*Resenha elaborada por Juliene Lopes (Leitora e Colaboradora do blog Papos Literários)
Olá leitores!
Hoje vamos falar um pouco sobre o livro escrito pela historiadora canadense Elizabeth Abbott e publicado pela editora record. Em Amantes: uma história da outra (Mistresses, A history of the other woman, Tradução de Clóvis Marques, Editora Record, 1ª Edição, 2016, R$ 59,00), Abbott analisa a vida de diversas mulheres que, em nome do interesse, da própria sobrevivência ou do amor, envolveram-se com homens casados, construindo relações muitas vezes conturbadas, polêmicas, desafiando as regras sociais de sua época.
"Ela já foi chamada de diversas maneiras: "manteúda", "mulher fácil", "a outra". Existe como personagem fictício e em carne e osso: Madame de Pompadour e Simone de Beauvoir; Marilyn Monroe, Jane Eyre e Camila Parker-Bowles. Como amante, sempre esteve - até hoje - à margem da história da humanidade. Mas quem é ela, afinal? Por que se torna amante, e como é ter uma vida secreta? Qual a verdadeira natureza de sua condição? Como as mulheres a enxergam? E onde o amor se encaixa nisso tudo?"
Essas perguntas são respondidas por meio de uma compilação de histórias. Abbott deixa que a história das amantes falem por si. Aqui vemos as amantes desde os tempos bíblicos aos dias atuais, o livro é organizado de modo a falar de mulheres da antiguidade; das concubinas, amantes e haréns no Oriente; amantes de mafiosos; amantes que serviram de musas inspirados para artistas e intelectuais; amantes européias; as amantes dos clérigos; as amantes dos conquistadores de territórios; as amantes dos campos de concentração; as amantes dos mafiosos e dos ditadores; as amantes na literatura e a amante nos dias atuais.
De modo geral vemos que embora muitos homens tenham sofrido por suas amantes, seja porque não podiam oficializar a união com ela ou porque a mulher perdia o interesse, a corda sempre tende a arrebentar para o lado da amante, já que a própria sociedade tende a culpabilizar e punir a mulher. A posição dessas mulheres na sociedade é diretamente ligada ao homem que ela tem como amante. E em sua maioria, mesmo quando há amor, é a necessidade financeira que liga essas mulheres à esses homens. Sem falar nas mulheres que ocupavam posição social de escravas, de concubinas em haréns que sequer tinham a opção de escolher serem amantes: seus senhores às tomavam para si e ponto. Na Europa muitas mulheres tornavam-se amantes de homens nobres com o intuito de adquirir títulos de nobreza e riqueza não só para si mas para toda a família. Nos campos de concentração virar amante do homem certo podia garantir sua sobrevivência e quem sabe à de parentes e amigos.

obra.
Independente da época a condição de amante, desde sempre ilícita, gera insegurança, autodepreciação e ansiedade na vida dessas mulheres. Prova disso é o peso da morte do amante.Quando ele se vai geralmente as mulheres perdem os privilégios que alcançaram, ficando fora de testamentos, muitas caíram na miséria.
Outro ponto a ser salientado é a idade das amantes. Historicamente os homens sempre escolheram as mulheres jovens, perdendo o interesse por elas a medida que estas vão envelhecendo. O amor romântico foi muito pouco valorizado ao longo da história, a amante por muitas vezes era necessária para fazer suportáveis os casamentos.
A posição da mulher na sociedade,a abertura para os divórcios e o avanço tecnológico que permite o controle de natalidade foram transformando a instituição do casamento, hoje visto como uma parceria onde os cônjuges acreditam que o amor deve ser o centro da união e a traição fere a santidade do amor. Legalmente a condição de amante hoje acaba por conceder direitos às mulheres que conseguem dar diante de um tribunal provas de que foi uma parceira de vida do homem com que se relacionou. Não obstante os filhos gerados dessas uniões tem seus direitos garantidos por lei e há mais facilidade para as mães cobrarem dos pais os recursos financeiros para sustentá-los.
Através de 672 páginas, Abbott destrincha as relações entre homens e mulheres envolvidos como amantes, nos revela como esses arranjos funcionavam em diferentes culturas, e como muitas mulheres conseguiram através de sua inteligência e astúcia, envolver e sobreviver aos homens que as escolhiam. Mostra que o nascer mulher numa sociedade que as coloca numa posição inferior não determina que elas de fato sejam inferiores e não impede que muitas ocupassem lugar de destaque nos países onde moravam.
Com uma capa bem mais caprichada que a edição americana, a Editora Record acertou a imagem da capa com a pintura Portrait of the Marquise de Pompadour, de François Boucher. Isso porque a Madame Pompadour foi a esposa secreta de Louis XIV. Inclusive, a autora do livro lhe dedica 6 páginas (120-126) a falar dessa emblemática figura francesa do século 18. Além da edição caprichada, a tradução está fácil e fluente.
O livro é o segundo volume de uma trilogia de estudos sobre as relações entre homens e mulheres. O primeiro é sobre a história do celibato. Com 37 páginas apenas com notas e 18 com um índice remissivo, o livro é uma dica de consulta sobre a história das amantes para quem tem curiosidade sobre estas personagens. Aos estudantes de História, Sociologia, Antropologia e Letras, o livro também é útil.
Elizabeth Abbott é pesquisadora associada da Universidade de Toronto. Historiadora com doutorado em história do século XIX, trabalhou durante mais de uma década como jornalista e escritora especializada em história social e meio ambiente.
Fontes:
Skoob / Site da Autora Elizabeth Abbott / Editora Record / Twitter da Autora /
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