quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Depois de 1945 - Latência como origem do presente - Hans Ulrich Gumbrecht



Não existe, talvez, quem saiba dizer qual o livro mais completo sobre o assunto Segunda Guerra Mundial, visto que o tema, além de amplo, tem rendido pano para muita manga.
Como eu sou um aficionado pelo tema, vivo garimpando nos sites das editoras os livros que abordam tal assunto. E não sem muita dificuldade encontrei mais um que traz em si um peso (não fisicamente), mas com uma grande número de referências científicas.

O livro é Depois de 1945: Latência como Origem do Presente (trad. Ana Isabel Soares, ed. Unesp, R$ 48, 357 págs.). O autor, apesar de ter uma formação acadêmica não deixa transparecer em seu texto algo que nos deixe enfadonho.

É bom ler algo que nos vai apresentando novos fatos e informações que não nos chegam facilmente pelos meios de divulgação.

Alemão de natureza, Gumbrecht propõe em seu livro um rompimento com a
tradição ao relatar os acontecimentos da 2GM de forma pessoal e intimista.
Não que o livro seja uma biografia, mas sua cunhagem tem algo acadêmico, histórico e biográfico, pois o autor não renuncia aos fatos que atingiram sua família no contexto nazista.

O livro não traz um ponto de vista histórico, visto que o autor não é um historiador, mas sim da área de Letras. O que faz com que encontremos na obra uma abordagem mais literária e isso não quer dizer ficcional.
Gumbrecht recorrer a temas literários, da arte, música para associar o tema. E para retratar o homem do pós guerra ele vai nos retratando referências psicanalísticas, filosóficas (para retratar o existencialismo) e outras artes em geral. Importante lembrar que na área filosófica, o existencialismo de Sartre tem um espaço bem peculiar em determinados capítulos do livro.

Mas por que "Depois de 1945"?

O autor apresenta o homem pós guerra de forma cultural e produto daquilo qeu foi produzido depois da Guerra Mundial. Gumbrecht constrói a imagem do homem pós guerra originado na atmosfera posterior a ela. Para isso, Gumbrecht recorre a nomes de estrelas de cinema, marcas de automóveis e manchetes e reporatagens de revistas famosas. Junto a isso, Gumbrecht ainda faz uso de referências a autores clássicos da filosofia, mas em especial Martin Heidegger e Sartre. E ao falar do existencialismo de Sartre, o autor não dispensa ainda a indicação a canções de Edith Piaf.

Na literatura, Gumbrecht cita Camus, Beckett e até os autores brasileiros Guimarães Rosa e João Cabral de Melo Neto para contextualizar as produções culturais frutos do homem pós guerra.

Gumbrecht encerra sua obra em tom meio melancólico ao emitir suas reflexões acerca da história. Terá ela um sentido pleno após ter passado toda a guerra e este momento pós guerra? Fica a nós a reflexão depois de ter lido o livro.
Para a Folha de São Paulo, o escritor respondeu algumas perguntas. Selecionei algumas e posto-as aqui.

Sua geração conseguiu clarear o passado?
A tese básica de "Depois de 1945" é a de que aquilo que víamos como falta de esclarecimento na verdade se configura já na emergência de um novo cronótopo, uma nova configuração de tempo. Não dá para deixar o passado para trás: ele se apresenta de forma invasiva, agressiva, é passado demais -daí sua latência. Mas a presença do passado não é realmente um problema; o problema é aquela ideia de que você precisa limpar o passado para ter um futuro aberto, e isso já não se dá.

Essa seria uma lógica historicista. A obrigação de esclarecer o passado continua existindo, mas o cronótopo do presente amplo não vai resultar aberto, pois o futuro hoje, por motivos que nada têm a ver com Holocausto, foi ocupado por ameaças que vão se aproximando, como o aquecimento global. A mentalidade ecológica nunca teria emergido num contexto historicista.
Qual seria o legado da Segunda Guerra a essa altura?
O legado é compreender que há uma visão diferente do mundo que emerge; a autorreferência vai mudando. Entre os desdobramentos de que trato no livro, estão os conceitos de "sem entrada" e "sem saída", utilizando "O Anjo Exterminador", de Luis Buñuel, como exemplo. No caso alemão, gosto de usar o conceito teológico de redenção, a promessa de que, após o sacrifício, o futuro vai estar certo. Não há temporalidade nesse sentido. Muita gente achou que depois da reunificação o legado da Segunda Guerra havia se encerrado, que o país havia pago pelos estragos da guerra e demonstrado boa vontade suficiente com Israel.


As bombas nucleares estão aí e vão ficar para sempre, a gente não vai conseguir esquecer. Assim como a industrialização da matança de pessoas. Nós, humanos, somos capazes disso e de coisas piores; os nazistas testaram os sistemas mais baratos e chegaram às câmaras de gás, ainda extraindo ouro dos dentes dos mortos.


Nesse sentido é inesquecível a palestra de Himmler em Potsdam, na qual o líder nazista defende que, para que o projeto se realize, é importante que os soldados continuem "limpos". Por limpos entenda-se não se emocionar positivamente nem negativamente. Todo o legado do Iluminismo, que até então parecia vigorar, caiu por terra. O Iluminismo nunca vai ser o que a gente pensava, há uma dialética da ambiguidade, e talvez o novo cronótopo seja uma reação pré-consciente a isso.

Seu livro dá a impressão de que a Segunda Guerra não acabou.
De todos livros que escrevi, este foi de longe essencialmente o mais importante pra mim. Não só pelas memórias de infância que nele descrevo. Sempre que pouso na Alemanha eu penso: "Este país está assombrado". Poderia se dizer que houve má sorte ou destino, mas foi lá que as coisas aconteceram. Nos começo dos anos 1930, Horkheimer, da Escola de Frankfurt, conduziu um estudo sobre antissemitismo na Europa. Concluiu que na Alemanha ele era mais fraco, e este justamente era o perigo -os alemães não terem muita consciência dele.

Lendo seus livros se percebe uma visão muito crítica sobre as ciências humanas, hoje.
A coisa que matou as ciências humanas foi o construtivismo de identidades dos anos 1990, aquela coisa de "qual é nossa contribuição?", de criar identidades comunitárias coletivas. São os projetos de identidades nacionais, construções sociais do mundo, uma banalização completa. Resultou numa produção muito banal, que não tem nada de errado, mas é tão banal. Estudar ciências humanas nesse contexto hoje nem é proveitoso, profissionalmente, nem é interessante.
Fonte:
Folha de São Paulo
Blog da Editora Unesp

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