Melville
parece estar em alta para o mercado editorial. Só recentemente foram lançadas 3
traduções de Bartleby, sem contar as independentes; foi lançada também Jaqueta
Branca, romance inédito em terras tupiniquins, dentre outras edições do
clássico Moby Dick. Melville é o clássico autor de Moby Dick, que caudalosamente
trata em seu romance homônimo até onde o ser humano pode ir com a experiência
da vingança.

Deleuze
(1997) ainda afirma em Crítica e Clínica que
Bartleby não é uma metáfora do
escritor, nem símbolo de coisa alguma. É um texto violentamente cômico, e o cômico
sempre e literal. É como uma novela de Kleist, de Dostoievski, de Kafka ou Beckett,
com os quais forma uma linhagem subterrânea e prestigiosa. Quer dizer aquilo
que diz, literalmente. E o que ele diz e repete e PREFERIRIA NAO, I would
prefer not to. É a formula de sua glória, e cada leitor apaixonado a repete por
seu turno. Um homem magro e lívido pronunciou a formula que enlouquece todo o
mundo.
Explanado
isso, vamos à obra.
A narrativa
(vamos doravante assim chamá-la diante da questão dos gêneros), apresenta
alguns problemas pertinentes à nossa vida peculiar de um cotidiano
infernalmente preenchido de trabalho. O personagem narrador da obra, um
advogado de sucesso em Wall Street apresenta-nos um curioso escritório no qual
trabalham figuras excêntricas e peculiares. No início da narrativa (pág. 14), o
narrador nos adverte que “não há material suficiente para uma biografia
completa e satisfatória desse homem (Bartleby)”. Assim, de acordo com o advogado, a sua história é um documento
literários, não moral, legal ou pessoal.
Melville
pega um fato corriqueiro (a contratação de um funcionário) e transforma isso em
uma pérola literária. O simples fato do personagem homônimo à obra postergar
sempre suas atividades revela como somos parecidos com ele no cotidiano.
A história
desenrola-se na cidade de Nova York, mais ou menos no final do século XIX,
mais precisamente no famoso centro comercial Wall Street, daí o subtítulo da
obra que algumas editoras usam. A narrativa tem como espaço predominante o
escritório do advogado, que é o narrador do livro. Com ele trabalham três auxiliares
que lhe ajudam na escrituração e cópia de documentações: Nippers, Turkey, e um
garoto esperto e carismático Ginger Nut.
Cada
um desses personagens contém em si características que o fazem ser cômicas no
início. Desde um que muda de humor conforme o horário até aquele que, zangado,
bate com os punhos na mesa de madeira. São pessoas em sua maioria simples, mas
que trazem em si o germe de uma ambiência carregada de mistério. Nippers possui
indisposição intestinal e por isso comete muitos erros nas cópias. Turkey, age
de forma (in)diferente no turno da tarde. Inclusive o advogado já tentara demiti-lo,
mas não obteve sucesso, de modo que o funcionário continuou no escritório, mas
com alterações de tarefas. Com o acúmulo de trabalho, já que o advogado é
nomeado como Oficial do Arquivo Público, ele vê a necessidade de contratar mais
um funcionário como copista. É aqui, pois, que entra em cena, o misterioso e
excêntrico Bartleby.
Para equilibrar
o clima organizacional do escritório, o advogado prefere colocar o biombo de
Bartleby perto de sua mesa, deixando os demais funcionários no outro lado da
sala separada por uma parede de vidro. Com isso, a presenta de um homem mais
sério seria a justificativa para o advogado harmonizar o humor. No entanto,
Bartleby reage quase sempre com uma frase lacônica e negativa aos pedidos do
patrão; “Preferia não fazê-lo”.

O advogado
decide, assim que tem a oportunidade, de conversar com o escrivão. Esta
conversa culmina com a demissão de Bartleby que, claro, nega-se a sair do
escritório, pois “prefere não fazê-lo”.
A partir
de então, a narrativa fica cada vez mais kafkiana. Ainda que o advogado mude de
endereço, demita Bartleby, ele se faz sempre presente na rotina do advogado,
pois mesmo no outro local de trabalho, o advogado é solicitado pelo novo
inquilino do antigo prédio do seu escritório a responsabilizar-se pela saída de
Bartleby, pois ele se recusava a sair do lugar onde estava. Assim, sem saída,
várias pessoas do prédio se reúnem e pedem a prisão de Bartleby.
O advogado
sempre acompanhou Bartleby, dando-lhe auxílio, mesmo que de forma indireta.
Muito tempo depois, o narrador descobre que Bartleby fui funcionário do Setor
de Cartas Devolvidas dos Correios, em Washington, do qual fora afastado por
mudanças na administração. Um espanto abate sobre o narrador que questiona a
metaforização da profissão à personalidade do escrivão: um encarregado de
encontrar nas cartas extraviadas o seu trabalho sustentável. Coerente com o
homem perdido, sem esperança que é Bartleby.
Temos
quase sempre a impressão de que “algo vai acontecer agora...”, quando na
verdade o inusitado já está acontecendo na narrativa.
O que
acontece no final da narrativa seria spoiler, mas não surpreende muito o leitor
o fato de um personagem introspecto e sisudo adotar uma postura maquinaria no
dia a dia. O final de Bartleby é triste e evidente, mas como o próprio narrador
nos fala, ele é a humanidade e a ela se dirige representando-a.
Com
a excelente tradução de A.B. Pinheiro de Lemos, a Editora José Olympio
prossegue com o seu trabalho de proporcionar ao leitor brasileiro boas edições
de clássicos da literatura universal. A capa reflete bem a atmosfera do livro e
a atitude do escrivão que leva o título da obra.
Nascido
em 1819, em Nova York, Herman Melville desde jovem sonhou ardentemente em
correr mundo. Obrigado a trabalhar por motivo de falecimento do pai, o futuro
viajante exerceu vários empregos modestos, até fazer sua primeira viagem, à
Inglaterra, quando tinha apenas quinze anos, e em 1841 já se dirigia aos Mares
do Sul. Foi capturado pelos selvagens de uma das ilhas daquelas longínquas
paragens, de onde conseguiu fugir para o Taiti. A fim de garantir seu sustento
ao regressar aos Estados Unidos, aceitou um emprego na Alfândega de Nova York,
lá trabalhando de 1866 a 1885. Morreu em 1891 na mesma cidade onde nascera.
Virtualmente ignorado em seus próprios dias, Herman Melville teve o valor de
sua obra literária reconhecido pelos críticos dos anos 1920, que o consideraram
um dos maiores escritores do século XIX.
CURIOSIDADES:
Em março do ano de 1853, o escritor americano
Herman Melville publica pela primeira vez, na Putnam’s Monthly Magazine, de
Nova York, seu famoso conto (?) “Bartleby”, traduzido para a língua portuguesa
como “Bartleby, o escrivão”.
O estudioso Johannes Dietrich
Bergmann assinalou semelhanças entre "Bartleby" e The
Lawyer's Story , um romance sobre um advogado e um scrivener
problemático serializado noSunday Dispatch em 1853. De acordo com
Bergmann, "TheBartleby" foi publicado em 1853 em duas
partes nas edições de novembro e dezembro da Revista de Putnam ,
anonimamente, sem nenhuma nota sobre o gênero.
INDICAÇÕES:
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FONTES:
KAHN, Andrew. Bartleby, o escrevente. SLATE, 22/10/2015. Acesso em 03 de maio de 2017. Disponível em http://www.slate.com/articles/arts/culturebox/2015/10/herman_melville_s_bartleby_the_scrivener_an_interactive_annotated_text.htmlSkoob
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