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Existência ilegal na ficção

Brincar de Deus é difícil, escrever é conflituoso. Porém, é mais difícil ainda, acordar e descobrir que você é a personagem de um livro de um escritor medíocre.
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Assim como o personagem Gregor, de A Metamorfose, de Franz Kafka acorda certo dia metamorfoseado num inseto, aqui no romance  Nunca o nome do menino (Estevão Azevedo, Terceiro Nome, 182 págs. R$ 20,00) temos uma mulher que descobre que toda a sua vida trata-se de uma obra de ficção. Ao descobrir ser uma personagem de um livro, com sua vida manipulada e criada por um autor, a personagem emplaca uma "batalha" para desprender-se desta vida de personagem de livro. O que ela quer é que sua vida seja real.
Acordar e descobrir ser vítima de um autor, e o que é pior, um autor medíocre, onde sua existência não é fruto da espontaneidade da vida e sim das determinações de um escritor, faz com que a personagem empreenda uma busca pela sua real identidade.

A ideia não é original. O dramaturgo siciliano Pirandelo já havia trabalhado esta temática em Seis Personagens à Procura de um Autor. Mas ainda assim, o escritor brasileiro Estevão Azevedo, faz da ideia uma narrativa diferente na nossa literatura brasileira contemporânea. Por tratar-se de uma leitura complexa  que só segue ritmo com o tempo, o livro cadencia a vida inventada da mulher que relata seus momentos de criança e puerilidade, quando teve seu primeiro amor: um menino. É alternando este tempo passado com suas experiências presentes que a mulher vai contanto tudo.


É o seguinte: Ela acorda, percebe-se presa numa folha branca de papel, sem identidade, sem alma, sem personalidade. Olhou para cima, viu canetas, papeis, notou que alguém a escrevia, tentou levantar-se, não conseguiu e caiu. Só aí se deu conta que estava presa às mãos de um autor sem criatividade, um escritor que não conseguia agradar a todos, principalmente a ela, personagem do livro criado por ele. 

Preenchido de lirismo, metáfora, divagações filosóficas e metafísicas, o livro é de uma densidade psicológica de deixar o leitor engalfinhado com as histórias. É um livro para se ler com calma, paciência e um espírito bem tranquilo. Narrativa conflituosa, permeada  por diálogos curtos, mas de parágrafos longuíssimos e frases intermináveis, o livro parece cansativo, a princípio, mas não é. Não possui um desfecho óbvio nem previsto, eu diria que é surpreendente a ponto de enfim ficarmos ávidos pela literatura brasileira contemporânea, que uma vez por outra nos surpreende com uma obra como esta, que embora classificada como cult, está aí, ao alcance de todos, basta querer lê-la e entender a mensagem que Estevão quer realmente passar para nós. 

Brincar de Deus é difícil, escrever é conflituoso, já confessaram muitos escritores famosos. Porém, é mais difícil ainda, acordar e descobrir que você é a personagem de um livro. Desse processo criativo nós não entendemos, não buscamos entender, porque vai além da mera e vã filosofia. A Editora Terceiro Nome, com sua proposta de lançar uma ficção diferente, consegue sucesso com o premiado livro Nunca o nome do menino, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2009, categoria melhor livro do ano de autor estreante.

A obra Nunca o nome do menino é, talvez, uma tentativa superficial de mostrar como é difícil existir, seja na ficção, seja na realidade.

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