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Um livro melancólico de uma viagem pelo passado

 Muito além de nostalgia e viagem interior, Modiano se veste na pele de outros personagens para narrar.
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O filósofo francês Michel Onfray divide em duas categorias a pessoa que se desloca: viajante e turista. O turista é “militante de seu próprio enraizamento", segue quase que de modo alienante o roteiro turístico das agencias de viagens, enquanto que o viajante é quase um mergulhador da cultura local, pois ele recusa os clichês e “os instrumentos comparativos que imponham a leitura de um lugar com os referenciais de um outro”. Para Onfray, o viajante deve “deixar-se preencher pelo líquido local, à maneira dos vasos comunicantes".

Pois bem, iniciei esta resenha citando Onfray apenas para dizer que o personagem principal de Flores da ruína (Patrick Modiano, Record, 2015, 144 páginas) trata-se de um viajante que vai alem do deslocamento físico ate uma viagem interior. Um viajante que mergulha na história local, nas histórias alheias e se preenche com melancólicas memórias ate transbordar.
Narrado em primeira pessoa, há, nas primeiras páginas, um "quê" de suspense, onde cheguei a acreditar que eu estava lendo o livro errado, que não era o Modiano, o ganhador do prestigiado premio Nobel de Literatura 2014. Mas era ele mesmo, com todo o seu lirismo nas construções gramaticais, com o uso constante de recordações da memória que  marcaram os seus anos na cidade de Paris. Daí o livro ter um caráter autobiográfico e elementos que nos remetem as suas informações familiares. 

O ponto de partida é o excêntrico suicídio de um casal num apartamento de Paris, no dia 24 de abril de 1933.  Após uma noite regada a álcool, companhias de pessoas pândegas e suspeitas, as únicas pistas que a polícia encontra para iniciar a investigação do caso são as últimas palavras de Gisele (a mulher do suicida) antes de morrer:

"- Meu marido! Meu marido! Morto!"

Ao lado do marido morto, um bilhete mais enigmático ainda:
"Minha mulher se matou. Estávamos bêbados. Eu me matei. Não procurem..."

Mas procurar quem?

Buscando responder perguntas origininadas com este suicídio que virou caso policial, o narrador do livro volta à Paris 30 anos depois para caminhar por vielas, bares e outros lugares da cidade a fim de encontrar motivos, pistas ou respostas que possam explicar o porquê do suicídio do jovem casal.

Voltar a lugares que fazem parte do nosso passado pode ser um pouco perigoso para quem tem a alma um tanto melancólica. O personagem principal do livro tem esta aura de se resvalar nas lembranças por meio da história do casal. Mas que o leitor não se engane: é Modiano quem está regendo toda esta estrutura, logo sua vida se vincula e se mescla àquela dos personagens.

Quando em 1964, o narrador resolve voltar à Paris dos anos 30 para analisar o caso, ele encontra um personagem peculiar com características dissimuladas, pois ele adota, ao longo da narrativa, três nomes: Pacheco, Philippe de Bellune e Charles Lombard, já que o narrador nos dá pistas de que ele tenha colaborado com a oposição durante o Nazismo. Além da narração do encontro com esse icônico personagem, o narrador nos relata também como fugiu de um orfanato, seu relacionamento meio frustrado com Jacqueline, assim como sua relação com o pai e sua vida no meio acadêmico. 
O suspense inicial do jovem casal fica em aberto.  Demorei a entender que, na verdade, essa história trata-se de um plano de fundo para que o autor, Patrick Modiano, exprima suas recordações e seu tom de nostalgia pela Paris dos anos 30. Pois o que Modiano faz é inserir fatos de sua vida, de sua família na ficção dos personagens.

Enquanto o personagem caminha por lugares bonitos e curiosos de Paris, Modiano vai, por meio do narrador personagem, imprimindo suas lembranças que fazem de Flores da Ruína um livro poético, lírico, mas nem por isso menos melancólico. Talvez resida no título do livro tudo o que acontece nas 144 páginas que lemos: Nossa vida passa, quando voltamos para investigar algo, o que quer que seja, fica esse vazio, como se as flores brotassem, mas não mais embelezassem o ambiente. Porém, mesmo em meio à existência dos fatos da ruína, elas existem e estão alí, no drama da vida, nas histórias, nas pessoas e nos lugares que andamos.

Apesar do livro pertencer a Trilogia Essencial (I - Remissão da Pena; II - Flores da Ruína e III - Primavera de Cão), o livro pode ser lido separadamente, embora eu não recomende muito. Pois ainda que se tratem de histórias independentes, a clareza da trilogia fica mais firme quando feita a leitura de todos os 3, já que o livro tem um uma linguagem fácil de ser lida, mas uma narrativa não tão "mastigável". Dificilmente eu ainda leia algo de Modiano. Mas tá indicado para quem quer acompanhar, viajar pela vida do autor entremeada com as experiências metafóricas das personagens num tom lírico, melancólico e saudoso.

Jean Patrick Modiano nasceu em Boulogne-Billancourt, um subúrbio de Paris, em 1945. Filho de um judeu de origem italiana e de uma comediante belga que se conheceram durante a ocupação nazista na França, é um autor francês ganhador de diversos prêmios, como o Goucourt e o Grand Prix du Roman da Academia Francesa. Com mais de 30 livros publicados em mais de trinta idiomas, em 2014 foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura.


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