sábado, 30 de abril de 2016

Toda a poesia de Augusto dos Anjos


Cientificismo e musicalidade fazem de Augusto dos Anjos um poeta único na literatura brasileira

Da dificuldade de resenhar um livro de poesia gigantesco como este, dividiremos este post em alguns tópicos.

Augusto dos Anjos é um nome tão controverso na literatura brasileira que, dentre os questionamentos, um leitor comum, ao perceber um estranhamento em sua poesia pode se interrogar "A qual escola literária este autor pertence, afinal? Ao Parnasianismo, com seu preciosismo, busca da arte pela arte e ricas rimas? Ou ao Simbolismo, com sua musicalidade e transcendentalismo?" 
Carlos Heitor Cony assim se refere a esta dúvida:



"Os entendidos até hoje não chegaram a uma conclusão a respeito dele. Alguns o consideram pré-modernista, pela audácia dos temas abordados; outros o situam numa categoria mais ou menos abstrata, como neoparnasiano."

Otto Maria Carpeaux, em sua monumental História da Literatura Ocidental, define Augusto dos Anjos como o poeta mais original da literatura brasileira. Ele e outros críticos literários como Ferreira Gullar (que assina um estudo crítico presente nesta edição) e Anatol Rosenfeld são unânimes em afirmar que devido a vários fatores existentes na poesia augustiana ele se enquadra no pré-modernismo. E é dessa escola literária a que falamos agora.

A POESIA PRÉ-MODERNISTA (Características)

Apesar de pertencer ao pré-modernismo, Augusto dos Anjos não influenciou o movimento. O poeta Manuel Bandeira, por exemplo, só falaria dele em 1944. Porém, Augusto dos Anjos mescla em sua obra características do Parnasianismo, como a valorização do Soneto, bastante uso de figuras de linguagem, como a opulência verbal, encadeamento sintático, (exemplo presente no poema "As Montanhas") e um culto exagerado à forma (presente no famoso poema "Vandalismo").
As características do Simbolismo também se fazem presentes na obra de Augusto do Anjos, tais como a subjetividade (exemplo presente no poema "Alucinação à beira-mar"),  musicalidade e Transcendentalismo.
Dessa forma, é possível distinguir fases na poesia augustiana: parnasiana, simbolista e pré-modernista, respectivamente.


O ESTILO AUGUSTIANO

O estilo de Augusto dos Anjos está permeado pelas características ditas acima, além de um forte pessimismo. Basta ler "Versos íntimos", por exemplo, para comprovar isso. O pessimismo de Augusto dos Anjos ainda se verifica em "Psicologia de um vencido", um dos poemas mais conhecidos do autor. Assim como o pessimismo, a melancolia também está presente em boa parte de seus versos. Uma característica muito relevante na poesia brasileira muito cultivada por Anjos é o uso de termos científicos e médicos em sua poesia. "Eu, filho do carbono e do amoníaco, Monstro de escuridão e rutilância..." é um bom exemplo disso.

Mas ele não foi único a cultivar essa temática cientificista na poesia. Silvio Romero já haviam cultivado isso em suas produções poéticas. O verso "Raquíticos abortos do lirismo", de Carvalho Junior, por exemplo, mostra como essa temática já havia entrado na poesia brasileira. Portanto, Augusto dos Anjos pode não ter sido o primeiro, mas se especializou nisso. Essa abundância de termos científicos atraiu leitores que, mesmo não entendo bem a poesia, ficavam fascinados. Críticos como Ferreira Gullar, Otto Maria Carpeaux e outros, admiram o poeta paraibano. Já O amor, para Augusto dos Anjos, é cético. O poema "Pecadora" revela isso.

O aspecto exótico da poesia, junto a um esdrúxulo vocabulário fascinou leitores e críticos, fazendo disso o seu estilo.

A OBRA "TODA A POESIA DE AUGUSTO DOS ANJOS" - DOIS POEMAS

O livro traz, como o próprio nome diz, toda a poesia augustiana. Isso inclui a famosa obra "Eu" (1912) e alguns outros poemas que não foram publicados em vida. 
O livro divide-se, então, em 3 partes: Um estudo crítico feito por Ferreira Gullar, que de forma bem esclarecedora e coesa analisa a obra augustiana, a obra "Eu" (1912) e por fim, poemas que até pouco tempo eram inéditos. No decorrer da leitura de "Eu", por exemplo, podemos identificar a preocupação de Augusto dos Anjos pela forma, pela beleza do soneto, bem como um forte rigor no uso de figuras de linguagem. A melancolia profunda contida nos versos, os temas sepulcrais, assim como também uma atração por palavras científicas, como já foi tratado acima, é uma identificação da obra augustiana.
A edição da José Olympio está um primor: boa diagramação, fonte agradável de se ler, organização dos poemas de forma coesa e um novo design de capa que dá à obra de Augusto dos Anjos um maior valor.

Abaixo dois exemplos de poemas que estão na obra.

DOIS POEMAS:

1. ÚLTIMO CREDO

Como ama o homem adúltero o adultério
E o ébrio a garrafa tóxica de rum,
Amo o coveiro este ladrão comum
Que arrasta a gente para o cemitério!

É o transcendentalíssimo mistério!
É o nous, é o pneuma, é o ego sum qui sum,
É a morte, é esse danado número Um,
Que matou Cristo e que matou Tibério.

Creio como o filósofo mais crente,
Na generalidade decrescente
Com que a substância cósmica evolue...

Creio, perante a evolução imensa,
Que o homem universal de amanhã vença
O homem particular que eu ontem fui!

2. TRISTE REGRESSO 

Uma vez um poeta, um tresloucado,
Apaixonou-se d’uma virgem bela;
Vivia alegre o vate apaixonado,
Louco vivia, enamorado dela.

Mas a Pátria chamou-o. Era o soldado,
E tinha que deixar p’ra sempre aquela
Meiga visão, olímpica e singela!
E partiu, coração amargurado.

Dos canhões ao ribombo e das metralhas,
Altivo lutador, venceu batalhas,
Juncou-lhe a fronte aurifulgente estrela,

E voltou, mas a fronte aureolada,
Ao chegar, pendeu triste e desmaiada,
No sepulcro da loura virgem bela.

O AUTOR

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos nasceu no engenho "Pau d'Arco", em Paraíba do Norte, a 20 de abril de 1884, e morreu em Leopoldina (Minas Gerais) a 12 de novembro de 1914. Em 1907, bacharelou-se em Letras, na Faculdade do Recife, e, três anos depois, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde exerceu durante algum tempo o magistério. Do Rio, transferiu-se para Leopoldina, por ter sido nomeado para o cargo de diretor de um grupo escolar. Morreu nessa cidade, com pouco mais de trinta anos. Apesar da sua juventude, os padecimentos físicos tinham-lhe gravado no semblante profundos traços de senilidade. Augusto dos Anjos publicou quase toda a sua obra poética no livro "Eu", que saiu em 1912. O livro foi depois enriquecido com outras poesias esparsas do autor e tem sido publicado em diversas edições, com o título Eu e Outros Poemas.


Curiosidades sobre o poeta:

Referências:
GULLAR, Ferreira. "Augusto dos Anjos ou vida e morte nordestina". In: ANJOS, Augusto dos. Toda a poesia; com um estudo crítico de Ferreira Gullar. Rio de Janeiro: José Olympio, 2016.
CONY, Carlos Heitor, "Eu - o monossílabo que fala", Folha de São Paulo, 2012. Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrada/64916-quoteuquot-o-monossilabo-que-fala.shtml#_=_

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