Gumbrecht é uma figura filosófica muito
presente no Brasil, sobretudo nos congressos da ABRALIC (Associação Brasileira
de Literatura Comparada) e uma vez ou outra vejo textos dele sendo discutidos
no meio acadêmico. Mas não somente nele, uma vez que o filósofo também discute
outras questões relevantes para a sociedade.
Aqui no blog, inclusive, você pode encontrar
uma resenha de um outro livro dele aqui. Então o autor já um
velho conhecido nosso, podemos dizer. Suas ideias a respeito de stimmung,
ambiência e o sentido de presença no texto literário são bem defendidas em seus
livros, mas neste Nosso amplo presente, (Hans Ulrich Gumbrecht, Editora Unesp, 160 páginas, Tradução de Ana Isabel Soares, 2015, R$ 40,00) pela sugestão que o próprio
título nos traz, encontramos trechos dedicados a comentar especificamente a
criação de uma presença que o texto literário possui. O livro aqui comentado
aborda não só o conceito de presença e sua cultura como também aproveita para
enxertar comentários sobre o próprio presente, o qual pode ser concebido pelo
filósofo como uma noção de tempo cronológico ou ainda à ideia de existir algo
presentificado diante de nós. A palavra presença, inclusive, vem do latim prae-esse, tal como o autor
coloca-o no texto.
Didaticamente, divido, pois, esta resenha em cinco pontos sobre o livro. Segue.
1. O conceito de presença é para o filósofo
alemão, uma cultura de sentido, de presença, na qual ele mesmo trata de
explicar logo nas primeiras páginas do capítulo 1, no qual ele define como uma re
sposta ao que foi traçado ao longo
de toda sua obra acadêmica, pois até mesmo no anterior (Depois de 1945), o
conceito de presença e stimmung é comentado. É que Gumbrecht vê o modelo da
presença como um ato que desperta o texto de seu “sono”, tentando mostrar como a forma se faz
mediadora entre a ficção e a realidade, e como ela organiza os dados da ficção
e da realidade.
2. Portanto, a presença, para o filósofo
alemão, é uma construção narrativa mostrada de forma sutil. Por exemplo, ao ler
uma narrativa, podemos, por meio da presença criada pelo autor, sentir, tocar
ou não objetos, assim como experimentar sensações. E podemos constatar isso
mesmo quando lemos uma boa narrativa que nos faz perceber tudo isso. Constatamos
isso na maioria das obras literárias, onde o leitor desvela e se inquieta com
as descrições e acontecimentos narrados. Assim, Gumbrecht privilegia, como
podemos perceber, um modelo no qual predomina a concepção material construída
pela linguagem.
3. Porém, o filósofo não se atém somente a
questão da presença neste livro. Ele também disserta sobre a ideia de
cronotopo, ideia elaborada por Backtin e, assim, ele acompanha o raciocínio
baktiniano para corresponder ao seu modelo proposto de presença.
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Edição da Editora UNESP |
4. Para traçar todo o escopo teórico
acerca desse conceito que é tão íntimo à criação literária o filósofo vai
escolher alguns textos clássicos e outros nem tanto para exemplificar e
fundamentar, como Céline, por exemplo.
5. Gumbrecht valoriza a ideia de uma
materialidade e permanece nessa ideia por toda a sua obra. E é interessante
perceber como a teoria de Backtin é realmente válida para corroborar o que o
filósofo nos apresenta, uma vez que a ideia de cronotopia configura uma
produção na qual tempo e espaço estão intimamente relacionados e, portanto, ajudando
a constituir uma presença. É o que Gumbrecht chama de produção de presença da
obra literária.
É,
portanto, um livro indicado para quem realmente pretende estudar como o
conceito de presença aplica-se ao texto literário: aos teóricos e acadêmicos de
modo geral, sobretudo os da área de Letras. Mas claro que não é também uma
leitura excludente do leitor habituado a ler ficção, uma vez que o filósofo
parece querer tornar sua obra filosófica acessível a todos.
Tradução,
edição e design de capa lindamente feito pela Editora Unesp ajudam, claro, a
tornar o livro mais agradável e atraente. É um prazer ler e resenha-lo
novamente.
Nascido em 1948,
na Alemanha, Hans Ulrich Gumbrecht é professor de literatura na Universidade de
Stanford. Entre suas publicações no Brasil destacam-se Modernização dos
sentidos (Editora 34, 1998), Em 1926: vivendo no limite do tempo (Record,
1999), Elogio da beleza estética (Companhia da Letras, 2007) e Depois de 1945:
latência como origem do presente (Editora Unesp, 2014). É professor de literatura na Universidade de Stanford.
FONTES
E REFERÊNCIAS:
GUMBRECHT, Hans Ulrich.
Atmosfera, ambiência, Stimmung: sobre um potencial oculto da literatura.
Trad. Ana Isabel Soares. 1. Ed. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC Rio, 2014.
GUMBRECHT, Hans Ulrich. Depois de 1945: latência como origem
do presente. Trad. Ana Isabel Soares. São Paulo: Ed. UNESP, 2014.
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