento em que Sinclair vive atormendado pelas perseguições e chantagens de Kromer, eis que aparece o enigmático Max Demian, uma espécie de santidade de ilumina o caminho de Sinclair a partir de então. Demian é um sábio menino que se destaca na sala de aula por ser isolado, misterioso, esclarecido e muito inteligente. Demian então inicia uma amizade ideal com o Sinclair e impede Kromer de perseguí-lo. Com isso, dá-se fim no ciclo do primeiro drama na vida de Sinclair. Sinclair tem uma admiração tão grande por Demian, que as vezes o leitor suspeita de uma herotização fruto da exacerbada admiração:

“Vi o rosto de Demian e vi que já não era apenas o rosto de um rapaz, mas o de um homem feito; vi mais ainda: cri ver ou sentir que não era simplesmente o rosto de um homem, mas também algo distinto. Era como se nele houvesse também algo de um rosto de mulher, e além disso, por um momento, aquele rosto não me pareceu mais nem infantil nem viril, maduro ou jovem, mas de certa maneira milenário; de certo modo, alheio ao tempo, selado por idades diversas da que nós vivemos. Os animais conseguiam apresentar um aspecto semelhante, ou as árvores, as estrelas. Eu não sabia bem; não sentia exatamente àquela época o que agora descrevo, mas algo parecido. Tampouco soube a que ponto a figura de Demian me atraía ou me repelia. Só vi que era distinta da nossa, que era como um animal, como um espírito ou como uma gravura; mas o certo é que era diversa, inefavelmente diversa da de todos nós.” (HESSE, p.70-71)

A fase da adolescência e juventude vão introduzir Sinclair num mundo cheio de figuras místicas. Ao ir para um pensionato em uma outra cidade, Sinclar vai se afastar do amigo Demian e vao ter uma comunicação quase de modo telepático. Aprofunda-se numa melancolia que o leva a solidão do seu quarto. Neste novo lugar, Demian conhece então o músico Pistorius, outro personagem enigmático que vai apresentar a Abraxas (4) à Sinclair. Neste momento em que Sinclair encontra-se angustiado e meio perdido de si mesmo, Pistorius vai ajudar Sinclair a descobrir o seu interior, assim com Demian vinha fazendo com o seu amigo Emil Sinclair. Este, se entrega sem medo ao mundo platônico do amor e à atmosfera mística apresentada por Pistorius. Já quase no fim da história, Sinclair conhece a mãe de Demin, Eva, uma personagem categórica que vai ter uma ligação importante com o sermão que Max Demian e Emil Sinclair tiveram ainda na sala de aula quando eram pequenos.

Para Sinclair, há de haver um rompimento de mundos para que outros mundos nasçam a partir do rompimento. Este misticismo pode ser visto na seguinte passagem do texto:


Do romance à filosofia, do romance de formação à densidade psicológica com que os personagens são tratados, Demian é uma obra prima. Com muitas referências bíblicas, a busca pela própria identidade, reflexões filosóficas, o livro não se limita a uma categoria onde claramente vemos delineado o destino dos personagens. Embora o final não seja promissor, mas totalmente coerente com o que vinha ocorrendo na história, nós, enquanto leitores, ficamos na expectativa de encontrar nas esquinas, nos corredores acadêmicos e escolars um Max Demian ideal para nos orientar diante das adversidades da vida.

Com um novo design incrível e uma diagramação sem falhas, a nova edição da Editora Record desse clássico não se limita à recomendações para jovens estudantes de filosofia. Felizmente temos aqui um livro denso que pode ser indicado para todos, sem distinções. Talvez a única restrição seja as crianças que ainda não tenham tido um contato com um romande de formação tão bem construído.


Sobre o autor: Hermann Hesse (1877 – 1962) nasceu na Alemanha, e naturalizou-se suíço em 1923. Contista, poeta, ensaísta e editor de importantes obras da literatura alemã, o escritor foi um adversário declarado do nazismo, e se posicionou firmemente contra a ascensão desta ditadura por meio de artigos publicados naquela época. Em 1911, viajou para a Índia a fim de conhecer a vida no Extremo Oriente. Em seus textos, Hesse procurou se manter fiel às tradições literárias românticas e clássicas. É autor, entre outros livros, de O jogo das contas de vidro, O lobo da estepe, Sonho de uma flauta e Narciso e Goldmund. Em 1946, Hermann Hesse ganhou o Prêmio Nobel de Literatura.

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(1) Romance de Formação para Lukács: O tema do romance de formação é a reconciliação do indivíduo problemático, guiado pelo ideal vivenciado, com a realidade social concreta. Essa reconciliação não pode nem deve ser uma acomodação ou uma harmonia existente desde o início [...]. Tipo humano e estrutura da ação, portanto, são condicionados aqui pela necessidade formal de que a reconciliação entre interioridade e mundo seja problemática mas possível; de que ela tenha que ser buscada em penosas lutas e descaminhos, mas possa no entanto ser encontrada (LUKÁCS, 2000, p. 138).
(2) Thomas Mann nasceu em Lübeck, na Alemanha. Em 1929, foi premiado com o Nobel de literatura. Quando Hitler tomou o poder, Mann partiu para o exílio, nos Estados Unidos. Retornou à Europa em 1952 e viveu na Suíça até sua morte, em 1955.

(3) C.G. Jung foi psiquiatra e psicanalista suíço, foi fundador da escola analítica da psicologia. Ele viveu de 1875 a 1961.

(4) Abraxa: divindade de características humanas - também capaz de exercer o bem e o mal.

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Fontes:
LUKÁCS, Georg. A teoria do romance. Tradução de José Marcos Mariani de Macedo. São Paulo: Duas Cidades/ 34, 2000.
Site Companhia das Letras/ Grupo Editorial Record / Wikipedia

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