Conhecidíssimo
no mercado editorial por organizar as excelentes antologias "Os cem
melhores contos brasileiros do século" e "Os cem melhores
poemas brasileiros do século", Ítalo Moriconi reserva seu talento
nesta mais nova edição de Destino: Poesia (Editora José
Olympio, Org. Italo Moriconi, 2ª ed., 2016,160 páginas, R$ 39,90).
Mas,
ironicamente, a edição do livro traz dados dos autores, mas não traz nenhum
dado sobre o organizador que aqui faz um trabalho de garimpeiro. Aqui ele
fica em segundo plano.
Os poetas
dessa antologia são Ana Cristina Cesar, Cacaso, Paulo Lemiski, Torquato Neto e
Waly Salomão, ambos pertencentes a uma geração de poetas que propunham a
liberdade poética. Pertencentes à geração mimeógrafo, ele foram incluídos na
denominada poesia marginal.
Para
Mattoso,
A palavra marginal, sozinha, não
explica muito. Veio emprestada das ciências sociais, onde era apenas um termo
técnico para especificar o indivíduo que vive entre duas culturas em conflito,
ou que tendo-se libertado de uma cultura, não se integrou de todo em outra,
ficando à margem das duas. [...] Marginal é simplesmente o adjetivo para
qualificar o trabalho de determinados artistas, também chamados independentes
ou alternativos. (MATTOSO, 1982, p 7 – 8)
Parece-nos
estranho o nome dado ao grupo, mas é o mais conveniente, visto que os poetas
dessa geração cultivaram este espírito libertário, sem regras para a
poesia. O próprio organizador, em sua apresentação ao livro, afirma que
"esses poetas não produziram uma poesia de angústia ou sofrimento. Muito
pelo contrário - o leitor poderá constatar em cada página desta antologia que a
poesia surgida dos anos 1970 tem mais a ver com euforia e celebração, às vezes
ironia, frequentemente desencanto".
O organizador
menciona o substantivo angústia pelo fato de todos eles terem vivido muito
pouco e terem tido uma vida breve, eu diria brevíssima.
Mas vamos lá à obra.
O livro está
dividido em 5 partes, uma dedicada a cada autor , com dados biográficos e
poemas de ambos.

A primeira
parte compõe-se de poemas de Ana Cristina Cesar. Poeta desde sempre, aos 7 anos
Ana C. já estava no Suplemento Literário da "Tribuna da Imprensa".
Sua poesia é calcada nessa linguagem livre, sem uma preocupação demasiada que
atrofia a linguagem poética. Ana Cristina C. morreu em 1983. Sua poesia tem
atraído inúmeros estudos e, mais recentemente, foi tema principal da FLIP 2016.
A exemplo
disso temos o seguinte poema:
Vacilo da vocação
Precisaria trabalhar – afundar
––
como você – saudades loucas –
nesta arte – ininterrupta –
de pintar –
A poesia não – telegráfica –
ocasional –
me deixa sola – solta –
me deixa sola – solta –
à mercê do impossível
–– do real.
A segunda
parte do livro apresenta uma degustação do poeta mineiro-carioca Antônio Carlos
de Brito, conhecido como Cacaso.
Aqui já
podemos perceber mais nitidamente as características daquilo que se dá à poesia
marginal. Preenchido por lirismo puro, Cacaso cultivou o verso curto, curtinho,
linguagem coloquial e abordou de forma irônica em sua obra temas que remetiam
aos anos de chumbo.
Cabe aqui observar que todos esses poetas da antologia viveram na década de 70 e foram, portanto, contemporâneos do contexto histórico daquela época.
Cabe aqui observar que todos esses poetas da antologia viveram na década de 70 e foram, portanto, contemporâneos do contexto histórico daquela época.
LAR DOCE LAR
Minha pátria é minha infância
Por isso vivo no exílio.
REFLEXO CONDICIONADO
pense rápido:
Produto Interno Bruto
ou
brutal produto interno
?
Paulo
Leminski inicia a terceira parte do livro. Este que foi um dos mais populares e
conhecido poetas do Brasil. Claramente de vanguarda, Leminski foi
inquieto e valorizou o verso livre e modernizou-o. Seus poemas são curtos, mas
nem por isso vazios de lirismo. Ao contrário, eles transbordam subjetividade e
reflexão acerca de temas que nos são comuns, ou, como diz bem a geração, temas
marginais. Enquanto poeta concretista, Leminski também foi um apaixonado pela
poesia visual (poesia imagística) e calcou sua poesia influenciada em Pound e
Bashô, por exemplo.
Aviso aos náufragos

