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Especial Proust 03 - No caminho de Swann

"Durante muito tempo, costumava deitar-me cedo. Às vezes, mal apagava a vela, meus olhos se fechavam tão depressa que eu nem tinha tempo de pensar: 'Adormeço'."
Na tradução de Mário Quintana, é assim que começa o primeiro episódio do livro No caminho de Swann, primeiro livro de uma obra que entraria para a história como uma das melhores já escrita do século XX.

O livro que foi, inicialmente, recusado por várias editoras no ano de 1913, ganhou uma nova edição publicada pela Editora Globo e traz ao público notas explicativas, ensaios e uma tradução cuidadosa pelas mãos de Mário Quintana.

Primeiro livro da série que viria a ser um sucesso mundial, No Caminho de Swan é composto de três partes repletas de uma confusão psicológica entre sonho e realidade. Durante toda a narrativa, o narrador relembra fatos de sua ansiedade pueril, quando ficava  aflito à espera do beijo e dos cuidados de sua mãe, que mesmo com a ameaça constante do seu impaciente pai, vinha todos os dias fielmente dar-lhe os carinhos. Na primeira parte, o pequeno Marcel nos apresenta o amor de sua mãe e a insistência de seu pai para que ele assuma um comportamento adulto.

Depois deste episódio, o narrador, inicia o relato, ou melhor, o trabalho com a memória: que é contar fatos de sua vida, fatos estes que chegam a confundir-se, algumas vezes, com a vida de Marcel Proust, o autor. A propósito, o nome da personagem narradora do romance chama-se Marcél, mas citado apenas em duas ocasiões ao longo dos setes livros escritos.


É no primeiro volume da série que encontramos a famosa cena da Madeleine. O bolinho é o pontapé inicial para que o narrador comece a desenrolar suas memórias. E assim, o narrador vai desenrolado aqui e ali as histórias, tal quais os fios de Ariadne. O bolinho madeleine torna-se assim uma metáfora para nós, leitores, que precisamos fazer este exercício de memória, assim como o narrador.
O exercício de memória é praticado com muita maestria e constância no decorrer da história. 
"Mas como a memória, por mais gosto com que as executasse, não conseguia pôr nessas pequenas gravuras [ou as viagens e recepções feitas] o que eu de há muito havia perdido, isto é, o sentimento que nos induz, não a considerar uma coisa como um espetáculo, mas a tê-la como um ser sem equivalente, nenhuma delas domina toda uma parte profunda de minha vida como a lembrança daqueles aspetos do campanário de Combray nas ruas que ficam atrás da igreja." (PROUST, 1993, p. 69)
Mas voltando aos bolinhos de nome Madeleine, o rapaz, que após experimentá-los, experimenta também uma felicidade que lhe remete a uma série de lembranças e associações que o levam até a vila de Combray, quando sua tia Léonie lhe dava os bolinhos embebidos em chá. A partir daqui o leitor acompanhará o narrador em sua busca pelo tempo, e a memória torna-se uma das chaves principais da obra, despertadas pelo sabor do biscoito madeleine.

O narrador, neste primeiro volume de exercício memorialista mostra-se adulto e imerge nas recordações de sua puerilidade e adolescência, vividas na pequena vila de Combray. 
Daí, surgem experiências intensas vividas em torno de seus familiares, mostrando a relação com seus pais, avós, tias-avós e a comunidade que serve como relação para a agitada Paris do finalzinho do século XIX.
Em um segundo momento, a parte denominada "Um amor de Swan", somos levados à vida de Swann, um dos vizinhos e amigos de sua família, que em suas investidas amorosas relações aristocráticas conturbadas conduz o nosso jovem narrador a uma paixão ilusória por Gilberte, filha de Swan, e por Albertine, a grande paixão de sua vida, que aparecerá em À sombra das raparigas em flor, segundo volume da obra. Sua amizade com Swan possibilita ao escritor fazer uma análise do amor, ou melhor, do ciúme masculino.
Na terceira parte do livro, temos "Nomes de lugares: o nome" onde o narrador engendra uma série de descobertas sobre a magia que se oculta por detrás dos nomes de pessoas e de cidades.

Como bom obcecado por questões relacionadas ao tempo, Proust passou seus últimos dias ininterruptamente trabalhando em seus livros. E é o tempo que rege as páginas de nossa memória junto a Marcél, o narrador do monumental romance. Celeste Albaret, a única pessoa que passou os últimos dias com Proust em seu apartamento diz que o escritor passava a maior parte dos seus últimos dias ocupado com a sua construção, só saía do quarto para as refeições. Durante seus últimos dias "Em busca do tempo perdido" foi sua maior ocupação. A certeza que fica é que Proust é uma fonte inesgotável de conhecimento, um gigante poderoso que nos detém presos à memória e amarrados até que concluamos a leitura de sua magnífica obra artística.

Outros links:

Há tanto assunto relacionado ao escritor francês, mas eu vou tentar colocar nas postagens do "Especial Proust em foco" ao longo destes próximos meses. Eis alguns links:

A poesia completa de Marcel Proust:  Revista Bula
Livro ProustGuide: Site do livro
Blog Espaço Literário marcel proust: Blog 
Adaptação Cinematográfica: A primeira parte do livro foi adaptada para o cinema no ano de 1984. Para quem quiser conferir, abaixo deixo o link do trailer.

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