não nasceu para ser lida.
Nasceu para ser pálida,
um mero plágio da Ilíada,
alguma coisa que cala,
folha que volta pro galho,
muito depois de caída.
Nasceu para ser praia,
quem sabe Andrômeda, Antártida
Himalaia, sílaba sentida,
nasceu para ser última
a que não nasceu ainda.
quem sabe Andrômeda, Antártida
Himalaia, sílaba sentida,
nasceu para ser última
a que não nasceu ainda.
Palavras trazidas de longe
pelas águas do Nilo,
um dia, esta pagina, papiro,
vai ter que ser traduzida,
para o símbolo, para o sânscrito,
para todos os dialetos da Índia,
vai ter que dizer bom-dia
ao que só se diz ao pé do ouvido,
vai ter que ser a brusca pedra
onde alguém deixou cair o vidro.
Não e assim que é a vida?
pelas águas do Nilo,
um dia, esta pagina, papiro,
vai ter que ser traduzida,
para o símbolo, para o sânscrito,
para todos os dialetos da Índia,
vai ter que dizer bom-dia
ao que só se diz ao pé do ouvido,
vai ter que ser a brusca pedra
onde alguém deixou cair o vidro.
Não e assim que é a vida?
Torquato
Neto, que está nesta antologia, compôs junto com Gilberto Gil o clássico
Marginália II. É um poeta que muito me atrai, não somente por sermos
conterrâneos, mas pela atmosfera que sua poesia me passa. Anjo ambíguo, maldito
e benfazejo nas palavras de Moriconi, Torquato influenciou o movimento
Tropicalismo e dele fez parte como criador. O poeta contracultural deixou-nos
uma poesia sensível, captadora de momentos íntimos.
Sua ligação
com a música fez com que alguns de seus poemas fossem musicados, como o famoso
"Go Back", pelos Titãs. O legado da MBP e do tropicalismo fizeram de
Torquato Neto um ícone cultural do nosso tempo. Torquato escreveu por muito
tempo a coluna Geleia Geral e fez também um poema homônimo. Um dos poemas
mais conhecidos dele vai a seguir.
Cogito
eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora
eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.
Wali Salomão
encerra a antologia. Anárquico, iconoclasta e fragmentário, Wali foi múltiplo.
Fez parceria com Gil, Caetano e outros músicos. Adotou por algum tempo
pseudônimo, sua poesia está profundamente ligada ao termo “desbunde”, próprio
da época. Sua poesia foi transmutada no decorrer da passagem das idades do
autor (ele morreu aos 59 anos, o mais longevo). Se ora a linguagem de sua
poesia é crua como o da vanguarda contracultural, logo depois sua poesia faz
referência aos versos livres modernista clássico. Em sua poesia vemos fortes ideologias
e está mais viva do que nunca.
Hoje
O que menos quero pro meu dia
polidez, boas maneiras.
Por certo,
um Professor de Etiquetas
não presenciou o ato em que fui concebido.
Quando nasci, nasci nu,
ignaro da colocação correta dos dois
pontos,
do ponto e vírgula,
e, principalmente, das reticências.
(Como toda gente, aliás...)
Hoje só quero ritmo.
Ritmo no falado e no escrito.
Ritmo, veio-central da mina.
Ritmo, espinha-dorsal do corpo e da mente.
Ritmo na espiral da fala e do poema.
Não está prevista a emissão
de nenhuma “Ordem do dia”.
Está prescrito o protocolo da diplomacia.
AGITPROP – Agitação e propaganda:
Ritmo é o que mais quero pro meu dia-a-dia.
Ápice do ápice.
Alguém acha que ritmo jorra fácil,
pronto rebento do espontaneísmo?
Meu ritmo só é ritmo
quando temperado com ironia.
Respingos de modernidade tardia?
E os pingos d’água
dão saltos bruscos do cano da torneira
e
passam de um ritmo regular
para uma turbulência
aleatória.
Hoje..

Com uma capa
linda digna dos poetas da antologia, o mérito também deve ser dado ao seu
organizador, Italo Moriconi. É um livro para ser lido em qualquer horário em
local. A presença de dados biográficos de cada poeta, a apresentação feita pelo
organizador e ainda as imagens dos manuscritos fazem deste livro um acontecimento.
Referências:
MATTOSO, Glauco. O que é poesia marginal. Brasiliense, 1982.
MORICONI, Italo. Destino: Poesia. 2 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2016
MORICONI, Italo. Destino: Poesia. 2 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2016
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